Fogo amigo

Para Planalto, fala de Temer foi “desastrosa” e conspira contra Dilma; Lula pede calma

Após o estrago feito, amigos de Temer tentaram apagar o fogo, alegando que as falas foram "infelizes" e não "conspiratórias", mas o cenário se mantém nebuloso

SÃO PAULO – Depois de um programa em tom misterioso em cadeia nacional exibido nesta semana pelo PMDB e o vazamento da declaração de que será difícil a presidente Dilma Rousseff resistir até o fim do mandato caso mantenha a popularidade nos níveis atuais, as reais intenções do vice Michel Temer no Executivo voltam a ser alvo de grandes questionamentos. A fala a empresários na véspera trouxe à tona um problema que o governo pensou ter superado faz um tempo: as possíveis conspirações de Temer pela presidência da República. Essa seria a “verdade” que ninguém tem condições de barrar a que o partido que o vice comanda teria se referido no programa? A nebulosidade do momento não permite conclusões mais claras.

Nesta sexta-feira (4), um dia após o governo ter conseguido dar um importante passo para acalmar os ânimos – ao menos de maneira provisória – quanto a uma possível saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, todos aguardam pelos efeitos de outra crise, esta construída já na noite da véspera, quando o ex-presidente Lula já estava em Brasília, onde se encontraria com Dilma para uma reunião. Aparentemente, a preocupação do antecessor seria o próprio PMDB, que já mostrou novo afastamento do governo com a saída de Temer e Eliseu Padilha (Aviação Civil) da articulação política.

A imprensa nacional noticia que as avaliações sobre a declaração do vice foram de um posicionamento “desastroso” pelo entorno da presidente e a ala que antes o acusava de tramar por sua queda. A posição teria sido compartilhada inclusive por setores do próprio PMDB, partido do qual Temer é presidente, mas é marcado por grande heterogeneidade. Para eles, o líder teria caído em uma espécie de “armadilha” ao aceitar participar de um evento organizado pelo “Acorda Brasil”, movimento que defende o impeachment da petista.

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Após o estrago feito, amigos de Temer tentaram apagar o fogo, alegando que as falas foram “infelizes” e não “conspiratórias”. Além disso, eles ressaltaram que as frases foram excluídas de um contexto, no qual o vice teria frisado trabalhar para que a atual gestão chegue até 2018. Na mesma linha, Lula também teria tentado esfriar a situação. O ex-presidente defende que sua sucessora procure reaproximação do PMDB, hoje amplamente refratário ao governo. Há quem veja uma grande maioria favorável ao rompimento da base.

Lula tem defendido que se coloque água fria nas tensões envolvendo a colisão entre Joaquim Levy e o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, além da própria relação com o principal partido da governabilidade. O ex-presidente ainda acredita que seja necessário um afrouxamento no ajuste fiscal, liberando crédito para aquecer a economia – o que vai de encontro com o que o chefe da Fazenda pretende, aproximando-se mais do discurso defendido por Barbosa. Como se sabe, há um forte desconforto instalado entre Levy e o legado deixado por Guido Mantega.

Para Planalto, com fala “desastrosa”, Temer conspira contra Dilma; Lula pede calma