Entrevista ao Valor

Para analista da Eurasia, mercado avalia impeachment de Dilma de forma simplória e binária

"Existe uma visão um pouco simplória de que, se Michel Temer assumir a Presidência, vira-se o jogo rapidamente", afirmou Christopher Garman em entrevista ao jornal Valor Econômico

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SÃO PAULO – É difícil imaginar uma saída rápida para a crise pela qual o Brasil passa. Essa é a avaliação de Christopher Garman, chefe global de análise de risco país da Eurasia Group, em entrevista ao jornal Valor Econômico. Para o especialista, o cenário das últimas semanas para a dinâmica do processo do impeachment no Congresso mudou com os episódios recentes da prisão do marqueteiro João Santana, da possível delação de Delcídio do Amaral (PT-MS) e da última fase da Operação Lava Jato, que conduziu coercitivamente o ex-presidente Lula para depoimento.

“Uma eventual queda da presidente vai demorar. E num contexto em que a sobrevivência da presidente vira um jogo dramático, a crise fiscal vai correr solta”, afirmou Garman. O grupo de análise de risco país elevou na última segunda-feira de 40% para 55% as chances da presidente Dilma Rousseff não concluir o mandato, sendo 30 pontos para a possibilidade de cassação da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral, e 25 para o impeachment.

De todo modo, ele ressalta que a queda da atual presidente pode estar sendo vista de maneira exageradamente otimista pelos agentes econômicos. “Hoje, o mercado só está avaliando a questão bem simplória e binária se a presidente cai ou não cai”, observou. “Mas o mercado não está considerando muito que o processo de queda da presidente pode ser feio, com um ambiente muito polarizado, em que a crise fiscal vai se aprofundando mais e mais. Existe uma visão um pouco simplória de que, se Michel Temer assumir a Presidência, vira-se o jogo rapidamente”.

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Apesar de enxergar um agravamento da crise para 2016, Garman vislumbra uma melhora a partir do ano que vem, mesmo se Dilma sobreviver, tendo em vista a superação das eleições municipais e uma maior disposição do PT em negociar reformas consideradas necessárias para a economia. No caso de Temer assumir, ele não enxerga muito capital político para “representar virada”, mas pode ter condições de colocar outras reformas na mesa. Sem embargo, o cenário mais positivo de todos para a recuperação da crise econômica o especialista é o de novas eleições.