Vazado

“Panamá Papers” revela suposto esquema de corrupção global e traz novidades à Lava Jato

Documentos vazados de mais quatro décadas de atividades da Mossack Fonseca, que tem milhares de clientes em todo o mundo, trazem revelações de como celebridades e políticos ocultam dinheiro em paraísos fiscais

SÃO PAULO – O ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação) divulgou na tarde do último domingo uma lista com 11,5 milhões de documentos do escritório de advocacia panamenho Mossak Fonseca e que ligam políticos e personalidades a suspeitas de fraudes. 

Os dados foram vazados por uma fonte anônima para o jornal alemão “Sueddeutsche Zeitung”, que compartilhou as informações com o ICIJ e mais de cem veículos de comunicação no mundo, mostrando como a Mossack “ajudou clientes a lavar dinheiro, escapar de sanções e evitar impostos”. As informações contidas no vazamento contemplam as atividades da empresa entre 1970 e 2016 e foram chamadas de “Panamá Papers”. 

“Os documentos contêm novos detalhes sobre grandes escândalos, como (…) o extenso caso de lavagem de dinheiro no Brasil e alegações de propina que abalaram a Fifa”, afirma trecho da apresentação do documento.

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Na lista, estão nomes como o presidente da Argentina Mauricio Macri, pessoas ligadas ao presidente russo Vladimir Putin, jogadores como o argentino Lionel Messi, além de trazer novidades com relação a investigados na Operação Lava Jato. 

No Brasil, o UOL, o“O Estado de S.Paulo” e a RedeTV!, que participam da rede global de jornalistas, revelaram as primeiras informações sobre o caso. As investigações revelam 107 offshores para pelo menos 57 indivíduos ou empresas já publicamente relacionados ao esquema de corrupção originado na Petrobras, sendo que várias delas são ainda desconhecidas pelos investigadores brasileiros.  

As offshores seriam ligadas à empreiteira Odebrecht e às famílias Mendes Júnior, Schahin, Queiroz Galvão, Feffer, do Grupo de Papel e Celulose Suzano, e Walter Faria, da Cervejaria Petrópolis. Os Feffer não sofrem acusações da Lava Jato; porém, há uma investigação em curso sobre a compra da Suzano Petroquímica pela Petrobras, em 2007.

Entre os políticos brasileiros citados de forma direta ou indireta estão o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o usineiro e ex-deputado federal João Lyra (PTB-AL).  Um dos casos também está relacionado ao senador Edison Lobão (PMDB-MA). As defesas de Lobão e de João Henriques não comentaram o caso. 

Sobre Cunha, a documentação confirmaria que o parlamentar controla uma  offshore, a Penbur Holdings, que foi usada para receber suborno no exterior, segundo outro delator, o empresário Ricardo Pernambuco, da Carioca Engenharia. Cunha nega com veemência que tenha recebido propina e que tenha contas ilegais no exterior.

A Mossack Fonseca afirmou que só abre as offshores, sem interferir na operação delas. O escritório disse respeitar a lei e, em 40 anos, nunca foi acusada de nenhum crime. 

Outras figuras políticas e famosos que são citadas são o presidente chinês Xi Jinping,  Petro Poroshenko, presidente da Ucrânia; Sigmundur Gunnlaugsson, primeiro-ministro da Islândia, entre outros. 

“Acho que o vazamento irá se mostrar o maior golpe que o mundo offshore já sofreu, por causa da amplitude dos documentos”, disse Gerard Ryle, diretor do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos.

O jornal britânico Guardian disse que os documentos revelaram que uma rede de acordos e empréstimos offshore secretos no valor de 2 bilhões de dólares apontou para amigos íntimos do presidente da Rússia, Vladimir Putin. A Reuters não conseguiu confirmar os detalhes de forma independente.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, negou a acusação. “O principal alvo desta desinformação é o nosso presidente, especialmente no contexto das próximas eleições parlamentares e no contexto de uma perspectiva de longo prazo – ou seja, as eleições presidenciais em dois anos”, disse Peskov em teleconferência com jornalistas.

O Escritório de Impostos da Austrália informou estar investigando mais de 800 clientes abastados da Mossack Fonseca. “Já ligamos mais de 120 deles a um provedor de serviços offshore associado localizado em Hong Kong”, disse o escritório em comunicado, sem identificar a empresa de Hong Kong.

“ATAQUE CIBERNÉTICO”
O diretor da Mossack Fonseca, Ramon Fonseca, negou qualquer irregularidade, mas disse que seu escritório sofreu um bem-sucedido, porém “limitado”, ataque cibernético. o advogado descreveu a invasão e o vazamento como “uma campanha internacional contra a privacidade”.

Fonseca, que até março era uma importante autoridade do governo do Panamá, disse em uma entrevista à Reuters por telefone no domingo que sua firma, especializada em abrir empresas offshore, formou mais de 240 mil companhias. A “grande maioria” foi usada para “fins legítimos”, alega.

Os documentos ainda mostram o envolvimento da família do primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, em empresas offshore, incluindo sua filha, Mariam, e seu filho, Hussain. O ministro da Informação paquistanês, Pervez Rasheed, negou qualquer irregularidade da parte de Sharif.

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A agência fiscal da Nova Zelândia disse estar trabalhando de perto com seus parceiros de tratado fiscal para obter detalhes completos de qualquer contribuinte neozelandês que possa estar envolvido em arranjos facilitados pela Mossack Fonseca.

Separadamente, reportagens afirmaram que os dados vazados apontam para uma ligação entre um membro do Comitê de Ética da Fifa e um dirigente de futebol do Uruguai que foi preso no ano passado durante um inquérito dos Estados Unidos sobre a corrupção no futebol.

No domingo, o Comitê de Ética da Fifa disse que Juan Pedro Damiani, membro da câmara adjudicatória do comitê, está sendo investigado por uma possível relação de negócios com o também uruguaio Eugenio Figueredo, um dos dirigentes presos em Zurique em 2015.

Damiani disse à Reuters em Montevidéu que cortou relações com Figueredo quando este último foi acusado de corrupção.

(Com Reuters)