Zika no radar

O controverso impacto do zika vírus no mercado e na política brasileira

Enquanto aéreas devem sair perdendo, empresas do setor de saúde podem ser beneficiadas, mas impacto ainda é limitado - contudo, controvérsia maior reside na política nacional

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SÃO PAULO – O assunto zika vírus veio para ficar no noticiário, não somente no brasileiro, mas no internacional. Além das dúvidas com relação aos reais efeitos do vírus e a sua relação com os casos de microcefalia, o cenário segue incerto também em termos políticos e para o mercado. 

Uma grave crise de saúde nunca é algo positivo, ainda mais para a imagem do Brasil, que já sofre com uma grave crise econômica e sediará as Olimpíadas no meio do ano, mas há aqueles que vejam alguns beneficiados com o caso do zika (ou pelo menos, sem grandes impactos negativos sobre a economia). 

“Ainda temos que encontrar evidências de que o vírus Zika terá um impacto duradouro sobre as economias e os mercados de ações latinos”, disse o Morgan Stanley em relatório de análises publicado na semana passada. 

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Para o Morgan, não há impacto duradouro nos mercados locais de ações. As ações mais expostas ao tema provavelmente serão de linhas aéreas, assim como de aeroportos e companhias de aluguel de automóveis, disseram os analistas. Entre elas, estão a Latam, a Gol (GOLL4) e a Asur.

Para o banco, o registro de um crescimento importante nas mortes relacionadas com o vírus e a confirmação de que ele pode ser transmitido entre pessoas poderiam fazer com que um impacto fosse prolongado. “Esses dois fatores combinados podem levar a um significativo isolamento da população e potencialmente ter um impacto negativo importante na economia e no mercado”.

Por outro lado, no setor de saúde, companhias como Fleury (FLRY3) e Dasa (DASA3), e varejistas como Raia Drogasil (RADL3) devem aumentar vendas, embora com o impacto limitado nas receitas. 

Com o zika, as ações das empresas de viagem já caíram “depois que autoridades de Saúde dos EUA aconselharam que mulheres grávidas ou que estejam programando uma gravidez não visitem as regiões afetadas, como Brasil, Porto Rico e Barbados”, conforme a Bloomberg Intelligence. Essa é uma má notícia para o Brasil, dominado pela recessão, e durante o carnaval, que atrai estrangeiros. O país também espera receber meio milhão de turistas nos Jogos Olímpicos em agosto, durante o inverno tropical, mais moderado, mais seco e menos favorável ao mosquito.

Poderia haver uma módica esperança financeira dentro disso tudo para o setor de seguros de viagem: a Reuters informou que a RoamRight, fornecedora líder do setor nos EUA, observou um aumento de quase 10 por cento desde dezembro nos pedidos de apólices que cobrem viagens às regiões afetadas pelo zika.

Uma vencedora inesperada?
Em meio a tantas questões sobre o impacto do zika na economia e no mercado brasileiros, as questões também são muitas sobre o efeito na já tão conturbada política nacional. Os últimos dias levaram ao questionamento: afinal, a popularidade da presidente Dilma Rousseff deve diminuir ainda mais em meio ao descontrole da doença ou esta pode ser uma oportunidade de buscar união nacional, beneficiando a presidente. 

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“O zika disparou um alerta global, mas existe um sinal doméstico de esperança para Dilma, que está recrutando soldados, estudantes e funcionários públicos em um esforço para conter a propagação da pandemia. A presidente começou 2016 sob ameaça de impeachment pelo Congresso, após um ano de crise política e econômica que custou ao país seu grau de investimento”, ressaltou a Bloomberg, apontando-a como uma vencedora inesperada do combate ao zika. 

A agência de notícias ouviu o professor de história contemporânea da FGV Américo Freire, que destacou que o apelo pela união nacional em uma emergência de saúde representa uma chance de mudar o foco.

“Dilma está tentando algo, se colocar como chefe de estado”, disse Freire. “Essa crise terrível na saúde pública pode ser um elemento para dar alguma sustentação política, moral, sair de uma agenda de disputa partidária”. A Bloomberg ressaltou que a presidente possa se tornar a vencedora inesperada em relação ao combate ao zika. 

No último sábado, a presidente foi ao Rio de Janeiro visitar bairro com alto índice de infestação de Aedes aegypti como  parte do Dia Nacional de Mobilização contra o Mosquito.  Durante cerca de uma hora, Dilma Rousseff, o governador do estado, Luiz Fernando Pezão, e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, conversaram com moradores e distribuíram folhetos informativos e camisetas para as famílias do bairro.

Assim, o desenrolar da trama pode ser positivo, com a presidente Dilma podendo voltar a se aproximar da população. Porém, conforme ressaltou matéria do Wall Street Journalo cenário segue complicado para a presidente. No dia em que ela fez pronunciamento em rede nacional sobre o surto da zika, Dilma sofreu novos protestos. 

Conforme destacou o diretor para América Latina da consultoria Eurasia Group, João Augusto de Castro Neves, para o WSJ, apostar em Zika para reforçar as credenciais presidenciais de Dilma “pode ser uma faca de dois gumes”. “Mesmo que, de um ponto de vista, possa ser usado positivamente pelo governo, há um outro ângulo que poderia colocar o governo no centro das atenções de forma negativa como incompetente”. O cenário se agrava se o surto se espalhar, afirma o jornal. 

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