Mantega coloca em pauta restrição ao crédito, medida que afeta o setor bancário

Conter a expansão do crédito alivia riscos de inflação, mas pode prejudicar setor bancário, avaliam analistas

SÃO PAULO – O Governo Federal sinalizou no final de semana que buscará caminhos alternativos para conter a demanda agregada, que na sua percepção está aquecida e pode provocar aumento da inflação. O ponto a ser atacado é a expansão do crédito, principalmente de setores como o de automóveis.

Analistas receberam com cautela as propostas, que podem afetar o desempenho do setor bancário. Ao mesmo tempo, avaliam que conter riscos de inflação é sempre uma atitude bem vinda pelo mercado, e as medidas do Governo podem ser eficientes se bem direcionadas.

Restrição ao crédito

As medidas devem ser discutidas nessa semana entre o ministro da Fazenda Guido Mantega e representantes da indústria e do sistema financeiro nacional. O plano da Fazenda deve incluir restrições ao aumento do crédito, com foco na carteira de veículos, segmento impulsionado pelo alongamento dos prazos de financiamento. A proposta do governo restringe o prazo dos contratos de empréstimo de automóveis de 80 para 36 meses.

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Nesta segunda-feira (24), Mantega reúne-se com dirigentes do Instituto Brasileiro de Siderurgia a fim de discutir perspectivas de oferta e consumo de aço no país. Na quarta-feira, encontra-se com representantes da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), e na sexta com o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial.

Crédito x Política monetária

A corretora SLW faz uma análise do impacto para o setor bancário e sentencia: “as medidas, se aprovadas, serão negativas para o setor bancário brasileiro, uma vez que os bancos apostaram na continuidade do grande crescimento do crédito, em especial do crédito ao consumidor para a compra de automóveis”.

Por outro lado, a Link já esperava que o Governo agisse para conter a expansão do crédito com medidas que fossem além do aumento da taxa básica de juro. Na opinião da corretora, pensar em compulsório ou limitação de crédito como alternativa para a elevação da Selic é um erro. “Que deve haver um aumento no juro, não há dúvida”, julga a análise.

“Preocupar-se com o crescimento do crédito nos parece sensato”, mas as medidas devem ser “complementares ao juro e, principalmente temporárias”, afirma em relatório a Link.

Para a corretora, ações que atinjam setores determinados, como o de automóveis, e evitem apenas o crescimento da oferta de financiamento acima de 30% podem ser implantadas, permitindo ao sistema financeiro permanecer forte e rentável. “Ao ver os Estados Unidos hoje, percebemos como isso é importante”, conclui a avaliação.

Inadimplência

Na opinião da corretora de câmbio NGO, a atitude do Ministério da Fazenda “corretamente aponta na direção da compatibilização dos prazos de crédito atuais, notoriamente exacerbados” que poderiam levar a um quadro de inadimplência, uma vez que a sociedade brasileira “não tem vivência com este acesso facilitado em demasia”.