Imprensa internacional

Lula é vítima de sua arrogância, mas ainda não está acabado, diz Economist

"O Brasil está enfrentando uma longa luta entre o Partido da Justiça e o líder que mais poderosamente encarnou a causa da justiça social. A tragédia é que eles não estão no mesmo lado", afirma a revista

SÃO PAULO – Além de pedir a renúncia da presidente Dilma Rousseff, a revista britânica The Economist destacou nas suas páginas desta semana o cenário bastante complicado que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta atualmente.

“Se ele é ou não culpado, Lula perdeu o respeito”, afirma a publicação, ressaltando o último Datafolha, com a rejeição contra ele batendo 57%, recorde entre os possíveis presidenciáveis. Porém, aos 70 anos, afirma a revista, Lula não está acabado e suas habilidades políticas são incomparáveis. 

A revista destaca que Lula está sendo acusado de ocultação de patrimônio, referindo-se ao apartamento no edifício Solaris, no Guarujá. Sérgio Moro, o juiz federal que conduz a Operação Lava Jato em primeira instância, determinou que o ex-presidente prestasse depoimento, no início de março sobre as doações para o seu Instituto. A Economist destaca ainda que, na semana passada, Moro divulgou os áudios das gravações, o que foi contestado até mesmo pela The Economist. 

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A Economist destaca a trajetória do ex-presidente: nascido em uma família pobre do Nordeste, quando criança, Lula vendeu laranjas e amendoins nas ruas e ficou conhecido nacionalmente como um líder do movimento sindical durante a ditatura militar. Na quarta tentativa, Lula foi eleito presidente em 2002 e adotou um estilo pragmático no poder ao mesmo tempo em que buscou diminuir a pobreza no País, sendo ajudado por um boom de commodities. 

“Com suas frases singelas e raciocínio rápido, Lula teve uma relação única com os brasileiros comuns. Ele se tornou um símbolo global de mudança social progressiva”, afirma a publicação, o que fez com que ele deixasse o cargo com uma aprovação de 83%. 

“O que deu errado então?”, questiona a revista. Lula deixou o cargo e voltou para seu modesto apartamento em São Bernardo do Campo e se tornou um embaixador dos negócios brasileiros, especialmente de construtoras. Ele cobrava US$ 100 mil por palestra, afirma (o próprio ex-presidente chegou a dizer US$ 200 mil), o que foi posto em dúvida pelos promotores, mas que ainda não conseguiram provar que ele recebeu presentes em troca de contratos com a Petrobras.

“Lula está longe de ser o primeiro herói da classe trabalhadora que aprecia as coisas boas da vida. Ele é em parte uma vítima de sua própria arrogância. Ele desenvolveu um ódio próprio da oposição de centro-direita. Ele tentou isolá-la através da polarização política entre ‘o povo’ e os ‘neoliberais’ e pela engenharia de uma coalizão (atualmente em ruínas) de oportunistas”. A Economist lembra que líderes do PT foram condenados no mensalão e, quando ele teve que responder sobre isso em seu primeiro mandato, ele reagiu. “Mas o ferro tinha entrado em sua alma”, afirma o Economist [expressão para designar “angústia ou aborrecimento que é sentida com intensidade”].

“O Brasil está enfrentando uma longa luta entre o Partido da Justiça e o líder que mais poderosamente encarnou a causa da justiça social. A tragédia é que eles não estão no mesmo lado”, conclui a revista. 

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