Entrevista

Líderes do MBL defendem privatização da Petrobras e chamam Rede de ‘estelionato’

Kim Kataguiri e Renan Santos defendem impeachment, dizem confiar em Temer e lutam por reforma liberal da política econômica com "ativismo de guerrilha"

SÃO PAULO – O protesto “vazio” do último domingo foi apenas um “esquenta” para as grandes manifestações convocadas para 13 de março do ano que vem, dizem os líderes do MBL (Movimento Brasil Livre), Kim Kataguiri e Renan Santos. Para as próximas mobilizações, eles esperam contar com uma quantidade ainda maior de manifestantes do que a vista nos atos de março, abril e agosto deste ano. Segundo eles, até que chegue o momento destes grandes protestos, a ideia é fazer um forte ativismo de guerrilha para pressionar políticos a prosseguir com o andamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

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Enquanto o movimento, que ganhou um importante protagonismo nas manifestações contra Dilma se prepara para pressionar congressistas, setores ligados ao PT fizeram manifestações nesta quarta-feira (16) que foram maiores do que as de domingo segundo o Datafolha (55 mil contra 40,3 mil pessoas). No entanto, Kataguiri e Santos dizem não se preocupar e dizem que estes protextos não possuem legitimidade popular. “Não existe mobilização de sociedade civil, existe mobilização de militância partidária e de movimentos sociais, que é um público que está fixo lá, não é ninguém que eles conseguiram convencer”, avalia.

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Confira a íntegra da entrevista com os líderes do MBL: 

InfoMoney: Como vocês avaliam o esvaziamento dos protestos deste domingo, vocês já esperavam que fossem menores pelo pouco tempo que houve para divulgar os atos?Renan Santos: Bom, a gente esperava menos gente ainda do que foi. Acabou sendo bastante surpreendente a gente ter conseguido mobilizar uma quantidade tão grande de pessoas em menos de duas semanas. A ideia era só mostrar que nós estamos voltando às ruas e que a população está atenta quanto ao início do impeachment e, aí sim, alavancar a mobilização de 13 de março de 2016, que esperamos que seja até maior do que as de 2015.

IM: Ao mesmo tempo em que vocês fizeram essa manifestação, o PT convocou uma outra manifestação para o dia 16, que eles esperam que seja até maior do que a de vocês. Vocês têm algum receio de perder força caso isso aconteça?
RS: Eles fizeram três manifestações antes dessa tentando espelhar a nossa e todas foram infinitamente menores. A última manifestação que a gente fez na Paulista foi maior do que a do Fora Collor. Um esquenta chamado com 8 dias de antecedência foi maior do que o Fora Collor. Eles não entendem a dimensão disso. O PT não consegue fazer isso porque não têm participação popular.

Kim Kataguiri: Não existe mobilização de sociedade civil, existe mobilização de militância partidária e de movimentos sociais, que é um público que está fixo lá, não é ninguém que eles vão convencer.

IM: Vocês já esperavam a abertura do processo de impeachment?
RS: A gente trabalhava com a data de 21 de outubro que era sem levar em conta um acordo entre o Eduardo Cunha e o governo, mas tiveram discussões bem profundas neste sentido. O que ninguém esperava era a prisão do Delcídio, que embaralhou muito o meio campo, ao mesmo tempo em que começou a pipocar a questão do Conselho de Ética, que fez com que o Cunha percebesse que o acordo não ia dar certo. Quando a gente viu o negócio do Delcídio a gente já percebeu que era questão de tempo até ser aberto o impeachment. Só o timing não foi bom.

IM: Pela proximidade do recesso parlamentar?
RS: Isso. Essa virada de ano, o recesso, a votação da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), tudo isso foi muito inoportuno. Não é politicamente interessante, mas a gente tem que trabalhar com a realidade que a gente tem.

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IM: A postura do MBL em relação ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) mudou? Ou vocês sempre tiveram uma visão crítica em relação a ele?
RS: Sempre tivemos, a questão foi que alguns setores da imprensa ligados ao governo tentaram fazer uma conexão entre nós e o Eduardo Cunha, porque como eles demonizam o Cunha, querem fazer com que outros acreditem que nós somos iguais a ele. Nunca houve uma declaração sequer nossa apoiando ou referendando o Eduardo Cunha. O que irrita eles é que nós protocolamos um pedido de impeachment junto com o Cunha. 

KK: tentam ligar o fato de que nós fomos obrigados a protocolar com ele porque ele é o presidente da Câmara e a única pessoa do mundo que pode acolher o pedido, para forçar uma aliança imaginária que haveria entre nós ele.

IM: Como voês receberam a notícia de que o PSDB está unificado em torno do impeachment?
RS: Foi uma decisão atrasada e, mesmo assim, com cada um com a sua intensidade de desejo de impeachment. Ficou claro que o PSDB foi empurrado ladeira acima. Claro que existem figuras boas no partido como o Carlos Sampaio (PSDB-SP) e o Bruno Araújo (PSDB-PE). São pessoas que trabalharam muito bem. Não podemos falar o mesmo de José Serra (PSDB-SP), de Fernando Henrique Cardoso ou de um Aécio Neves (PSDB-MG). Eles perderam o bonde da história já. As pessoas não estão atribuindo a eles a liderança do processo.

IM: E o que vocês esperam de um eventual governo Temer. Ele tem base para implementar uma mudança na política econômica?
KK: Se ele passar o impeachment, ele já tem dois terços do Congresso. Ele tem a liderança das duas casas.

RS: Enxergamos uma euforia pós-impeachment que pode servir de elemento unificador nacional. Tem um pacote de medidas econômicas muito boas no programa “Ponte para o Futuro” do PMDB. Vai poder dirimir os efeitos da crise. Nosso compromisso é apoiar tudo aquilo que diminua o tamanho do Estado e aumente a liberdade econômica. Se for necessário faremos o combate público a pessoas que sejam contra esse movimento. Então se o Temer for privatizar empresas públicas, algo que nós defendemos e que as pessoas pediram nas últimas manifestações, como a privatização da Petrobras e dos Correios, nós o apoiaremos. Ele estaria em um momento muito propício às reformas.

IM: Nessa questão de política econômica, muitos economistas falam de reforma na previdência e na desindexação do Orçamento. Você acha que com o PT na oposição o Temer seria capaz de fazer isso?

RS: Eu acho que ele vai para cima disso e que é perfeitamente possível ir para o enfrentamento nesses temas. Ninguém previa um movimento civil pró-impeachment que saísse sem dinheiro e sem base na sociedade civil organizada, assim como ninguém prevê que possamos fazer um debate sobre a previdência em alto nível e com a participação popular. É possível debater a previdência começando pelos excessos dos gastos no judiciário, pelo excesso no gasto com militares. Existe claramente um descompasso entre a previdência pública e a privada, sendo que a pessoa que trabalha em uma empresa privada vai entender que há uma injustiça e não vai aderir ao discurso do PT na oposição de graça.

KK: É possível não só acabar com o prejuízo no longo prazo como transformar a previdência em algo lucrativo como o Chile e a Suécia conseguiram, baseando a previdência em poupança e não em dívida. Você tem na Suécia a opção de 600 fundos de investimento e a pessoa que coloca o dinheiro dele ali não está pagando por alguém de uma geração anterior. Não é uma previdência que se baseia em uma pirâmide geracional. É uma que se sustenta pelos seus próprios dividendos. Se o governo quiser entrar em um debate destes será ótimo.

RS: o problema é que o governo quer escolher quanto vai render a sua previdência. 

IM: Vocês acreditam que o PSDB poderá migrar para a oposição com o objetivo de se viabilizar em 2018 ou vocês acham mais provável um acordo que deixe Temer no governo do estado de SP e Aécio na Presidência?
KK: É mais provável que eles se unam em torno de um acordo. É bem mais o estilo do PSDB do que adotar uma postura combativa.

RS: E o PSDB não vai virar oposição com o bloco inteiro. Partidos como o PSDB, o DEM e o PSC não vão ficar eclipsados pelo PT e pela Rede Sustentabilidade, que serão as estrelas da oposição. Eles não serão aliados de inimigos de duas décadas.

IM: E como vocês veem o avanço da Rede?
RS: A Rede é um perigo. Ela tem um canto da sereia que pode encantar setores volúveis da classe média. Desavisados que caem em propaganda sobre nova política e sustentabilidade, mas a Marina Silva é a velha política sob um novo rótulo.

KK: Tanto é a velha política que ela aceita velhos políticos. Como Alessandro Molon e Randolfe Rodrigues.

RS: E ela traz um Eduardo Gianetti para acenar ao mercado como o Lula acenou na Carta aos Brasileiros, e aí ele engana até investidor e especialista, que ficarão chocados depois quando a Marina começar com as medidas populistas. Um dos trabalhos primordiais do MBL é mostrar que partidos como a Rede são estelionato, são um golpe. Uma forma de reorganizar o PT em uma embalagem nova para as novas gerações. É um perigo que gente como a Neca Setúbal embarque nessa conversa mole da Marina. É uma irresponsabilidade. São pessoas da elite que compram esse discurso e mostram como a nossa elite é pouco estudada.

IM: Também tem a possível saída do Levy, você acha que o Meirelles poderia fazer um trabalho melhor?
KK: Acho que num governo Dilma nenhum ministro da Fazenda poderia fazer melhor. O governo se resume hoje a se defender. Nenhuma reforma passa e nenhum projeto de lei passa. O Levy é simplesmente um nome para passar confiança para o mercado.

IM: Além das manifestações, que tipo de ações vocês tomarão no Congresso? Com quem vocês têm interlocução no Congresso?
RS: Falamos com pessoas do PMDB, tanto do baixo clero, quanto do topo, e também com pessoas do PSDB. Existe o grande espetáculo que as pessoas veem nas manifestações e as redes sociais, que servem para pressionar políticos. A pressão sobre o TCU é um exemplo disso. Eles não tinham margem de manobra, eles tinham que reprovar as contas. O TCU experimentou uma pressão social que nunca viveu antes. Nós convencemos o Esperidião Amim (PP-SC) a votar a favor do impeachment. Se você vira o Esperidião, você não vira só ele. Você vira uma das mentes pensantes do PP. Se você vira um Celso Russomano (PRB-SP), você virou o líder da bancada de 20 votos do PRB. Então você pode virar até uma Igreja Universal. Vamos focar neste tipo de ação: ataques a deputados, ativismo de guerrilha, ativismo de baixo custo e alto impacto… São ações para nos ajudar a ganhar essa guerra pelo impeachment.

IM: Vocês disseram antes da entrevista que sabiam os nomes da equipe econômica de um eventual governo Temer. Quem são?
RS: A gente tem o caminho que é liberal, e os nomes que o PMDB tem para a equipe econômica são nomes poderosos e que poderiam compor o Brasil nessa travessia que a gente precisa passar para chegar a um futuro melhor.

IM: Vimos recentemente a vitória do Mauricio Macri na Argentina e da oposição no legislativo da Venezuela, você acha que está havendo uma mudança na América Latina?
RS: Dependendo da percepção. Se não houver um combate real contra as ideias ruins que estão arraigadas na academia e nas redações dos jornais isso vai ser efêmero. O Macri vai sofrer pressão de sindicatos, de jornalistas kirchneristas e pode cair. Assim como pode ocorrer aqui se a gente não entender que a nossa luta é com ideias competitivas. Nós precisamos lutar pelas ideias que deram certo no primeiro mundo e não fazer reformas com vergonha delas como aconteceu no governo FHC. O populismo se vale da incompetência dos competentes.