Investment grade no Brasil é totalmente factível, porém não no curtíssimo prazo

Premissas são boas, mas existem obstáculos no caminho; confira a análise do economista-chefe da UpTrend Consultoria

SÃO PAULO – Corroborando a percepção de muitos analistas e participantes do mercado, que nas últimas semanas vinham sugerindo que a revisão para cima da classificação de risco dos títulos de dívida externa brasileira deveria ocorrer ainda no primeiro semestre deste ano, a Fitch Ratings elevou na última quinta-feira (10) o rating soberano do Brasil de BB para BB+, com perspectiva estável.

Isso significa dizer que o país está agora um degrau abaixo do tão sonhado grau de investimento, ou investment grade, segundo jargão de mercado.

Segundo a Fitch Ratings, o upgrade é reflexo da significativa melhora na situação externa do país, políticas macroeconômicas prudentes, aumento da poupança doméstica e mais uma lista de itens, que incluiu o interessante nível das reservas internacionais, que assegura ao Brasil melhores condições de cumprir seus compromissos financeiros, inclusive caso ocorra uma eventual deterioração do quadro econômico internacional.

Excelente, mas porque não somos investment grade?

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Em sua análise, a Fitch Ratings enumera uma série de avanços obtidos, que, à primeira vista, principalmente para os mais leigos e/ou ingênuos, colocam a economia brasileira em um patamar muito elevado. Mas a verdade é que, mesmo estando no rumo certo, o caminho para o tão sonhado investment grade será árduo e demandará grandes esforços.

“O investment grade no Brasil é totalmente factível, porém não no curtíssimo prazo. Se a maior parte das premissas for cumprida, o upgrade pode vir de 2008 em diante, porém não depende das agências de risco ou dos pedidos do ministro da Fazenda e sim da capacidade do Brasil de imprimir um ‘esforço extra'”, comenta Jason Freitas Vieira, economista-chefe da UpTrend Consultoria.

Jason explica que, dentre os critérios que levam à decisão sobre risco soberano, são observados fatores como estabilidade monetária, liquidez externa, peso da dívida pública, peso da dívida externa pública e privada, perspectiva de crescimento econômico, flexibilidade e contingência extra-orçamento, passivos governamentais e reformas econômicas, além, é claro, de risco político sob controle.

“Neste cenário, o Brasil está fazendo alguns progressos de modo a se inserir nas classificações de grau de investimento, porém está travado em alguns pontos vitais”, lamenta.

E que o devemos fazer?

Dentre estes, o economista destaca que nem todos acreditam na performance macroeconômica brasileira e, apesar dos bons resultados já apresentados, retrocessos são considerados normais, principalmente quando existe política envolvida.

“Em 2007, mesmo com o forte empurrão do setor externo, espera-se que o Brasil cresça 50% menos que a média dos países emergentes. Mesmo considerando-se a queda constante dos juros, a maior oferta e demanda por crédito e a revisão do PIB, o consumo continua em níveis medíocres e abaixo da capacidade de nosso mercado”, avalia.

Jason lembra também que o Brasil é carente de reformas institucionais, cita a importância da reforma tributária, política, da previdência, trabalhista e do setor financeiro. “Esta falta de avanço é observada de perto pelas agências de classificação”.

Em resumo, o economista acredita que o tão sonhado investment grade passa pelo crivo da confirmação de um crescimento econômico consistente e duradouro, com inflação sob controle, e melhora nas relações dívida externa/exportações e dívida pública/PIB, além de regulamentos claros para investimentos diretos estrangeiros e aprovação de reformas estruturais.