Cenário melancólico

FT diz que restante do mandato de Dilma será esgotante (mas ressalta uma boa notícia)

Publicação britânica destaca que o novo pragmatismo econômico da presidente enfrenta um teste esgotante, mas destaca que correção nos rumos é importante para o Brasil

SÃO PAULO – Em reportagem desta segunda-feira (4), o jornal Financial Times destacou os problemas econômicos e políticos que a presidente Dilma Rousseff vêm enfrentando no início do seu segundo mandato. Na matéria, chamada “Brasil está sofrendo com recessão e escândalo”, a publicação britânica destaca que o novo pragmatismo econômico da presidente enfrenta um teste esgotante.

O jornal ressalta que, em um mundo de taxas de juros perto de zero, o Banco Central do Brasil aumentou a Selic a 13,25% ao ano, como parte dos esforços do País para “colocar a casa em ordem”. Ao mesmo tempo, a economia deve encolher cerca de 1% em 2015 e ter a pior recessão em 25 anos, o desemprego tende a aumentar e a inflação deve ficar acima de 8%, quase o dobro da meta oficial. Depois de anos de crescimento rápido e de crédito fácil, o Brasil agora enfrenta problemas.

Além disso, o jornal destaca que a maior economia da América Latina também está se recuperando de um escândalo de corrupção na Petrobras, que se acredita ser o maior da história nacional. Combinado com a recessão, isso tem fragilizado a posição da presidente Dilma Rousseff. “Mesmo em uma região de líderes fracos, sua taxa de aprovação sombria se destaca. Com popularidade de 13%, a sua popularidade é ainda menor do que a de Nicolás Maduro, o presidente da Venezuela”.

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E, aponta o jornal, há três razões principais para melancolia do Brasil: a desaceleração da economia da China, que tem levado à queda dos preços das commodities forçaram o Brasil e outros países de commodities na região a apertarem os cintos. Além disso, a perspectiva de aumento das taxas de juros nos Estados Unidos ameaça sugar liquidez internacional para fora do país. Porém, acima de tudo, o Brasil está pagando o custo da “crença errada de Dilma durante o seu primeiro mandato no chamado “desenvolvimentismo”.

Essa crença na intervenção estatal inclui taxas de juro artificialmente baixas, expansionismo fiscal, um retorno limitado para o investimento privado na tão necessária infraestrutura, e controle dos preços de gasolina e eletricidade. “Tais medidas deveriam impulsionar o crescimento. Ao invés disso, mostraram-se tóxicas. O investimento das empresas entraram em colapso. Em março, a confiança da indústria caiu para seu nível mais baixo desde 1998”.

Por outro lado, o FT destaca uma boa notícia: a que Dilma tem, pelo menos em parte, visto o erro de seus caminhos. Ela entregou as rédeas da política econômica para o ministro da Fazenda Joaquim Levy. O economista PhD na Universidade de Chicago está cortando custos para tapar o buraco nas contas fiscais do Brasil e assim salvaguardar a classificação de grau de investimento do país. “A austeridade é dolorosa, mas o preço de não agir é ainda maior”, afirma o jornal.

E algumas reformas que favoreçam o crescimento, tais como melhores condições de concessões de infraestrutura, foram apresentadas. “Os mercados financeiros já não estão em um estado de pânico. Houve até uma série de grandes negócios de private equity. Depois de um miserável ano de 2015, as perspectivas para o próximo ano estão um pouco melhores”, afirmou o FT.

Porém, aponta o jornal, o mais impressionante é como Dilma tem permitido poder de lixiviação de suas mãos. Cada desenrolar do escândalo da Petrobras envolvendo aliados do governo na coalizão governista geram pressão no Executivo, diz o jornal, ressaltando que os líderes da Câmara dos Deputados e do Senado são do PMDB, enquanto o vice-presidente Michel Temer é agora articulador político.

“É preocupante, uma vez que Dilma enfrenta mais quatro anos no cargo. Por enquanto, o pragmatismo econômico prevalece. Mas é uma questão em aberto se ela será capaz de manter a nova ortodoxia, especialmente se a recessão se aprofundar”, afirma o FT. O jornal destaca que os protestos sociais estão aumentando e que uma coisa é clara, “o restante do mandato de Dilma será esgotante, de fato”.