Imprensa internacional

FT aponta Bolsonaro como o mais provável sucessor de Temer e alerta: “esperanças não passarão de um sonho”

Para o jornal britânico, perspectivas para as reformas são sombrias

SÃO PAULO – A retomada do Ibovespa e o rompimento recorrente de suas máximas históricas em sessões recentes têm intrigado não somente muitos investidores por aqui, mas também a imprensa internacional. Um dos “céticos” com tamanho ânimo dos investidores é o jornal britânico Financial Times, que aponta que as grandes esperanças para o Brasil provavelmente continuarão a ser um sonho.

De acordo com o correspondente Jonathan Wheatley, quem olha para a alta de 22% do Ibovespa no ano e do avanço de 4,5% do real frente o dólar dificilmente imaginara que esse País é dominado pela crise. “E ainda assim o é”, afirma a publicação, lembrando que na semana passada Michel Temer foi alvo da “flechada final” do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que denunciou o presidente. “Profundamente impopular, com uma aprovação de apenas 5%, ele corre o risco de se tornar o segundo presidente em dois anos a ser tragado por um escândalo de corrupção que já arrastou alguns dos maiores nomes empresariais e da política brasileira”, ressalta a publicação.

O FT ainda ressalta que, mesmo que Temer sobreviva (o que, aliás, deve acontecer), o seu mandato termina até o fim do ano. E é isso o que chama a atenção do jornal. “Se as pesquisas de opinião estiverem certas, o seu mais provável sucessor, Jair Bolsonaro, é um populista de extrema direita que pensa que a polícia deveria ter licença para matar. As perspectivas de uma reforma liberal e pró-crescimento são sombrias”, aponta a publicação, reforçando uma avaliação recorrente da mídia estrangeira ao tratar o deputado federal como uma incógnita em termos econômicos. Neste sentido, vale destacar a notícia da revista Época da véspera de que Bolsonaro tem procurado economistas liberais dispostos a se associar a sua campanha.

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Mesmo em meio a esse cenário incerto, o jornal britânico aponta que os investidores estão “precificando a perfeição”. E por que isso? “É fácil acusá-los de otimismo cego. As ações brasileiras têm subido desde janeiro de 2016, quando o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que se seguiu em agosto, começou a parecer provável”.

Porém, também há motivos mais sólidos para otimismo: o FT aponta que não é só a economia está voltando a crescer neste ano. “Mesmo quando a crise política girou em torno de sua cabeça, Temer e sua equipe estão fazendo o seu trabalho”, aponta o correspondente.

Wheatley mostra os dois lados da moeda. No caso otimista, aponta que Temer reuniu o “dream team” de reformadores pró-mercado e pró-crescimento, incluindo o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central Ilan Goldfajn e o presidente da Petrobras Pedro Parente.

Então, eles estabeleceram uma agenda de reformas. Em primeiro lugar, havia um limite para os gastos públicos destinados a estabilizar as contas públicas. A governança em empresas estatais melhorou, inclusive na Petrobras, que agora ajusta os preços de acordo com o mercado e não com a política do governo. As leis trabalhistas foram simplificadas. Uma revisão do sistema público de pensões, inabordável e injusta (porque beneficia o setor público em detrimento do privado) está em andamento. Parte dessa agenda foi prejudicada pelo barulho da política, ressalta o correspondente, o que foi especialmente verdade para a aprovação TLP (Taxa de Longo Prazo), considerada histórica por ele e que teve dificuldades no seu trajeto até a aprovação.

“Os benefícios potenciais desta reforma sozinhos são tais que mesmo os investidores mais otimistas podem ter falhado em apreendê-los. Infelizmente, no entanto, o otimismo em outras questões parece esticado”, avalia.

Do lado pessimista, o Financial Times ressalta as dificuldades em entregar o ajuste fiscal e, não obstante o limite de gastos públicos, os gastos não foram cortados. Além disso, o FT afirma que a reforma da Previdência poderia ter sido vendida como uma questão de justiça social. Mas, em vez disso, foi apresentada como um fardo adicional para uma população já sobrecarregada. “Em consequência, foi diluída e não terá o efeito fiscal esperado nos próximos anos”. O correspondente lembra ainda que cerca de 85% das despesas públicas são fixadas pela constituição e o investimento já foi “cortado até o osso”. Mesmo o crescimento econômico rápido não proporcionará mais gastos, graças ao limite máximo.

“Somente se os políticos enfrentarem a constituição, abordarão o desafio fiscal. Ninguém prometeu isso ainda. A perfeição que os investidores precificam provavelmente continuará sendo um sonho”, conclui a publicação.