Entrevista

Falta a Dilma a vocação política que Lula tinha de sobra, diz especialista

Para Marco Antonio Teixeira, professor de administração pública da FGV, atual presidente teve que mudar muito para afastar ecos de suposta volta de Lula

SÃO PAULO – A cada dia que passa e mais nos aproximamos das eleições de outubro, mais a política passa a ser discutida em seus diversos níveis pela sociedade como um todo e mais sensível o mercado fica ao seu noticiário. De repente, por onde se passa, ouve-se falar dos candidatos, propostas e pitacos sobre os assuntos de maior impacto na opinião pública: saúde, segurança pública, emprego, educação e outras variáveis.

Até a economia – ainda um fantasma desconhecido para grande parte das pessoas – ganhou mais vida nas rodas de discussões dos rincões do Brasil. Sobre esse tema, muitos acreditam que os efeitos da inflação no bolso estão pesando bastante e podem interferir na corrida presidencial – lembrando que o monstro da inflação ainda é um inimigo muito recente na mente de milhões de brasileiros.

Para o cientista político e professor de administração pública da Fundação Getulio Vargas, Marco Antonio Carvalho Teixeira, é exatamente a inflação um dos principais fatores que devem tornar a corrida eleitoral bem mais difícil para Dilma em 2014 do que na edição anterior, quando derrotou o tucano José Serra (PSDB) com relativa tranquilidade no segundo turno.

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InfoMoney realizou uma entrevista exclusiva com Teixeira, que falou sobre a situação política e econômica do País, a sombra do “Volta, Lula”, os desafios de Dilma, a Copa do Mundo, entre outros assuntos. Confira a entrevista na íntegra:

InfoMoney – Como você avalia a importância do “Volta Lula” para a campanha da Dilma? Que mudanças essa sombra do Lula está provocando na campanha da atual presidente?
Marco Antonio Carvalho Teixeira – É bom lembrarmos que o “Volta Lula” só ganhou força na medida em que a Dilma começou a dar sinais de insegurança, do ponto de vista da viabilidade eleitoral. Ou seja: se você tem um ex-presidente da República em condição de ser candidato novamente, cujas pesquisas mostram que ele tem um mínimo patamar de 50% dos votos, é óbvio que, de certa forma, ele vai se tornar uma pessoa onipresente na campanha. Ou como uma ameaça, como agora, ou alguém que tem prestígio e legado a transferir à própria candidatura.

No caso, ele aparece como espectro exatamente pela possibilidade de o “Projeto Dilma” fracassar. Então, na medida em que ele aparece como fantasma, obviamente que a candidatura de Dilma, até para ela se tornar viável e conter essa ameaça, precisa passar por uma mudança de estratégia, processo do qual o próprio Lula participou.

IM – E quais são essas mudanças?
MACT – A primeira mudança de estratégia implementada foi a decisão de partir ao enfrentamento. Ou seja, não deixar nada que venha como tiro dos adversários fique sem resposta. Agora, ela está muito mais “bateu, levou” do que como se mostrou do início do ano até agora há pouco. Esse também é um dos efeitos da própria ameaça do “Volta, Lula”, que pode acontecer a qualquer momento se as pesquisas mostrarem sinal preocupante novamente. Até 20 dias antes das eleições, você pode mudar de nome. Esse fantasma vai persistir até a metade de setembro, assim como o fantasma da Marina Silva para o Eduardo Campos.

E a outra questão que o Lula também assumiu pessoalmente foi conter perdas – já se viu uma revoada de partidos que, de certa forma, estavam compromissados e passaram a adotar a postura de abandonar o barco – e ajudar a organizar a composição novamente. Por mais que o “Volta Lula” tenha havido – e esse fenômeno, é bom frisar, não é só um grito interno ao PT, tem empresários e setores que não são nem simpatizantes do partido -, a fala do protagonista foi sempre na direção de que a candidatura de Dilma seria a que seguiria adiante.

Agora, para além das questões de dimensão eleitoral, obviamente que isso também implicou em mudanças na própria postura de governo. A Dilma passou a ser uma pessoa que passou a dialogar e ouvir setores que ela não conversava. Ela tem ido atrás do agronegócio, do setor industrial, tem rearticulado contato com a sociedade civil exatamente porque esse era um dos principais pontos de crítica a ela, que acabavam indo na direção de que ela é uma pessoa centralizadora, pouco ouvia, não considerava a demanda etc. Então, essa postura também, ao que parece, está sendo mudada. E isso ocorre sobretudo visando conter o desgaste e tentar se tornar mais uma vez viável eleitoralmente, principalmente com o objetivo de tentar evitar os dois turnos, já que o risco de segundo turno é muito grande.

IM – Falta essa vocação política que o Lula tem para a Dilma?
MACT – Sem dúvida. A Dilma tinha uma trajetória na administração pública eminentemente técnica. E, ao mesmo tempo, ela foi alçada na carreira política ao posto máximo da competição sem estar talhada para esse processo de disputa. Tanto é que, na própria campanha presidencial de 2010, seu comando tinha um verdadeiro receio de enfrentar debates – ela foi aprendendo a conviver com esse processo durante a própria disputa. E em governo não foi diferente: ela tem uma dificuldade muito grande de coordenar, ouvir, delegar – ela centraliza muito.

Então, tudo isso cria dificuldades de coordenação, processo de demandas e manutenção de apoios. É uma questão que, ou ela aprende na marra, ou ela pode ter um segundo governo – caso reeleita – desastroso, na medida em que já se tem uma relação de confiança abalada.

IM – Essa instabilidade se traduz também no quadro econômico do atual governo?
MACT – Talvez aí seja menos problema dela e mais da equipe. No caso, quem entrega o produto para ela é a equipe econômica e aí a opção escolhida é a de responder a pequenos incêndios ao invés de ter um plano mais de médio e longo prazo.

Isso gera muita incerteza e insegurança para todos. Tanto é que, mais uma vez, espera-se uma desoneração no setor automobilístico, pacotes de benefício para um setor ou outro, e aí a política econômica ou a tentativa de você evitar que os indicadores econômicos se deteriorem acaba, de certa forma, se transformando em medidas absolutamente populares.

Agora, qual é a responsabilidade da própria Dilma sobre a política econômica? Por exemplo, uma das principais lideranças econômicas, o Guido Mantega, já estava atuando no governo Lula e o antecessor não tinha essa visão negativa do empresariado que a Dilma tem hoje.

Mas aí voltamos à questão do contexto. Nos oito anos de governo Lula, a crise internacional teve pouco efeito sobre o Brasil – talvez o País estivesse mais estruturado naquele momento; a nossa relação com a Argentina, por mais que tenha tido problemas durante vários momentos, nunca enfrentou tanta dificuldade como agora (aqui é bom ponderarmos que a nossa indústria tem razoável grau de dependência de comércio com a Argentina); e obviamente que a questão da inflação não tinha voltado com o ímpeto que voltou agora, a ponto de você elevar a Selic e a própria elevação afetar o mercado interno no nível de aquilo que vinha tendo crescimentos consecutivos ao longo dos anos, como o consumo do varejo, começar a experimentar indicadores negativos.

O Mantega, no período do Lula, enfrentou um cenário mais estável. No período da Dilma, ele enfrenta um período instável, de dificuldades internas e externas, e ao mesmo tempo não tem demonstrado ser capaz de elaborar um plano que permita ter certo grau de segurança para que todos os setores possam planejar.

Vale destacar, neste ponto, algumas pesquisas mostrando que a maioria dos empresários só vai voltar a contratar ou investir depois das eleições. Até lá, eles trabalham com um cenário de incertezas muito grande, turbinado pelo cenário econômico, porque o governo não tem mostrado capacidade de enfrentar ou apresentar uma perspectiva mais positiva. As nossas perspectivas de médio prazo são ruins.

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