Rumos da economia

“Eu não me lembro de um governo com uma equipe tão fraca como o atual”, diz Serra

Em conferência com ar de campanha eleitoral, ministro do governo FHC vê fim de ciclo econômico e critica "modelo lulista de crescimento" adotado por Dilma

SÃO PAULO – O Brasil chegou ao fim de um ciclo econômico antigo, puxado três vezes mais pelo consumo do que pelos investimentos, defendeu José Serra (PSDB), ex-ministro do planejamento e da saúde do governo de Fernando Henrique Cardoso. Em teleconferência da consultoria GO Associados, cujo tema foi “Tendências da economia brasileira e desafios para a política econômica”, realizada nesta quarta-feira (24), Serra fez um discurso de certo teor eleitoral, mas não quis responder sobre possível candidatura em 2014, alegando que o público não merecia que o evento se transformasse em discussão eleitoral.

A falta de investimentos nos mais diversos setores – sobretudo em infraestrutura – foi a tônica do ex-governador de São Paulo, que disse que o maior problema do Brasil é de gestão: “A Dilma [Rousseff, presidente da República] tinha margem grande pra turbinar o investimento público em infraestrutura e isso não caminhou”, disse Serra sobre a atual presidente, que o derrotou nas últimas eleições presidenciais.

Na visão dele, o atual governo representa uma espécie de “mal por lo mismo” (mal pelo mesmo) da gestão que sucedeu, com prioridades indefinidas e ministros com pouco conhecimento dos assuntos que tratam. “Eu não me lembro de um governo com uma equipe tão fraca como o atual. Mesmo o [ex-presidente Fernando] Collor tentou fazer um ministério de mais nível”, afirmou.

Serra alegou que o País passa por um período de desindustrialização, visto que há uma queda da fatia da indústria de transformação no PIB (Produto Interno Bruto): “chegamos a uma proporção em relação ao PIB semelhante ao pós-guerra, ao passo que registrou-se um aumento na carga tributária e no ‘custo Brasil'”. A alta carga tributária foi associada ao que o ex-ministro chamou de “modelo lulista de crescimento”, na qual foi acrescido o aumento do consumo do governo “não apenas de bens e serviços, mas salários, que aumentaram”.

O cenário em que foi registrado declínio da política econômica vigente, na visão de Serra, destaca-se um suposto fim na “bonância externa”, com Europa em crise, EUA ainda em recuperação e China em desaceleração, endividamento da família e movimentos cíclicos como o boom da construção civil. “Houve quase uma bolha no Brasil”, afirmou.

Câmbio, manifestações e pessimismo
O ex-ministro destacou ainda que o Brasil foi o único País a crescer juros dentro do contexto de crise, mas que perdeu uma grande oportunidade no que se refere às políticas cambiais: “jogou-se pela janela uma extraordinária oportunidade: corrigir a taxa de câmbio. Apesar da desvalorização fortíssima, o governo fez o possível para desfazê-la; a economia poderia ter se ajustado a um câmbio novo”. Para ele, o mau aproveitamento da sobrevalorização cambial foi fator importante para a aceleração da inflação.

As manifestações populares recentes, na visão de Serra, mostram a face de um governo que não consegue abrir caminho para o novo ciclo – saindo do foco no consumo e partindo para a direção dos investimentos. Quando questionado sobre um suposto esvaziamento do papel da oposição tendo em vista sua participação e o fato de ainda não ter divulgado nomes para as próximas eleições, o tucano preferiu criticar campanhas antecipadas: “eu não acho que a antecipação da campanha eleitoral foi uma boa. A mania de antecipar campanhas eleitorais se instaurou no país; a culpa não foi da oposição. O PT [Partido dos Trabalhadores] quer ser hegemônico no governo. O governo Lula passou dois anos projetando campanha”, afirmou.

Serra encerrou a teleconferência, que se estendeu por 40 minutos além do previsto, esboçando forte pessimismo. “As [atuais] políticas governamentais não conseguem abrir caminho para o novo ciclo. A saída básica é fazer as coisas direito. No Brasil, vai ser muito difícil. A herança desse governo para o próximo vai ser muito mais adversa que a anterior”, avaliou o ex-governador de São Paulo.