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ENTREVISTA: eleição de 2018 dependerá se teremos Lula e de quem será o anti-Lula, diz Giannetti

Em entrevista ao InfoMoney antes de debate na Expert 2017, Eduardo Giannetti da Fonseca ainda falou sobre a crise política e duas tendências que ele vê para o pleito do ano que vem (e que dependem se Lula sairá ou não candidato)

SÃO PAULO – Mesmo no auge do otimismo do mercado com o governo Michel Temer, economista Eduardo Giannetti da Fonseca já vinha alertando que a crise política poderia eclodir. Em maio, ela veio e enfraqueceu muito o presidente e o quadro de reformas. Porém, de acordo com ele, a equipe econômica de alta qualidade vem protegendo o Brasil de aventuras populistas, o que diferencia o atual governo do de Dilma Rousseff antes do impeachment. Mas nada está garantido: “se essa equipe econômica começar a ter baixas significativas, aí estaremos caminhando para o precipício”.

Em entrevista exclusiva ao InfoMoney no último sábado (23), quando o economista participou de debate na Expert 2017, evento promovido pela XP Investimentos, Giannetti disse que as eleições presidenciais de 2018 terão um dos dois cenários: polarização ou pulverização. “O que vai determinar ou um ou outro é a presença ou não do Lula como candidato”. Confira os principais trechos da entrevista abaixo:

InfoMoney – Vamos começar o papo falando do principal incidente político do ano, que foi o vazamento da conversa de Joesley Batista com Michel Temer. Você já alertava sobre o risco político que envolvia o nosso governo. Que balanço você faz sobre esse acontecimento?
Eduardo Giannetti – Para o governo Temer, ficou claro que seria uma corrida contra o tempo. Ele tinha que aprovar as reformas antes de um risco político maior se materializar, esse risco pairava e mais cedo ou mais tarde iria acontecer. Acabou acontecendo antes e de uma maneira muito opaca, uma vez que ninguém sabe muito bem quem determinou o timing do vazamento dessa delação e porque foi feito da maneira que foi feito. Esse é realmente um problema muito sério do Judiciário e da Justiça brasileira: não poderia acontecer dessa maneira, soltarem seletivamente um trecho da gravação para um jornalista que interpreta de uma maneira, a mídia repercute e depois se cria uma dúvida sobre a edição ou não do material gravado e tem que fazer uma perícia. Ocorreu de uma maneira muito atabalhoada e muito perturbadora, até mesmo para a Procuradoria, porque ela pode ter queimado a melhor prova que ela tinha por não ter sabido utilizar isso de uma maneira adequada.

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IM – E para o Brasil, qual foi o saldo desse episódio?
EG –
Foi ruim para o Brasil, pois acabou mostrando muita fragilidade do nosso processo de apuração e investigação e um ruído desnecessário. O Brasil não precisava desse tipo de ruído. Tem que fazer investigação, apurar tudo e ir até o fim, pois as coisas não podem ser tornadas públicas dessa maneira, tem um jeito certo de tornar isso público.

IM – Acredita então em algum interesse secundário nesse tipo de vazamento?
EG –
Olha, eu não tenho uma visão conspiratória, mas o timing não podia ser pior [já que aconteceu duas semanas antes da votação no primeiro turno da reforma da previdência].

IM – Bom, passado esse episódio, muitos começam a comparar Michel Temer de hoje ao mesmo momento que Dilma Rousseff viveu antes do impeachment. Alguns também remetem ao momento de Sarney em 1989. Pra você, estamos mais para uma “Dilmanização” ou “Sarneirização” de Temer?
EG –
A grande diferença de Dilma a caminho do impeachment para o Temer neste momento é que agora temos na área econômica uma equipe da maior competência e que nos protege de uma aventura populista e irresponsável na política fiscal. Não só [a proteção] pelos técnicos do Ministério da Fazenda, mas também pelo Banco Central e pelos quadros das principais estatais brasileiras, que hoje são presididas por profissionais da mais alta competência. É um elemento tranquilizador.

Agora, sabemos que se houver da área política do governo Temer alguma tentativa de atropelar a prudência e a responsabilidade na gestão da economia, essa equipe não fica, porque não vai aceitar uma interferência abusiva no seu trabalho. E se essa equipe econômica começar a ter baixas significativas, aí estaremos caminhando para o precipício. Não acho que tenhamos nenhum risco de colapso financeiro iminente, mas se vermos baixas na equipe econômica, tenho a impressão de que o precipício está perto. Os mercados vão ficar muito turbulentos e movimentos defensivos em grandes escalas vão começar a ocorrer.

Assim, há paralelos com os dois [Dilma e Sarney]. E, por mais que hoje nós temos uma banda podre na política, e isso parece muito com o Sarney, a ala econômica do governo inspira confiança.

IM – Falando em “banda podre”, vamos falar de cenário de 2018. Qual o cenário que você enxerga para as eleições do ano que vem, depois desses acontecimentos recentes?
EG – Vejo dois cenários para 2018: um de polarização e o outro o cenário da pulverização. O que vai determinar ou um ou outro é a presença ou não do Lula como candidato. Se Lula for candidato, nós vamos caminhar para um cenário de polarização no Brasil, porque ele tem uma base eleitoral de pelo menos 20%, chega ao segundo turno e rapidamente vai se estabelecer quem é o anti-Lula. E vai polarizar. Se o Lula não for candidato, vamos caminhar para o cenário da pulverização. Vamos ter muitos candidatos, mais ou menos como tivemos em 1989 e só alguns meses antes da eleição vai ficar claro quem são os dois ou três competitivos que vão chegar ao segundo turno. Vamos ter uma dispersão grande, de muitos que vão se animar inclusive a se candidatar, que hoje não estão no radar e vão tentar porque o quadro vai ficar muito aberto. A presença ou não do Lula vai fazer toda a diferença.

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IM – E qual dos dois cenários você prefere?
EG –
Como brasileiro, eu preferiria uma eleição pulverizada, sem essa repetição de polarização. Temo que a presença dele [Lula] na campanha nos encaminhe para uma eleição mais rancorosa talvez, uma divisão muito hostil entre campos e oposição. Vai depender muito de quem for o anti-Lula, mas não acho bom esse cenário. 

IM – Neste seu cenário de polarização, como seria se o candidato “anti-Lula” fosse Jair Bolsonaro?
EG –
É difícil conceber uma polarização pior para o Brasil do que Lula x Bolsonaro para 2018, é difícil imaginar algo mais sombrio e melancólico.

IM – Bom, e quais os possíveis desfechos para o ano que vem?
EG –
 Ou nós vamos para um caminho de correção ou vamos para um caminho de perdição. Mas não está nada claro a essa altura para onde nós vamos. E vou mais longe: se nós não fizermos uma reforma política abrangente, não vamos recuperar a capacidade de boa governança, porque com um parlamento tão fragmentado vai ficar muito difícil um presidente obter maioria programática para implementar mudanças, seja ele quem for. Sobre a reforma política, mudanças importantes podem acontecer até outubro, como proibição das coligações, cláusula de barreira e um fundo de financiamento adequado para não ter os problemas de financiamento que a gente viu no Brasil. Mas uma ampla reforma política, só com um novo governo.

IM – Tivemos agora na França a eleição de Emmanuel Macron, um candidato “não-político” que viveu criou um partido menos de um ano atrás e venceu as eleições presidenciais e também na câmara de deputados em um país com um histórico muito pouco reformista. Qual a chance de este episódio se repetir no Brasil?
EG –
 Antes de personalizar essa busca, o sistema eleitoral brasileiro não permite a repetição do fenômeno Macron, porque o nosso sistema de representação não é por voto distrital, não é por maioria distrital. Então é muito difícil surgir um partido que em um ano, como é no caso do Macron, obtenha maioria no Congresso para dar governabilidade. Mesmo que tivesse uma figura que se assemelhasse ao Macron como líder do executivo, não seria a mesma coisa porque não há um sistema eleitoral que permita o surgimento de uma base de sustentação partidária como no caso da França.