Análise

Em 3 atos, Michel Temer vê nova ameaça política surgir e sonho da reeleição naufragar

Com o deslocamento da agenda para a questão da segurança pública, cresceram as especulações sobre possíveis planos eleitorais do presidente. Fatos novos, contudo, põem em xeque qualquer wishful thinking

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SÃO PAULO – O que já parecia um exercício de wishful thinking de aliados hoje ficou ainda mais distante. Com o deslocamento da agenda legislativa das impopulares pautas de ajuste fiscal, com a reforma previdenciária, para a segurança pública, com a intervenção federal no Rio de Janeiro, acreditou-se que o presidente Michel Temer poderia ensaiar uma candidatura à reeleição. A despeito dos índices recordes de rejeição, o emedebista teria tempo para tentar apresentar alguma melhora de reputação e realizar as engenhosas costuras necessárias para viabilizar o sonho, valendo-se de uma poderosa estrutura partidária e do controle da máquina pública, em um pleito de recursos escassos. Contudo, os planos podem ter naufragado com três fatos novos:

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1. Quebra do sigilo bancário

O ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou, na última segunda-feira (5), a quebra do sigilo bancário do presidente Michel Temer na investigação de supostos crimes envolvendo a edição de um decreto para o setor portuário. Foi a primeira vez que um presidente da República tem os seus dados financeiros abertos por decisão judicial durante o exercício do mandato.

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“O pedido de quebra de sigilo é muito sintomático. No momento em que o governo tentou mudar a agenda, já se imaginou que poderia ter força um projeto de reeleição. Isso mostra que se trata de um campo minado, com muitos conflitos não resolvidos. O próprio tipo de discurso de [Rodrigo] Maia é uma demonstração deste ponto. Fundamentalmente apareceu como uma postura de distanciamento ao atual governo”, observou o analista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria.

A ofensiva do Judiciário faz com que o governo tenha que reavaliar sua estratégia para a reforma ministerial que se aproxima. Enquanto o plano inicial abarcava um interesse em elevar o capital político de Temer para influenciar em seu processo sucessório (seja como candidato à reeleição ou como figura decisiva no êxito de uma candidatura aliada), agora também entra nos cálculos do emedebista o risco da apresentação de uma terceira denúncia pela PGR (Procuradoria-Geral da República), que lhe exigirá novos esforços pela sobrevivência na Câmara e reduzirá sua força política. Neste contexto, os riscos de “sarneyzação” crescem.

2. Rebelião da base

O fato de muitos dos atuais ministros do governo pretenderem disputar as próximas eleições faz com que Michel Temer seja levado a promover uma reforma na Esplanada. A legislação eleitoral determina que postulantes hoje ocupantes de cargos eletivos fora do Legislativo ou comissionados tenham que se descompatibilizar. No caso de ministros, o prazo é de seis meses antes do primeiro turno; no caso, 7 de abril.

Com tal perspectiva, o governo sinalizou que apenas aceitará indicações de partidos que aceitem estar ao seu lado nas eleições presidenciais, mesmo que o candidato não seja Temer. A ideia é ter um nome na disputa pela sucessão que defenda o legado da atual gestão. Hoje, o nome mais cotado para ocupar esse espaço, além do próprio emedebista, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Contudo, as poucas demonstrações de competitividade de tais candidaturas e os próprios fatos negativos na Justiça contra o presidente inibem a construção de alianças.

Até o momento, ao menos cinco partidos já deram sinais de rebelião com a ameaça do governo. Conforme noticiou o site Poder360, PTB, DEM, Solidariedade, PP e PSD avisam que escolherão seus candidatos independentemente do governo.

Para Ricardo Ribeiro, analista político da MCM Consultores, tal estratégia do governo não deve ir longe. “Ou o governo desiste de contar com muitos desses partidos, que estão olhando para outras opções senão Temer e Meirelles, ou então volta atrás nesse discurso. Acho que vai fazer um pouco das duas coisas. Os partidos que comandam os ministérios não vão querer largar o osso e terão que negociar com o governo”, observou.

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3. Intervenção politicamente inócua

Completando a sequência de notícias negativas ao governo, a mais recente edição da pesquisa CNT/MDA mostrou que Michel Temer continua mal na foto. A despeito de ter mostrado um forte apoio de 80% dos eleitores à intervenção federal no estado do Rio de Janeiro e de 63% à criação do Ministério da Segurança Pública, o levantamento apresentou poucas mudanças na percepção dos brasileiros sobre a atual gestão. Para apenas 4,3% dos entrevistados a avaliação do governo é positiva, contra 73,3% de avaliação negativa. Em setembro, os índices estavam em 3,4% e 75,6%, respectivamente. A margem máxima de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo.

“Apesar de uma leve queda na desaprovação, o fato de a intervenção ter apoio popular ainda não se traduz em uma melhora na avaliação dele. Além disso, uma parcela considerável do eleitorado ainda acha que o Brasil está em recessão. Não há sensação de melhora no dia a dia das pessoas”, observou Carlos Eduardo Borenstein, analista da consultoria Arko Advice. De acordo com a pesquisa, apenas 28,6% dos entrevistados acreditam que o país começa a sair da crise econômica. Outros 65,4% consideram que o país permanece em crise. Os dados recentes não impedem uma melhora na percepção do governo futuramente, mas dificultam ainda mais qualquer plano de voo mais ousado.

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