Entrevista

Dilma reproduz intervencionismo do regime militar, diz Gustavo Franco

Ex-presidente do BC também afirma que a subida nas pesquisas de Marina, Campos, Aécio ou até Lula seria bem recebida por empresários

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(SÃO PAULO) – Para o ex-presidente do Banco Central (goveno FHC) e sócio da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco, muitos empresários e investidores responderiam bem a um possível crescimento nas pesquisas dos candidatos rivais da presidente Dilma nas eleições de 2014 e até mesmo à volta de Lula. Em entrevista ao InfoMoney, ele afirma que a presidente tem adotado políticas que são muito mais fiéis ao discurso histórico do PT do que o governo anterior, mas diz que essas medidas afugentam os investidores devido ao intervencionismo comparável ao dos últimos governos militares. Leia a seguir as principais declarações de Franco:

CANDIDATOS

Acho que o mercado gostaria do crescimento dos outros candidatos [a presidente em 2014]. Vai ser bom que haja uma disputa eleitoral. Todo mundo tem que se comportar melhor quando a eleição não está ganha. Quem ganha é o eleitor. A Marina [Silva] e o Eduardo Campos representam forças importantes. São dissidências do bloco político do PT, uma de natureza verde e outra de natureza mais regional, que romperam com a atual presidente. A oposição é PSDB e DEM, mais pró-mercado. Mas pode haver outros participantes nesse segmento. Marina ou Eduardo, qualquer um dos dois, vai estar mais para o lado liberal do que o governo atual. Não vejo nenhum dos dois procurando avançar no programa de capitalismo de estado. Mas está indefinido, não sei exatamente o que eles pensam sobre a economia. A Marina tinha uma retórica liberal, só tem uma postura mais definida e radical sobre o meio ambiente. Mas em relação ao BC e à política fiscal, acho que não seria mais intervencionista. Está mais para o lado do PSDB do que do PT. O menos estatista parecer ser o Aécio [Neves]. Mas muitos empresários e investidores gostariam de ver a volta do Lula. O PT tem suas bases entre os empresários porque muitos deles se beneficiaram no governo anterior. Agora essas pessoas são simpáticas ao PT.

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GESTÃO PÚBLICA

A eleição que eu participei, a de 1994, tinha um grande tema: a hiperinflação. Agora há uma variedade de temas em discussão: saúde, segurança… O que une todos eles é a gestão pública. Ao tentar interpretar a voz das ruas, o elemento comum é a percepção que o setor público tem sido falho em administrar o que é seu. Um governo vai fazer um estádio e gasta cinco vezes mais do que deveria. O tema “gestão” vai aparecer no discurso dos candidatos [nas próximas eleições]. A discussão não será tanto sobre o tamanho do estado. Acho que vão falar de carga tributária e de gestão. O contribuinte questiona a qualidade e o preço de serviços públicos, está irritado nas duas pontas.

PT NO PODER

Definitivamente o governo contribuiu para a gente não ter um resultado tão satisfatório na economia. São 11 anos de PT. É tempo suficiente pra que se possa dizer que os fatores que entram na conta de quem faz investimentos estão todos determinados pelas escolhas dessa administração. Nos últimos 11 anos, houve um descaso dos problemas brasileiros do lado da oferta, da produtividade, da competição, dos mercados. Houve uma ênfase muito grande em administração de demanda, como se tivéssemos um problema de demanda. Sabíamos que a política de escolha de campeões nacionais [pelo BNDES] não iria funcionar. Fomos retirados do trilho de uma consolidação da economia de mercado de verdade. Acabamos nos aproximando de um capitalismo de estado ineficiente, reproduzindo em parte a política econômica do governo militar, com grande componente de intervenção, em uma época em que isso está longe de ter a mesma efetividade dos anos 1970.

PIB POTENCIAL

A taxa de crescimento do PIB potencial é baixa, de 2% a 3,5%. Se crescer mais do que isso, falta tudo, pressiona importações, pressiona inflação, tem engarrafamentos. As restrições de oferta não foram devidamente compreendidas. Acho que o mundo estava excepcionalmente favorável em 2003 a 2007, o que aumentou o potencial de crescimento naquela época. Vento a favor ajuda. As pessoas também festejaram o governo do PT porque ele não era o que se esperava deles. A virtude que todo mundo celebrou foi eles terem seguido a Lei de Responsabilidade Fiscal e o tripé macroeconômico introduzido pelo governo anterior. Acho que no começo de 2008 estávamos vivendo até uma atmosfera de bolha, eram muitas ofertas iniciais de ações na bolsa. Olhando para os preços dessas mesmas ações hoje dá para ver que era quase uma bolha.

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PIBINHO

Em relação ao crescimento da economia daqui para frente, acho que será distante do ano passado [só 0,9% de alta], mas é outro PIBinho. A Dilma criou essa linguagem, falou em PIBão, mas deu tudo errado. Qualquer previsão tem que considerar que daqui a seis meses começa a campanha eleitoral. Agora está mais sedimentado que a eleição será competitiva. Isso introduz uma mudança na agenda da situação, o que leva as projeções a ficarem mais binárias. É um cenário com governo e outro, com oposição. Daqui até lá, não vejo nenhuma alteração relevante no quadro que temos. A política fiscal é esticada [mais gastos públicos], a política monetária terá de fazer o trabalho que a política fiscal não faz, o crescimento continuará meio travado e haverá certa dose de desconfiança empresarial que pode se alastrar. Acho que a inflação até pode ceder um pouco. Mas as grandes decisões vão ficar para depois.

GOVERNO DILMA

No governo Dilma, vieram mudanças em relação à administração Lula e eles procuraram se aproximar dos ideais históricos do PT, com muito mais intervenção, mais estatização, mais hostilidade ao mercado em decisões sobre petróleo ou energia. Isso até deu mais legitimidade porque era o que se esperava do PT. Mas também veio a desilusão com o desempenho econômico. Como se não bastasse, o mundo virou. O clima do cristo redentor decolando [na capa da Economist] já não é o mesmo. Estamos no período final para que essa administração construa sua marca, seu legado. Tenho a impressão que eles já mostraram suas cartas. É possível que tenham guardado um evento ou outro para mais perto das eleições, algum leilão de concessões. Mas é o encerramento da administração e o começo do período de julgamento popular.

INFRAESTRUTURA

Acho que os leilões de infraestrutura vão acontecer, mas não esperaria nenhum sucesso estrondoso porque o quadro regulatório desanima muita gente. A boa notícia é que vai acontecer. Vai ser entre bom e regular, o que já seria uma notícia. A combinação de preço com a qualidade dos vencedores é o que o mercado vai olhar. Em outras situações, os leilões aconteceram com preços satisfatórios, mas ficou uma dúvida sobre a qualidade dos consórcios. O ideal é que as obras sejam bem feitas. A tentativa do governo de regular e limitar a taxa de retorno criou uma psicologia ruim onde ganhar dinheiro é feio, é ruim. Isso afasta os melhores operadores. O governo não quer usar o conceito de privatização, então faz de um jeito que parece meio forçado para parecer que quem compra não ganhará dinheiro. Torço para que funcione porque minha empresa tem interesse que funcione, somos uma casa de investimentos.

DESCONFIANÇA

Hoje o cenário é ruim em razão da percepção do que está se passando no Brasil. Perdemos algo em termos de troca [preços das exportações e das importações], mas eles continuam entre bom e muito bom. A entrada de capitais em investimento direto continua excelente, não dá para reclamar do mundo. Mas o mundo é muito claro: não gosta de intervenção discricionária de governos e pune na bolsa, sobretudo porque o pessoal pode sair vendendo e demonstra sua contrariedade. As perspectivas de crescimento são limitadas. Não se vê confiança nas autoridades nem reformas liberalizantes, pró-mercado. O pessoal não gosta de capitalismo de estado.

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TENTAÇÕES GASTADORAS

O temor de afrouxamento fiscal existe até a eleição. Ainda bem que ele existe porque isso intimida o comportamento do governo. Pode fazer o governo recuar das tentações gastadoras, mas também pode levar a mais contabilidade criativa. Acho que o próximo governo, uma vez estabelecido, vai reclassificar as coisas, vai reconhecer aumentos de dívida que estão ocultos. Muita gente faz hoje cálculos de superávit primário ajustado pra retirar a contabilidade criativa. O governo hoje faz uma meta [de superávit primário], retira coisas da meta, aí anuncia um número. Deveria fixar a meta realista ou nem fixar ao invés de dizer que tem tripé. Nunca desacelerou gasto. A única coisa diferente que aconteceu foi o BC elevar os juros. Se acelerarem [os gastos] para conter a queda no crescimento, aí levará o BC a elevar ainda mais os juros, não levando a lugar nenhum. Essa inconsistência já existe hoje. Isso reduz o PIB potencial porque é mais gasto público, que é menos eficiente que privado. Mesmo que o PT ganhe de novo, talvez o que venha pela frente seja diferente porque há uma demanda por mudança na sociedade.

PRÓXIMO GOVERNO

Há um conjunto de coisas importantes que o próximo governo precisará fazer: 1) restabelecer a verdade dos números na dívida pública. Hoje há certa névoa nas estatísticas, que confunde muito o legado; 2) recuperar o tripé de sustentação da economia, reenergizando o regime de metas de inflação, com um Banco Central autônomo, com medidas macroprudenciais limpas de objetivos escusos; 3) os bancos públicos têm de parar de misturar políticas de fomento com instrumentos de política econômica; 4) fazer uma nova reforma da previdência; e 5) rever as políticas de infraestrutura para recuperar a confiança.