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Dilma “já teria sido expulsa do jogo”, mas fator determinante é Lula, diz analista

Analista político da MCM Consultores ressalta que, mesmo sem favoritismo ameaçado, Dilma perdeu consistência no jogo político; volta-Lula ganha forças, mas grande impedimento é o próprio ex-presidente

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SÃO PAULO – À véspera da divulgação da pesquisa Datafolha sobre intenções de voto para a Presidência da República – que já movimentou os mercados só de apontar que o Planalto estaria trabalhando com a queda da popularidade de Dilma – o analista político da MCM Consultores Ricardo Ribeiro traçou, em relatório, cenário para as eleições de 2014.

Conforme aponta o artigo, a presidente Dilma começou o ano com ares de franca favorita, com as pesquisas mostrando a aprovação do governo e a intenção de voto em plena recuperação – após uma queda com os protestos realizados no meio do ano. Enquanto a saída de Marina Silva da corrida presidencial reduziu o número de candidatos competitivos e, assim, elevou a chance de Dilma vencer no primeiro turno, o “volta Lula” parecia contido. Os partidos aliados prometiam “amor eterno” e, se não havia nada a ser comemorado no campo econômico, a chamada “tempestade perfeita” parecia fora do horizonte próximo.

Até então, houve altos e baixos, mas o saldo do primeiro trimestre acabou negativo para Dilma e para o governo, aponta o analista político. As últimas três semanas foram bastante determinantes, em meio ao enfraquecimento da aliança com o PMDB, o ressurgimento do caso Pasadena – referente à compra de refinaria por um valor muito mais alta pela Petrobras (PETR3;PETR4) e o temor crescente de racionamento. A favor do governo, destaque para os números em geral positivos relacionados ao mercado de trabalho. Contra, a contínua piora das projeções de crescimento e de inflação. 

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Ribeiro ressalta que a última semana foi particularmente negativa para Dilma, com o governo tomando “três cartões amarelos”: o rebaixamento do rating do Brasil pela Standard & Poor’s, a criação da CPI da Petrobras e, por fim, a opinião pública, “a qual, olhando a última pesquisa Ibope, está ficando de mau humor com a presidente e seu governo”. 

“Se estivesse disputando uma partida de futebol já teria sido expulsa do jogo. Como o esporte em questão é outro, ela, por enquanto, continua em campo”, afirma Ribeiro. Segundo ele, o último cartão amarelo é o que mais deveria preocupar o governo afinal, se a popularidade continuar caindo, ela “fatalmente receberá o cartão vermelho”, tanto do ex-presidente Lula, caso ele não resista aos chamados de “volta-Lula”, quanto dos eleitores, mais adiante. Além disso, o abalo na popularidade do governo é também preocupante porque enfraquece a capacidade da presidente Dilma de enfrentar as rebeliões da base governista e/ou aumenta o custo de debelá-las, afirma Ribeiro. 

Porém, o analista político aponta que a queda de popularidade ainda não afetou o nível de intenção de voto da presidente, que supera a avaliação positiva em 7 pontos percentuais (43% a 36%). Os candidatos de oposição, Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB) não converteram o descontentamento com o governo em adesão eleitoral a favor deles, talvez porque ainda sejam desconhecidos pela maioria dos eleitores.

Ribeiro avalia que é usual a intenção de voto superar a aprovação ao governo do presidente incumbente em busca da reeleição, mas ressalta que as curvas de avaliação positiva e de intenção de voto também apresentam trajetórias semelhantes. Assim, elas podem convergir em algum momento. 

Como fica o favoritismo de Dilma?
O analista político avalia que não dá para dizer que Dilma já não é mais favorita, uma vez que os fatores que a fazem ser uma das preferidas não se desintegraram: maior estrutura de campanha, bem avaliadas políticas públicas voltadas aos mais pobres, o enraizamento do apoio popular ao PT e a companhia do presidente Lula. 

“Mas é inevitável constatar que o favoritismo de Dilma está com viés de baixa, ou que ele sofreu um rebaixamento, sem, contudo, perder o grau de investimento, ou que os pés de barros que o sustentam se tornaram mais porosos. Seja qual for a comparação preferida, a mensagem é a mesma: o cenário de favoritismo de Dilma perdeu consistência”, afirma. 

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As consequências do enfraquecimento são muitas: além do menor controle sobre os dissidentes da base aliada, está o acirramento do “volta-Lula”. Ribeiro ressalta que todos os atores políticos preferem o retorno de Lula: os próprios políticos vinculados ao consórcio governista, inclusive a maioria dos petistas; o mercado financeiro e o alto empresariado; e a opinião pública, a qual concede ao ex-presidente mais votos que à presidente Dilma. 

A questão é Lula
Mas isso não quer dizer que o volta-Lula tenha se tornado inevitável. O obstáculo não é Dilma, pois ela não tem força política para evitar o retorno de Lula, afirma Ribeiro, sendo a única barreira ele próprio. Caberá a ele pesar os custos – admissão de que errou ao escolher Dilma como sucessora e risco de enfrentar anos turbulentos na economia caso seja eleito – e o benefício da candidatura – a permanência do PT no Planalto, afirma.

E Lula terá que avaliar esses fatores levando em conta a hipótese de que, a despeito dos atuais problemas, Dilma ainda pode ser reeleita e, assim, preservar o que parece ser o Plano A dele e do PT: reeleger Dilma em 2014 e eleger Lula em 2018″, avaliou Ribeiro. 

O analista ressalta que a decisão não pode tardar muito e, embora legalmente possa substituir Dilma mesmo após o início da campanha, se Lula decidir se candidatar, o ideal é que isso fique sacramentado em junho durante as convenções partidárias. “Ou seja, Lula tem dois meses para lidar com esse dilema”, afirma. Assim, a dúvida a respeito do que fará o ex-presidente é hoje a questão mais crucial da corrida presidencial, conclui Ribeiro.