Controvérsia no PSDB

Conflito no ninho tucano: intelectuais e membros do PSDB condenam bancada que votou contra a privatização da Cedae

Os quatro deputados que formam a bancada do PSDB na Alerj votaram contra o projeto (que foi aprovado por 41 votos a 28) e geraram controvérsia

SÃO PAULO – A aprovação do projeto que permite a privatização da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) para que o estado do Rio consiga um empréstimo de R$ 3,5 bilhões da União deflagrou uma crise no PSDB. Isso porque a bancada do partido, tradicional defensor de privatizações, surpreendeu ao se posicionar contrário à proposta. 

Os quatro deputados que formam a bancada do PSDB na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) – Luiz Paulo, Carlos Osório, Lucinha e Silas Bento – votaram contra o projeto, que foi aprovado por 41 votos a 28 na última segunda-feira. De acordo com eles, o principal motivo é que a venda da companhia não resolveria a crise financeira do estado. Além disso, segundo Osório, a oposição ao governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, fez com eles votassem contra. 

A despeito desses argumentos, muitos integrantes da legenda e a intelectualidade do partido mostraram muita contrariedade com a decisão. O Instituto Teotônio Vilela, braço acadêmico do PSDB, divulgou um texto chamado “Onda Saneadora” na última terça-feira em que destaca que a aprovação da venda da Cedae “pode ser o pontapé inicial de uma onda saneadora a varrer os estados brasileiros: a da privatização de estatais de serviços públicos hoje pessimamente prestados pelo Estado à população”. “É hora de vender”, declara o texto.

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O texto ainda aponta que privatização tornou-se palavra maldita no país na última década, “transformada pela pregação petista em coisa do demônio”, classificando essa opção política como obtusa e míope, De acordo com a publicação, a autorização dada ontem pela Assembleia Legislativa para que o estado do Rio aliene as ações da Cedae (que sofreu a oposição dos tucanos fluminenses) foi sob “os protestos dos baderneiros de sempre”. 

“O país está diante de uma oportunidade preciosa de impulsionar a qualidade dos serviços públicos prestados aos brasileiros. Cabe aos governos, seja o federal, sejam os subnacionais, ter coragem para implementar uma agenda de interesse público e aproveitar para fazer uma limpa em estatais que só têm servido como sorvedouro de dinheiro do contribuinte e logro aos cidadãos. O petrolão está aí para não deixar ninguém mentir”, apontou o instituto. 

Ainda em outro documento, intelectuais tucanos como Edmar Bacha, Gustavo Franco, Sérgio Besserman, Manuel Thedim, Adriano Pires e David Zylbersztajn, foram signatários, no âmbito do Conselho Consultivo do ITV, protestando contra o posicionamento da bancada do partido. “Discordamos profundamente da posição da bancada parlamentar estadual do PSDB contra a alienação da Cedae na votação ocorrida ontem na Alerj, decisão que causou estranheza entre lideranças nacionais tucanas e quadros do partido”, aponta o manifesto.

Eles acrescentam que o partido ”personifica a moderna social-democracia, que encara a privatização sob o prisma dos interesses da população, da sua lógica econômica, e da eficiência nos serviços prestados, sobretudo, para os mais pobres.” “A Cedae”, prossegue o documento, “não se encontra em condições de arcar com os investimentos necessários para estender serviços a áreas carentes que estão desassistidas, com terríveis consequências em bem-estar e saúde pública”. Pelo Facebook, o ex-presidente do BC Gustavo Franco ainda classificou a decisão do PSDB fluminense como  lamentável, estapafúrdia e oportunista, ao comentar uma coluna do jornalista Merval Pereira, do O Globo, sobre o assunto. 

 Por outro lado, vale destacar o posicionamento pragmático, mas contrário, de um deputado petista que votou a favor da privatização e também surpreendeu. “A questão é prática: a situação financeira do estado do Rio é desesperadora e temos que tomar medidas rápidas para resolvê-la o quanto antes. A alienação das ações da Cedae é o que temos mais à mão”, explicou  André Ceciliano. Assim, uma inversão de papéis atingiu as legendas no Rio,