Análise

Como o impeachment de Dilma Rousseff virou um pesadelo para o… PSDB?

Saída precoce da petista curiosamente deixou os tucanos na "carona" de uma política econômica que eles projetaram, mas de protagonismo das maiores crises

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SÃO PAULO – Um ano após o PT perder o principal cargo conquistado nas últimas eleições através do mecanismo do impeachment contra Dilma Rousseff, talvez seja seu rival político quem vive a maior crise do sistema partidário nacional. Com a ascensão de Michel Temer, os tucanos tiveram a oportunidade de ingressar na base governista e ter boa parte da agenda que apresentou na última corrida eleitoral defendida pelo Palácio do Planalto. Apesar disso, a sigla vive uma tempestade perfeita nada passageira, que vai de uma cisão irreconciliável ao abatimento de uma de suas maiores lideranças, o senador Aécio Neves.

“O PSDB costuma abrigar uma briga para a presidência, mas não esse jeito como estamos vendo na Câmara. A gente vê um partido muito rachado. A tendência é o PSDB caminhar ou para uma recomposição de força, talvez a mudança na presidência agora no partido aponte um caminho para o partido. Mas estamos vendo como o impeachment fez mal para o PSDB”, observou o cientista político Vítor Oliveira, diretor da consultoria Pulso Público no último programa Conexão Brasília, pela InfoMoneyTV.

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Para ele, a saída precoce de Dilma Rousseff curiosamente deixou os tucanos em uma posição de “carona” na política econômica. “O que deu certo o PSDB não colheu, o que deu errado ele está associado. E deu muita coisa errada com o PSDB também. Isso provocou uma cisão interna que talvez vejamos o partido perdendo sua capacidade de liderar o polo liberal. Nesse sentido, o analista político Paulo Gama, da XP Investimentos, observa que DEM e PMDB tentam aproveitar o vácuo gerado.

“O PMDB, de alguma maneira, implementou a agenda que era a agenda tucana, que o PSDB ficou envergonhado de defender e colocar na mesa por muito tempo, e está colhendo os louros de uma agenda que não era dele, enquanto o PSDB está imerso em suas próprias crises”, observou o especialista também no Conexão Brasília. O programa vai ao ar às sextas-feiras, ao vivo, a partir das 14h45 (horário de Brasília), pela InfoMoneyTV.

Ironicamente, o impeachment pode ter feito mais mal aos tucanos, que deveriam ter se beneficiado do processo ao ingressarem na base do governo mesmo tendo sido derrotados das últimas eleições, do que ao próprio PT. “A vantagem do PT em relação ao PSDB, neste ponto de vista, é que a força de Lula é tão grande que ele consegue unificar o partido — para bem e para mal, porque aí o partido vai junto para o buraco se ele for para o buraco. Mas, nesse ponto de vista, o PT consegue se coordenar melhor que o PSDB”, disse Oliveira.

“É impressionante a capacidade de o PSDB de atrair para si as crises que não necessariamente são dele. A gente viu com a escolha do Bonifácio como relator da segunda denúncia. Por algum tempo, ninguém falava da denúncia, mas da crise do PSDB, na tentativa em tirar ou manter o Bonifácio. Agora, a mesma coisa: há uma denúncia para votar em plenário e os jornais estão gastando mais tempo falando sobre a presidência do PSDB e do Aécio Neves do que sobre a cabeça do Temer”, lembrou Gama.

Para ele, o partido tropeçou em suas ambiguidades pós-impeachment e hoje vive uma situação mais delicada que a petista. “O PSDB não soube lidar muito bem com essa posição de apoio. Não era a posição a que estavam acostumados. O PT, por outro lado, está fazendo bem o dever da comunicação, conseguiu colar nas costas do Temer a culpa pelo desemprego e por uma melhora que ainda não chegou nas pontas e talvez esteja sabendo se aproveitar melhor desse momento do que os tucanos”, afirmou.

O futuro do velho líder

A dupla de entrevistados concorda que o senador Aécio Neves, apesar de ter recuperado o mandato graças ao apoio do corporativismo na casa, é o mais novo zumbi do parlamento. “O problema dos zumbis na política brasileira é que realmente nem com tiro na cabeça eles morrem [politicamente]; eles continuam ali rondando”, ironizou Oliveira. Ele acredita que, embora a capacidade do tucano de disputar uma corrida presidencial em um futuro próximo (e até mesmo distante) tenha desaparecido, ele segue tendo sua importância no xadrez político.

“O fato de não ter saído da presidência do PSDB até agora mostra como ele é forte”, observou. Para Gama, o senador mineiro continua sendo capaz de mover pedras em Brasília. “Aécio é político desde cedo, é de família de político, acho difícil que desapegue completamente do jogo político. Perdeu força, tem um processo no Conselho de Ética para responder, vai ter que se dedicar à defesa. Mas é difícil que ele desapegue completamente do jogo político, principalmente interno no PSDB”, concluiu.