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Com eleições à frente, saiba quais ações podem sofrer com volatilidade no período

Vale enfrenta rumores em relação a possível troca na presidência, enquanto elétricas oscilam de acordo com as pequisas

SÃO PAULO – Dilma Rousseff, candidata do PT à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ganha espaço nas pesquisas à medida que as eleições se aproximam. De acordo com levantamento divulgado no dia 14 de setembro pela CNT/Sensus, Dilma tem 50,5% das intenções de voto em pesquisa estimulada, aumentando assim a vantagem em relação a José Serra, do PSDB, que conta com 26,4% das intenções.

Dilma também aparece com 50% das intenções de voto em pesquisa do Datafolha, enquanto Serra tem 27% das intenções, o que dá à candidata chances reais de vencer as eleições presidenciais já no dia 3 de outubro, feito não alcançado por Lula nem em 2002 nem em 2006.

Em visita a mais de 40 investidores locais ou norte-americanos, Emy Shayo Cherman, do JPMorgan, escreveu em relatório que, embora as eleições sejam vistas como um evento-chave, poucas foram as perguntas envolvendo o tema, “possivelmente porque há uma muito provável vencedora a essa altura”, mencionando Dilma Rousseff, que ocupou o cargo de ministra-chefe da Casa Civil durante grande parte da administração Lula.

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Ainda assim, as poucas perguntas direcionadas ao assunto abordaram a composição ministerial e o grau de interferência política que o novo governo teria em empresas privadas. “Em relação a uma mão mais pesada do Estado na economia, alertamos que a regulação é um dos riscos no Brasil, mas investidores não parecem muito preocupados com isso”, escreveu Emy.

No entanto, faltando 16 dias para a realização do pleito, entram no radar dos investidores as ações que podem sofrer com maior volatilidade nesse período pré-eleitoral. Em geral, as mais citadas são companhias estatais cujo principal foco de atuação são estados em que a corrida ainda não está definida, como o caso emblemático de Minas Gerais, em que as pesquisas indicam forte crescimento do candidato apoiado por Aécio Neves.

Vale: possível queda de braço
Embora esse seja o perfil dominante, empresas privadas também podem ser impactadas, especialmente se ela é uma ex-estatal. De acordo com a visão apresentada pelo JPMorgan, a Vale (VALE3, VALE5) foi alvo de poucas indagações por parte dos investidores estrangeiros. “Uma minoria está preocupada com o fato de que a Vale possa sofrer aumento de interferências governamentais, com o recente barulho envolvendo a substituição do principal executivo da empresa”, Roger Agnelli, comentou o relatório.

Embora a companhia estabeleça a política de que não comenta rumores de mercado, por duas vezes o assunto já apareceu na imprensa. Na primeira, a colunista social Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, levantou a possibilidade de que Guido Mantega, atualmente ministro da Fazenda, venha a assumir o cargo, caso Dilma vença a eleição.

Lauro Jardim, colunista da Veja, também emitiu sinalização no mesmo sentido, indicando que Roger Agnelli, presidente da companhia, teria procurado interlocutores para se manter no cargo em 2011, já que “a turma de sempre quer instalar um político no comando da empresa”.

Para um analista do setor que preferiu não ser identificado, o mercado definitivamente não receberia tal movimento de forma positiva. “A Vale se propõe a gerar retorno para todos os seus acionistas. Se a empresa optar por atender a expectativa de apenas um deles, o Governo Federal, vai se prejudicar enormemente porque estará faltando transparência. A boa imagem que a companhia conquistou nos últimos anos seria arranhada”, afirmou.

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Além de 5,4% de participação na empresa por meio do BNDESPar, braço de participações do banco de fomento estatal, o Governo Federal tem ainda 12 golden shares na companhia, ações que oferecem poderes especiais, como vetar a liquidação da empresa. No entanto, a Vale é controlada pela Valepar, entidade privada que tem entre seus acionistas a Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) e a Bradespar (BRAP4).

Muito cuidado
A análise é de que o movimento, caso realmente aconteça, teria que ser muito cuidadoso, porque a reputação de Agnelli perante o mercado é muito respeitada e os papéis sofreriam bastante caso qualquer tipo de ingerência política na empresa viesse a ser detectada. O analista não acredita que esse cenário de mudanças de quadros por indicação política possa realmente vir a acontecer, mais porque a companhia é resistente a esse tipo de pressão do que porque o risco não existe.

No caso, é lembrado o episódio ocorrido durante a crise financeira mundial, quando o governo publicamente criticou a Vale por demitir cerca de 1.300 funcionários ao final de 2008, em um momento em que empresas reduziam a produção de minério de ferro e adiavam novos projetos por causa da ausência de demanda em meio à crise global. Na mesma época, a mineradora desistiu do projeto siderúrgico do Pólo Anchieta, em parceria com a Baosteel.

Então, especulou-se que Roger Agnelli não duraria no cargo, por causa das diferenças criadas com o governo, mas o ruído acabou se afastando da mídia e a Vale “teve pulso firme por não se deixar influenciar por esse tipo de recado. A empresa se saiu bem”, indica o analista, que no entanto desconfia que o relacionamento com o governo possa ter sido prejudicado.

Energia elétrica: riscos regulatórios…
Mas não é só na Vale que o período eleitoral pode ter algum efeito. Para Ricardo Corrêa, analista da Ativa Corretora, o ano de eleições é sempre ruim para as empresas de energia elétrica públicas e para as distribuidoras. As últimas, porque estão mais expostas ao risco regulatório.

Recentemente, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) anunciou proposta do novo custo médio ponderado do capital (conhecido como WACC) para o terceiro ciclo de revisões tarifárias para as empresas de distribuição. O número ficou em 7,15% após a tributação, pior do que a projeção mais pessimista do Itaú, que era de 7,78%, de acordo com relatório assinado por Marcos Severine, Mariana Coelho e Marcel Shiomi.

Para Corrêa, da Ativa, a revisão foi bem negativa para as distribuidoras, mas não só. O próprio modelo regulatório brasileiro, que estava perto da maturidade, teve, até certo ponto, um retrocesso. Para os analistas da Itaú, as empresas que devem sofrer pressão significativa, nos próximos meses, são Coelce (COCE5), Equatorial Energia (EQTL3), CPFL Energia (CPFE3) e Eletropaulo (ELPL6).

… e mudanças na gestão
Ricardo Corrêa vê volatilidade também para as empresas públicas do setor, especificamente por causa do período pré-eleitoral. São dois casos de destaque. Um deles, o da Copel (CPLE6), já acontece há mais tempo. Os investidores vêm precificando nos ativos da empresa a melhora da gestão e diminuição do risco político em função da saída de Roberto Requião, do PMDB, do governo do Paraná. Isso porque Requião tem, explica Corrêa, perfil mais intervencionista. “Ele participou, interferiu e deteriorou a gestão da Copel, ao conceder descontos na conta de luz, que prejudicaram o resultado financeiro da companhia significativamente”.

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A entrada de um governador mais alinhado com o que o mercado analisa como prudente – no caso, Beto Richa, do PSDB, líder nas pesquisas de inteção de voto para o governo do estado – impulsiona os ativos da companhia.

Na Cemig (CMIG4) ocorria o contrário até meados de agosto. Após oito anos de governo do tucano Aécio Neves, tido como equilibrado, Hélio Costa, filiado ao PMDB e ex-ministro das Comunicações do governo Lula, liderava as pesquisas com 26 pontos percentuais de folga em relação a Antonio Anastasia, do PSDB, apoiado por Aécio, de acordo com pesquisa Datafolha dos dias 9 a 12 de agosto.

Hélio Costa, explica o analista da Ativa, tem um perfil diverso, com histórico de ingerência estatal no setor de telecom, o que seria mais aproximado com as características de Requião, e por isso o mercado recebe com cautela a liderança nas pesquisas.

No último mês, no entanto, Anastasia diminuiu a diferença em relação à Costa, e na última pesquisa Datafolha os candidatos apareceram em empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Com isso, as ações da Cemig subiram cerca de 10% nos últimos trinta dias.

Para aquele investidor que decidir apostar nas ações no longo prazo, no entanto, os analistas da Itaú fazem um alerta: as eleições ainda não foram decididas, o que só deve acontecer após um segundo turno de votação. Existe a possibilidade de Hélio Costa receber o apoio muito ativo tanto de Lula quanto de Dilma na reta final, o que pode afetar positivamente a candidatura em um segundo turno.

Privatização à vista
Rafael Andreata, analista da Planner, lembra ainda da Cesp (CESP6). As grandes chances de vitória de Geraldo Alckmin, do PSDB, em São Paulo, e a provável renovação das concessões em 2011 são fatores considerados fundamentais para acionar a retomada do processo de privatização da empresa, o que poderia levar as ações a patamares entre R$ 45 e R$ 50, em função da disputa pelos ativos em um possível leilão de privatização. “Acreditamos que isso é uma questão de tempo”, indica o analista.

Ainda assim, as pesquisas eleitorais têm impacto nos papéis da companhia, que reagem à possibilidade de um segundo turno entre Alckmin e Aloízio Mercadante, do PT, indica o Itaú. Do dia 20 de agosto ao dia 8 de setembro, as ações recuaram 8,5%, pressionadas, “possivelmente”, pela queda do candidato do PSDB, que governa o estado há 16 anos, nas pesquisas. No entanto, no último levantamento do Datafolha, a distância entre os dois candidatos aumentou para em 28 pontos percentuais, com Alckmin na liderança com 51% das intenções de voto.

Embora as ações tenham se recuperado nos pregões recentes, o Itaú afirma que a pressão pode ocasionar um ponto de entrada interessante e afirma que “abaixo de R$ 25 por ação, com certeza seríamos compradores de CESP6”. As ações encerraram o pregão do dia 16 de setembro cotadas a R$ 25,94.

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Concessões rodoviárias e o risco inerente
Outro setor citado por analistas como exposto à volatilidade inerente ao período eleitoral é o de concessões rodoviárias. Para o Deutsche Bank, é natural que as eleições tragam certa incerteza sobre qual será o direcionamento que o próximo governo tomará em relação às concessões, embora nenhuma grande mudança seja antevista, de acordo com Josh Milberg e Diogo Miura, que ainda assim citaram a política com um dos riscos para os papéis, em início de cobertura do setor.

Para Brian Moretti, analista da Planner, mesmo a promessa de Alckmin no sentido de revisar as tarifas de pedágios em São Paulo tem impacto limitado para CCR (CCRO3) e EcoRodovias (ECOR3), as duas principais concessionárias do estado.

“Não vejo risco político muito grande, principalmente pelo histórico do partido [o PSDB], que manteve política amigável com as empresas. Não vejo o risco regulatório aumentando”, indicou o analista. Além disso, as empresas têm um corpo forte de advogados, que são acionados em situações de confronto com o governo, como aconteceu entre a Triunfo (TPIS3) e o governo do Paraná durante a gestão de Roberto Requião. “O poder concedente não tem mais tanto poder”, tendo que respeitar e arcar com possíveis quebras de contrato, explica o analista.

Petrobras: sem comentários
Por último, vem a Petrobras (PETR3, PETR4) e o criticado processo de capitalização da companhia, principal motivo pelo qual o mercado vem penalizando as ações ao longo de 2010. A quebra de braço entre a estatal e o Governo na decisão do preço do barril de petróleo que será utilizado na cessão onerosa da União à estatal criou a sensação, no mercado, de que a empresa é dirigida também pelo Palácio do Planalto, e não apenas por seus diretores e pelo Conselho de Administração, conforme sugeriu Miriam Leitão, colunista do jornal O Globo.

Com o preço médio estabelecido em US$ 8,51 por boe (barril equivalente de óleo), o valor foi criticado pela Ativa por ter ficado no topo das estimativas. Além disso, o tamanho da capitalização pode ocasionar a diluição dos acionistas minoritários em até 30%, de acordo com cálculos contidos no prospecto da oferta primária de ações, no caso do investidor decidir não participar da oferta. Por meio das sobras de subscrição, abriria-se espaço para que a União aumente a participação na estatal, atualmente de 32,1% do capital social.

Em pesquisa realizada pelo Portal InfoMoney com 2.283 leitores, 41,44% deram nota zero à condução do processo pela Petrobras. Por causa do período de silêncio imposto às corretoras que irão participar da oferta, analistas não puderam emitir comentários sobre a estatal para essa reportagem.