Chefiada por Gordon Brown, Europa desponta como nova líder no combate à crise

Seguindo estratégia do premiê britânico, governantes do velho continente vão liberar € 2 trilhões para restaurar sistema financeiro

SÃO PAULO – Depois de marcarem uma das piores semanas de todos os tempos, os mercados parecem ter encontrado respaldo nas diversas medidas anunciadas em algumas das principais economias do mundo – especialmente as européias – para combater os efeitos da crise financeira internacional.

Frente à deterioração das condições econômicas e quedas consecutivas das bolsas, as autoridades monetárias de importantes centros financeiros decidiram agir no último fim de semana e divulgaram uma série de iniciativas a fim de resgatar a liquidez do sistema financeiro e restaurar a confiança dos investidores.

Diante dos eventos, a resposta foi imediata e a última segunda-feira (13) ficou marcada como uma das melhores sessões da história para os mercados. O mais importante indicador, o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, experimentou sua maior alta em pontos da história. E o movimento se espalhou ao redor do globo.

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Na Europa, o índice francês CAC 40 teve sua alta mais expressiva dos últimos 20 anos e o inglês FTSE 100 a segunda maior disparada de todos os tempos. Por aqui, o Ibovespa registrou sua maior valorização em 11 anos, enquanto na Ásia, o índice Nikkei, da Bolsa de Tóquio, registrou ganho recorde na terça-feira (14).

Europa: nova líder no combate à crise

Olhando além da forte euforia gerada pelas medidas, a postura agressiva das autoridades monetárias pode sinalizar uma virada na crise mundial. E, ao que parece, esse novo cenário apresenta um novo líder no combate ao colapso do sistema financeiro: a Europa.

Comandados pelo primeiro-ministro britânico Gordon Brown, os governantes do velho continente vão, juntos, destinar quase € 2 trilhões para recapitalizarem seus bancos e debelar as tensões geradas pelos problemas iniciados no setor hipotecário norte-americano.

Se comparada aos planos de outros países, inclusive o dos EUA, a quantia é de longe a maior já disponibilizada desde o início da crise. A Alemanha, liderada pela chanceler Angela Merkel, liberará cerca de € 480 bilhões, enquanto a França, do presidente Nicolas Sarkozy, disponibilizará aproximadamente € 360 bilhões. Outros países como Reino Unido, Espanha, Áustria e Itália também anunciaram suas verbas.

Anúncios à parte, a impressão é de que os europeus finalmente abandonam antigas rivalidades para salvarem os bancos e evitarem que a economia da região seja afetada. E tomando por base a reação inicial dos mercados, a aposta predominante é de que a união tenha êxito.

Gordon Brown, o comandante

O plano anti-crise aplicado não só pelas nações européias, mas também por potencias do quilate de EUA e Japão, segue o modelo proposto pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown. E a idéia é simples: recapitalizar o sistema bancário mediante a compra das ações das instituições.

Até o estopim da crise, a imagem de Brown era vinculada a um político com a popularidade em queda livre e o mandato ameaçado. Contudo, as turbulências no sistema financeiro mudaram drasticamente a visão dos populares e especialistas com o premiê britânico, tido agora como a grande figura salvadora dos mercados.

Isto porque foi ele quem primeiro teve a iniciativa de nacionalizar e capitalizar bancos, inspirado pela operação de resgate de um grande banco americano feita pelo mega-investidor Warren Buffett. E se é bom para Buffett, deve ser bom para os governos, pensou Brown antes de adotar a estratégia.

Em meio ao otimismo com os pacotes anunciados, as ações adotadas por Brown vêm rendendo cumprimentos de diversas autoridades, inclusive do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que a terça-feira ligou ao líder britânico para parabenizá-lo pelas medidas.

E se a Europa desponta como a nova líder no combate à crise, Brown aparece como o comandante da operação, ainda mais diante da falta de credibilidade do presidente norte-americano George W. Bush, em função de acusações de inabilidade em lidar com o colapso.