Bolsonaro diz que Cid é uma “pessoa decente” e “não vai inventar nada” em delação

Ex-presidente não teme que o militar faça qualquer tipo de revelação de atos ilícitos envolvendo sua vida particular

Luís Filipe Pereira

Ex-presidente Jair Bolsonaro

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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou que está tranquilo em relação à delação premiada que o ex-ajudante de ordens Mauro Cid realizou no âmbito dos inquéritos que também investigam o próprio Bolsonaro, como no caso da apropriação de joias oferecidas por autoridades estrangeiras como presente durante o seu governo.

“O Cid é uma pessoa decente. É bom caráter. Não vai inventar nada, até porque o que ele falar, vai ter que comprovar. Há uma intenção de nos ligar ao 8/1 de alguma forma. E o Cid não tem o que falar no tocante a isso porque não existe ligação nossa com o 8/1. Eu me retraí [depois da derrota para Lula], fiquei no Palácio da Alvorada dois meses e fui poucas vezes na Presidência. Recebi poucas pessoas”, disse o ex-presidente em entrevista à Folha de São Paulo publicada nesta quarta-feira (13). A conversa foi realizada na segunda-feira (11), no Hospital Vila Nova Star, na capital paulista, onde Bolsonaro está internado.

Nos últimos dias, a homologação da delação premiada de Cid pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tem causado preocupação em aliados de Bolsonaro. Existe receio de que as respostas dadas por Cid tragam elementos que funcionem como fio condutor para que seja aprofundada a investigação sobre a eventual participação do ex-presidente na atuação de milícias digitais, por exemplo. À Folha, Bolsonaro disse que não tem medo de ser citado pelo militar, e classificou o ex-ajudante de ordens como “supersecretário”, responsável por agendar encontros com representantes de governos estrangeiros.

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“Ele foi pessoa de minha confiança ao longo dos quatro anos [de governo]. Fez um bom trabalho e tinha aquela vontade de resolver as coisas. O telefone dele, por exemplo, eu chamava de muro das lamentações. Não só militares, mas civis que queriam chegar a mim, vinham através dele”, disse.

“Ele não participava de nada. Eu estive com o Putin, por exemplo. Estive com o Trump. Éramos eu e o intérprete. Ele [Cid] nunca estava [nas conversas]”, destacou.

Solto no sábado, após a homologação da delação, Mauro Cid passou a usar uma tornozeleira eletrônica. Ele estava preso desde maio, quando foi detido durante a operação que apurou fraudes nos cartões de vacinação do ex-presidente, do próprio Mauro Cid, e de familiares. Jair Bolsonaro demonstrou empatia ao falar sobre o ex-auxiliar e disse acreditar que o ex-ajudante de ordens vivia um ambiente de forte pressão psicológica ao longo do período na prisão, mas não teme que o militar faça qualquer tipo de revelação de atos ilícitos envolvendo sua vida particular.

“Ele era de minha confiança. Tratava de minhas contas bancárias. Cuidava de algumas coisas da primeira-dama [Michelle Bolsonaro] também. Era um cara para desenrolar meus problemas. Um supersecretário de confiança. Fala inglês, e das forças especiais, é filho de um general da minha turma. Mas ele não participava [das decisões políticas do governo]”, disse Bolsonaro.

“Quando eu era segundo tenente do Exército, fiquei revoltado com um soldado e mandei um relatório para um subcomandante, um tenente-coronel antigão. Ele me chamou e disse: “Reflita sobre o que você escreveu e volte aqui às 16h. E mais: se coloque no lugar do soldado”. Quando voltei à tarde, pedi para rasgar o que tinha escrito. Eu me coloquei no lugar do soldado. E agora, nos meus dias de reflexão, eu me coloco no lugar do Cid. E eu tenho um pensamento sobre ele: eu pretendo – e brevemente, se Deus quiser – dar um abraço nele. É só isso que posso falar”, afirmou.

O ex-presidente entende que há uma tentativa da opinião pública de relacioná-lo com atos ilícitos envolvendo o recebimento de presentes de governos estrangeiros e também com os ataques ocorridos em Brasília em 8 de janeiro quando vândalos depredaram as sedes dos Três Poderes. Na entrevista, Bolsonaro afastou qualquer hipótese de ter influenciado os participantes do acampamento montado em frente ao QG do Exértcito a participarem da quebradeira ocorrida na capital.

“Se você tirar da minha vida os presentes [que ganhou de autoridades estrangeiras e depois foram comercializados por Cid no exterior] e o 8/1, que foi depois do fim do meu mandato, não sobra nada para falar do meu governo, com todo respeito. Posso ter tido briga com a imprensa e falado palavrão, porque a gente fica revoltado. Fora isso, não há nada para falar”, afirmou.

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