Apreciação cambial pode diminuir riscos de inflação causados por alta do petróleo

Para o Citi, possibilidade de pressão nos preços dos alimentos é grande, mas mecanismo de "reciclagem" pode trazer alívio

SÃO PAULO – A instabilidade política no Oriente Médio e norte da África, com tensões que se espalham por diversas regiões, levantou uma série de questionamentos no mercado acerca dos possíveis impactos no campo econômico, sobretudo no mercado de petróleo. Para o Citigroup, o mercado parece não estar muito preocupado com os riscos inflacionários que o choque do petróleo – a recente explosão nos preços – pode criar, o que seria uma leitura equivocada.

Segundo David Lubin, analista do banco, o movimento de alta nos preços de energia tem uma grande influência sobre o risco inflacionário, sobretudo em função da pressão altista que esse movimento coloca sobre os preços dos alimentos.

Embora não esteja realmente claro se o problema configura-se como um choque de oferta, como no caso de 1970, ou como um choque de demanda, como no caso de 2007 e 2008,Lubin afirma que o risco existe e pode pressionar ainda mais os preços dos alimentos, criando um choque inflacionário desagradável.

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Um jogo entre importadores e exportadores
Lubin ainda acrescenta que a alta nas cotações da commodity também levanta outro alerta: os efeitos sobre o apetite ao risco e a posição do balanço de pagamentos dos mercados emergentes. Em geral, acredita-se que quando há um movimento de escalada no barril do óleo, os exportadores de commodities energéticas ganham, ao passo que os importadores perdem. Porém, nem sempre isso é uma verdade absoluta. 

O analista explica que existem alternativas para mitigar os riscos de um cenário de petróleo em alta e os importadores de energia fazem isso de duas maneiras. A primeira delas diz respeito a um termo que o analista coloca como  “reciclagem de petrodólares “, ou seja, ação pela qual os importadores conseguem colocar fluxos de capital nos mercados emergentes quando o preço do óleo sobe, não importando se essa alta é derivada de um choque de demanda ou de um choque de oferta. “Em outras palavras, o que os importadores de petróleo podem perder em conta corrente quando os preços sobem, eles podem ganhar na conta de capital”, destaca o analista.

A segunda maneira de mitigar os riscos é através da exposição a exportadores de petróleo. Na explicação de Lubin, aqueles que exportam a commodity tendem a gastar suas receitas extras, o que gera demanda para as exportações das economias emergentes. “Economias do Oriente Médio agora têm mais da metade de suas importações vindo de mercados emergentes, e alguns dos maiores importadores de petróleo nesses mercados emergentes têm substancial exposição de exportação para o Oriente Médio”, explica.

Apreciação cambial: uma arma útil
Avaliando esse mecanismo de “reciclagem”, o Citi acredita que isso pode contribuir para a manutenção da pressão de alta sobre as moedas das economias emergentes, apesar da volatilidade do apetite ao risco.

Como o analista não desconsidera a possibilidade de pressão inflacionária decorrente do choque de preços das commodities, ele aposta que essa apreciação cambial pode ser uma arma muito útil na guerra contra a inflação. 

Conflitos empurram cotação do petróleo
Uma onda de manifestações teve início no Egito, no começo do ano. Clamando pela saída do então presidente, Hosni Mubarak, violentos protestos tomaram conta das ruas do país. Quando a situação parecia mais estabilizada, após renúncia de Mubarak, todos os olhos se voltaram para a Líbia.

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Muitos analistas já consideram os atos violentos no país como sendo um dos mais sangrentos em sua história. Rebeldes protestam contra o ditador Muammar Ghaddhafi, que não demonstra intenções de ceder. Forças leais ao ditador líbio estão atacando importantes cidades tomadas pelos protestantes e inúmeros civis já morreram. 

Forças armadas dos chamados “aliados” – países ocidentais que exigem a saída de Ghaddhafi do país – iniciaram uma série de bombardeios na região, exigindo que o massacre contra civis chegue ao fim. Porém, o ditador continua ordenando as ofensivas de suas tropas, o que torna a situação ainda mais instável.

O clima de aversão ao risco que tomou conta do mercado cresce a cada dia, pois as agências de notícias dão conta de novos protestos em regiões vizinhas, como a Síria, Bahrein, Iêmen, Irã e Omã . O maior risco é em relação à Arábia Saudita, o maior produtor de petróleo da Opep (Organização de Países Exportadores de Petróleo). Caso a instabilidade política chegue também ao país, provocando uma interrupção na produção do óleo, os impactos econômicos poderiam ser ainda mais perversos. Alguns analistas já trabalham com a hipótese de cotações na casa dos US$ 200, no pior dos cenários