Eleições 2018

“Ainda não é hora de levar pesquisas eleitorais muito a sério”, diz analista; veja ao que se atentar

"Neste início de ano, mais relevante e decisivo para vislumbrar qual será o resultado do pleito presidencial é sondar o jogo de bastidores para a construção de candidaturas e alianças", observam os analistas da MCM

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SÃO PAULO – Há tempos que o cenário eleitoral brasileiro não apresenta tamanho nível de incerteza para a corrida presidencial tão perto do primeiro turno como hoje. A menos de oito meses da disputa pela sucessão de Michel Temer no Palácio do Planalto, o eleitor, ainda desinteressado em sua maioria, se depara com um quadro de profunda indefinição acerca das candidaturas, alianças e propostas.

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De um lado, o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atual líder isolado nas pesquisas de intenção de voto, corre cada vez mais risco de ser impedido de participar do pleito, enquadrado pela Lei da Ficha Limpa. A pulverização de candidaturas na esquerda já sinaliza a antecipação a esse cenário, enquanto o PT publicamente nega a discussão de um ‘plano B’.

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No centro reformista, nenhuma opção até o momento empolgou os eleitores e mostrou condições de aglutinar a base governista. A fragmentação da coalizão que compõe a atual gestão figura como um de seus principais riscos. O ministro Henrique Meirelles (Fazenda) e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mal pontuam nas pesquisas. Já o governador Geraldo Alckmin (PSDB), além de não apresentar desempenho muito animador nos últimos levantamentos, não conta com a simpatia do núcleo duro do atual governo. A posição ambígua dos tucanos incomoda.

Enquanto isso, à direita, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) tenta consolidar sua candidatura e marchar em direção ao centro, ainda com grandes dificuldades em termos de discurso e sobretudo estrutura partidária a enfrentar. Além do desafio de apresentar-se como um defensor autêntico de uma agenda liberal na economia, o ex-capitão do Exército terá de driblar a baixa capilaridade do PSL — partido pelo qual deverá disputar a eleição –, o pequeno tempo de televisão e os escassos recursos para fazer campanha.

Em anos eleitorais, o mês de fevereiro normalmente traz maior definição sobre as candidaturas e estratégias dos principais grupos políticos para a disputa. O cenário atual, ao contrário, é turvo, com nomes em aberto e alianças ainda desconhecidas. A maior prova disso pode estar nas próprias pesquisas de intenção de voto. No último levantamento feito pelo instituto Datafolha, nove situações distintas foram apresentadas, e, mesmo assim, a totalidade dos cenários desejados não foi contemplada.

“Poucos estão preocupados com eleição neste momento. Acabamos impondo um problema aos entrevistados [com as pesquisas]. De qualquer forma, os dados são consistentes. É preciso levar em conta que o cenário é muito indefinido e o que tentamos é dar um panorama aproximado do que pensa o eleitor neste momento”, disse Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, em entrevista ao InfoMoney.

Com tanta indefinição, o peso das pesquisas, fotografias de um momento do ambiente eleitoral, passa a ser relativizado. “Olhar as eleições passadas para analisar a presente é um recurso usual bastante válido. Mas, se há uma eleição com potencial para quebrar padrões prévios, é a eleição presidencial deste ano”, observam os analistas da MCM Consultores em relatório a clientes.

As principais sinalizações

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“Ainda não é hora de levar muito a sério as pesquisas de intenção de voto”, recomendam. “Neste início de ano, mais relevante e decisivo para vislumbrar qual será o resultado do pleito presidencial é sondar o jogo de bastidores para a construção de candidaturas e alianças. Porém, mesmo sob esse aspecto, a eleição deste ano também está fugindo do padrão da maioria das disputas anteriores”.

Conforme lembram os especialistas da MCM, em outros pleitos, a essa altura, as forças políticas mais relevantes já haviam se organizado de modo mais efetivo. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso já havia fechado acordo com o PFL, segundo maior partido do país na época. Na disputa seguinte, o tucano coordenou a aprovação da emenda da reeleição e, depois, articulou apoio com a cúpula do PMDB. Situação similar ocorreu com Lula em 2006 e Dilma Rousseff oito anos depois.

A maior exceção foi o ano de 1989, dado o cenário de debilidade do governo de José Sarney e de maiores incentivos circunstanciais à profusão de candidaturas e à fragmentação do ambiente. “Foi uma eleição solteira, só para presidente. E as regras para a divisão do tempo de propaganda gratuita no rádio e na televisão eram benevolentes para os partidos menores”, lembram.

Hoje, embora os incentivos à fragmentação sejam muito menores, não há indicações claras de que a coordenação para restringir o número de candidaturas esteja evoluindo. “Ao contrário, os sinais mais recentes vão em sentido oposto. Apontam para a descoordenação. Caciques políticos (FHC) e partidos bem estruturados (PSB e PSOL) incentivam a entrada de outsiders (Luciano Huck, Joaquim Barbosa e Guilherme Boulos, respectivamente). Nomes com desempenho pífio nas pesquisas (Henrique Meirelles, Rodrigo Maia e Michel Temer, que têm 1-2% de intenção de voto) mesmo assim se mostram animados a serem candidatos. Outros que já pareciam definitivamente descartados (João Doria, por exemplo) parecem ter voltado a cogitar a possibilidade de entrar na corrida presidencial”, observam.

“Até julho, quando as candidaturas serão oficializadas, a coordenação da caciquia política pode acabar se impondo. Aliás, é o que ainda nos parece mais provável. Essa hipótese passará por um teste importante em 7 de abril, data derradeira para a filiação partidária e desincompatibilização. Por enquanto, contudo, a descoordenação predomina. E isto é especialmente prejudicial para as forças de centro-direita, reformistas, de viés mais ou menos governista. Considerando o ânimo do eleitor, se esse campo político não se coordenar adequadamente, pode dar Beija-Flor e Tuiuti também na eleição presidencial”, concluem.