Intervenção no Rio

A nova (e arriscada) aposta de Temer para se fortalecer no jogo eleitoral de 2018

Focando mais em segurança com a intervenção no Rio, presidente busca conectar seu governo a uma das principais preocupações dos eleitores - mas há riscos caso a medida não seja bem-sucedida

SÃO PAULO – A decisão anunciada na última sexta-feira de intervenção na segurança pública no Rio de Janeiro diz muito sobre a situação complicada que o estado vive atualmente. Mas, além disso, traz indicações bastante importantes sobre quais serão as demandas da população brasileira durante as eleições – e como os políticos estão se movimentando para isso.  

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O decreto de intervenção, conforme destacado pela consultoria de risco político Eurasia Group na última sexta, representa uma mudança importante na tática do governo antes das eleições. Até agora, o governo Temer tinha se concentrado na aprovação de reformas econômicas favoráveis ao mercado – e muitas vezes impopulares – no Congresso.

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A Eurasia lembra que o presidente chegava até a se gabar no ano passado de que não estava preocupado com os baixos índices de aprovação.  Mas a reação do governo está mudando claramente à medida que a eleição se aproxima. Para a consultoria, é muito improvável que Temer seja um candidato à reeleição, mas a sua aprovação impacta os aliados postulantes à presidência. 

“A crise de segurança do Rio, então, oferece uma oportunidade para sua administração mudar sua agenda abordando uma questão que está entre as principais prioridades dos eleitores”, afirma a Eurasia. Pelo mesmo motivo, os presidentes da Câmara Rodrigo Maia e do Senado, Eunício Oliveira, vêm pressionando por medidas relacionadas à segurança desde o final do período legislativo, no início deste mês. Temer também anunciou neste fim de semana a criação do Ministério da Segurança.

“Claro, a crise do Rio garante essas novas ações por si só, não apenas como um meio para aumentar a popularidade do governo. Mas também pode jogar a favor do governo, oferecendo aos seus aliados uma plataforma mais consistente para suas campanhas”, aponta a Eurasia.

Os jornais do último fim de semana corroboram essa avaliação destacando que, com essa medida, Temer avalia que poderá colher os frutos da intervenção no Rio caso ela se mostre bem-sucedida, podendo inclusive poder se cacifar na disputa eleitoral, algo praticamente impossível neste momento em que ele possui míseros 3% de aprovação popular. O presidente só considera ser candidato à reeleição caso sua popularidade melhore até maio – a meta é aumentar a popularidade de 5% para 15% e reduzir a rejeição de 70% para 60%. Caso ele não se candidate, pelo menos a sua imagem traria melhoras, mas pelo menos não seria deixado de lado pelos postulantes à corrida presidencial – o que está em vias no cenário atual. 

Aposta de risco

Contudo, essa é uma aposta de risco, afirma a Eurasia. Ao colocar a segurança no topo da agenda do governo, o que pode acontecer é acabar ajudando marginalmente o candidato Jair Bolsonaro, que tem uma plataforma direcionada para o discurso de “lei e ordem”, o que pode ganhar terreno especialmente se a intervenção não trouxer resultados evidentes.

“Mesmo que a intervenção dê uma sensação de alívio, a vantagem da popularidade de Temer será limitada, já que a corrupção permanece no topo das prioridades dos eleitores – e ele tem grandes passivos nessa frente – enquanto o desemprego permanecerá alto”, avalia a Eurasia. Ainda assim, apontam os consultores, com o governo a níveis mínimos de aprovação popular, Temer e seus aliados estão procurando por alta da popularidade.