Silêncio ensurdecedor

A incógnita Michel Temer: aliado de Dilma ou maior conspirador pelo impeachment?

Para muitos, o grande inimigo de Dilma é o seu próprio vice e ele já estaria conspirando contra ela - mas ela segue reiterando total confiança nele (pelo menos publicamente)

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SÃO PAULO – Desde que saíram notícias de que o fiel aliado Eliseu Padilha sairia do ministério da Aviação Civil, as análises sobre o que o vice-presidente Michel Temer está realmente pensando em fazer seguem no radar do mercado. 

Aliás, as movimentações do vice-presidente já eram observadas antes mesmo da última quarta-feira (2), dia em que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), anunciou que aceitou o pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

Conforme informou o jornal Valor Econômico um dia antes do anúncio de Cunha, na última terça-feira, Michel Temer já buscava um acordo com o PSDB. Se galgado à presidência ofereceria aos tucanos a renúncia ao direito de concorrer à reeleição em 2018. Ele poderia até concorrer ao governo de São Paulo, num acordo com os tucanos.

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Esta indicações ganharam forças mais uma vez com a notícia do final do sábado jornal O Estado de S. Paulo de que o vice conseguiu unir os senadores tucanos Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, em torno de uma estratégia comum que tem como objetivo a disputa pela Presidência.

Divididos desde o início da crise que ameaça o mandato da presidente Dilma Rousseff, eles decidiram apoiar e até encorajar, em alguns casos, Temer a trabalhar pelo impeachment.

Já na sexta-feira, os indícios eram fortes de que Michel Temer buscava se distanciar da presidente na questão sobre o impeachment, com o desembarque de Eliseu Padilha do ministério e há uma pressão da ala pró-impeachment do partido para que o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, faça o mesmo, o que seria uma “senha” do desembarque – ainda que pré-maturo – do partido do governo. 

“O desembarque de Padilha do governo é um sinal da movimentação de bastidores por parte do PMDB; já se discute no Palácio do Jaburu um possível day after, Temer já conversa com as principais lideranças tucanas, tendo angariado apoio em trocar da promessa de não tentar a reeleição em 2018. Ainda assim, o PMDB sempre foi um partido dividido – o PMDB do Rio de Janeiro apóia a presidente e mantém o discurso contra o impeachment”, avalia a Rosenberg Consultores Associados.

Segundo o  Estadão, o ministro demissionário Eliseu Padilha começará a trabalhar, a partir de hoje na costura com a base dos partidos em busca de apoios para o impeachment. Moreira Franco, afirma o jornal, outro aliado de Temer, também terá papel importante na estratégia, porém, a missão dele será tratar com as cúpulas de todas as siglas. Eles levarão ao vice-presidente informações diárias sobre o andamento do processo.

De acordo com a consultoria de risco político Eurasia, a renúncia de Padilha é uma má notícia para a presidente, mostrando que o PMDB ainda está dividido sobre o assunto impeachment. E, se o Congresso adotar o recesso parlamentar, pode prolongar o processo de impeachment para 2 meses, destaca a consultoria, ressaltando que isso pode tornar Dilma mais vulnerável e ampliar o risco de que ela não conclua seu mandato pela deterioração da economia.

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Vale destacar que, na semana passada, a consultoria afirmou que Dilma sobreviverá ao pedido de impeachment, beneficiando-se indiretamente de enfrentar um processo de impeachment antes que o pior das investigações da Operação Lava Jato surja e antes do aprofundamento da recessão econômica, que deve ocorrer em 2016. 

Constrangimento?
Vale destacar ainda o que Temer citou como constrangimento com as declarações da presidente Dilma nos últimos dias, o que contribui para o afastamento entre o vice e a titular no cargo. 

Temer expressou sua insatisfação com relação às declarações da presidente Dilma no último sábado, no Recife, em que ela falou: “espero integral confiança do Michel Temer e tenho certeza que ele a dará. Eu conheço o Temer como político, como pessoa, como grande constitucionalista”. Segundo a Folha, ele teria dito a interlocutores que ela nunca confiou nele, o que foi refutado pela própria presidente. 

Na quinta-feira, Temer já havia se indisposto com o Planalto por conta de uma fala de Jaques Wagner. “O vice Michel Temer tem longa trajetória de democrata e constitucionalista. Assim como nós, Temer não vê nenhum lastro para esse processo de impeachment”, disse o ministro-chefe da Casa Civil. O vice negou a afirmação.

De acordo com informações do jornal O Estado de S. Paulo, Temer insistirá na discrição. “O silêncio do Michel vale mais do que mil palavras de qualquer aliado da Dilma”, afirmou um dos interlocutores do vice.

Apesar de todos os sinais, a presidente segue falando sobre o ex-presidente. Hoje, em coletiva para jornalistas, Dilma afirmou que “não tem escutado silêncio nenhum de Temer”. “Temer sempre foi extremamente correto comigo, não tenho porque duvidar dele”, disse Dilma Rousseff a jornalistas em Brasília após se reunir com advogados e juristas.

Cautela é a palavra de ordem
Porém, cautela segue sendo a palavra de ordem para o vice-presidente. Segundo informações do Broadcast Político, o vice-presidente desistiu de participar de um evento ao lado de Alckmin, o que poderia alimentar ainda mais as especulações sobre um estreitamento das relações entre os tucanos e o peemedebista. 

E, neste final de semana, em  entrevista ao jornalista Josias de Souza, do UOL, Temer afirmou que não está participando de nenhuma articulação nem contra nem a favor do impeachment, defendendo uma posição de equilíbrio diante da questão: “nesta situação tensa que existe no momento, não quero praticar deslealdade institucional. Isso eu jamais praticaria.”

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Temer se esquivou em tomar partido por duas questões: esse tipo de atividade não se inseriria nas atribuições constitucionais do vice-presidente e por conta da divisão do PMDB na matéria. Ele afirma que não poderia, como presidente da legenda, assumir a posição de um dos lados. 

Porém, chegou a falar sobre um novo governo. “Seja sob o império da presidente Dilma ou de qualquer um que chegue ao poder, é preciso reunificar o país”, afirmou. “Precisamos de uma aboluta pacificação nacional. Todas as mentalidades partidárias deveriam se unir. Seja agora, sob o império da presidente, ou sob qualquer outro império, tem que haver uma coalizão nacional. Até acho que, se a presidente Dilma fizesse essa coalizão nacional, com todos os partidos, o país sairia desse embaraço em que se encontra”, afirmou.

Enquanto Temer mantém a cautela, vale lembrar das acusações que ele já enfrenta no meio político. O ex-ministro e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, acusou Temer de ser “o capitão do golpe”. Ele ainda chamou o presidente da Câmara de responsável por aceitar o pedido de impeachment na Câmara –, de ser “parceiro íntimo” de Temer.

“Se a Dilma cair é o Michel Temer que assume. Perguntem qual é a opinião dele sobre seu parceiro íntimo ter conta na Suíça. O beneficiário dessa situação é o Michel Temer, o capitão do golpe”. Não é a primeira vez que Gomes dá essa declaração. Ele já havia falado a mesma coisa em um programa de televisão na sexta-feira (4), além de reproduzir a mesma frase em sua página em uma rede social. 

“Do Nordeste, Ciro Gomes e o governador do Maranhão formam uma frente pró-Dilma, tentando mais uma vez resgatar sua popularidade por lá. Por ora, ainda que tenham sido detectados sinais de ganho de momento do movimento pró-impeachment, a permanência de Dilma na presidência ainda é o cenário mais provável”, ressalta a Rosenberg.

E, por enquanto, além dos próximos passos do Congresso, os próximos passos de Temer (e o seu silêncio ensurdecedor) deverão ser observados com atenção. A posição que ele tenta mostrar é de neutralidade. Mas ser um dos beneficiários do impeachment podem fazer com que ele vire uma das peças-chave contra Dilma nas próximas semanas.

(Com Agência Brasil) 

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