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Petrobras reforça independência com reajuste - mas "risco caminhoneiro" segue assombrando estatal

Analistas mantêm recomendação equivalente à compra para os ativos, mas monitoram de perto os efeitos do reajuste do diesel para os caminhoneiros

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(Reuters)

SÃO PAULO - Se no final da semana passada a Petrobras (PETR3;PETR4) sofreu um forte baque na bolsa com a suspensão do reajuste do diesel de 5,74% - perdendo R$ 32 bilhões de valor de mercado apenas no pregão da última sexta -, o encerramento desta semana é de maior alívio para a companhia. 

Isso porque, após o pânico com os maiores temores de intervenção, o governo e a estatal conseguiram dar sinalizações de que, ao invés de ser a nova política a ser adotada para a estatal, o reajuste barrado foi resultado de uma decisão "atabalhoada" do governo, mas que não se tornará recorrente na companhia. 

Durante essa semana, houve diversas rumores de mudança na política de preços e reiteradas falas de que a Petrobras mantinha a sua independência, mas o que houve de mais concreto foi anunciado na noite da última quarta-feira. Em coletiva, o CEO (Chief Executive Officer) da Petrobras, Roberto Castello Branco, anunciou o ajuste de R$ 0,10 por litro no preço do diesel.

Segundo Castello Branco, a variação mínima do preço é de 4,5% e a máxima de 5,147%. Ele avisou ainda que a estatal terá uma nova forma de divulgar os reajustes, como reais por litro e não como porcentual e ainda deixou claro que a política de preços da empresa não mudou. 

Com essa medida, os analistas avaliaram que houve uma redução significativa do "risco governo" na Petrobras depois do susto nos últimos pregões, o que levou os papéis a registrarem ganhos de cerca de 3% no pregão desta quinta-feira (18). 

Conforme destaca o Itaú BBA, o reajuste traz uma leitura positiva sobre a independência da estatal e de sua execução da sua política de preços. Além disso, apontam, embora no curto prazo as ações possam ser negociadas em função da dinâmica macroeconômica do Brasil e do fluxo de notícias sobre a evolução da Reforma da Previdência, do ponto de vista fundamentalista, a Petrobras parece atrativa. 

Na mesma linha, casas de análise como UBS, Santander e Bank of America Merrill Lynch também destacaram que o aumento de preços e a confirmação de manutenção da política de reajustes foram sinais importantes da companhia para dissipar os temores dos últimos dias. 

"Vemos positivamente a combinação do reforço do governo pela independência da política de preços de combustíveis da Petrobras, juntamente com a implementação pragmática da política pela empresa", destaca o Santander.

Além disso, destacam os analistas do banco, houve outro ponto positivo: a administração também reforçou a importância de uma potencial venda de ativos de refinaria, que ajudaria a manter o forte impulso contínuo do ambicioso programa de desinvestimento da empresa.

Vale ressaltar que, com esse reajuste, tanto o Santander quanto o BofA estimam que os preços do diesel no mercado interno estão praticamente em linha com a paridade internacional, em linha com a intenção da companhia. 

Tensão com caminhoneiros continua

Apesar de todas essas indicações positivas, ainda há focos de tensão. Segundo o UBS, apesar do aumento de preços reduzir a percepção de risco, os investidores irão aguardar até o próximo reajuste para confirmar a independência da empresa.

Além disso, esses eventos recentes podem aumentar o risco de desinvestimento nas refinarias.

Uma outra questão que preocupa é o risco de outra greve dos caminhoneiros.  "Embora positivo do ponto de vista da empresa, ainda não está claro como a indústria de caminhões irá reagir [ao aumento]. Esse continua sendo um risco importante, dado o potencial de greves que poderiam afetar a atividade econômica", afirmam os analistas do BofA.

De acordo com eles, existe um risco importante de que a pressão sobre os preços do diesel continue até o final de 2019 e até 2020 com a (1) implementação da regulação IMO 2020 (que reduzirão o teor de enxofre nos combustíveis navais, aumentando a demanda global por diesel) e (2) a alta sazonal nos preços do petróleo. Assim, aponta o BofA, o compromisso da Petrobras com a paridade de preços internacionais ao longo do tempo será um sinal importante a ser monitorado. 

Com isso, vale acompanhar de perto os riscos-chave relacionados aos  descontentamentos dos caminhoneiros com o governo. Nesta semana, foram anunciados R$ 2 bilhões em investimentos em rodovias, além de uma linha de crédito de R$ 500 milhões em créditos para o setor. 

Apesar das medidas, ainda há fortes indicações de descontentamento dos caminhoneiros e, com o BofA vendo pressões crescentes nos preços do diesel, essa questão ainda deve ser monitorada de perto pelos analistas. 

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"No caso de maior pressão, esperaríamos algum movimento em direção a um programa formal de subsídio para os preços do diesel feito pelo governo brasileiro, como ocorreu em 2018. Se os subsídios fossem exigidos da Petrobras, o que não esperamos, isso seria algo negativo", avalia o banco americano. Assim, a tendência dos preços globais do petróleo e a possível demanda mais alta do diesel com a implantação da regulação IMO 2020 serão monitorados de perto pelo mercado. 

Com todas essas ponderações sendo colocadas, todas as casas de análise citadas na reportagem seguem com recomendação equivalente à compra para a Petrobras.

Apesar das incertezas com relação ao diesel e preocupações sobre a independência, a expectativa de uma forte geração de fluxo de caixa, a continuidade da venda de ativos e a projeção de alta na produção nos próximos anos guiam a visão positiva para as ações.

O otimismo prossegue, mas o mercado ficará bem de olho nos próximos passos a serem dados pela companhia - e também o grau de insatisfação dos caminhoneiros com as novas medidas adotadas. O dilema do governo continua. 

 

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