Em petrobras

As 7 questões que ficaram no ar após o acordo "surpresa" da Petrobras com o governo

Possível novo aumento de capital, sobre o valor real do acordo, se haverá novos reajustes para aliviar o caixa da companhia são as principais dúvidas que rondam o mercado após o acordo de cessão onerosa; confira as principais dela

Graça Foster Petrobras 2
(Reuters)

SÃO PAULO - Na última terça-feira (24), o mercado foi pego de surpresa com o anúncio do acordo de cessão onerosa pela Petrobras (PETR3;PETR4), que pagará cerca de R$ 15 bilhões pelos 9,8 a 15,2 bilhões de barris pela produção do volume excedente ao contratado.

Com esse acordo representando mais pressão sobre o caixa já deteriorado da petrolífera, as ações da companhia viveram uma espécie de "montanha-russa", passando de uma forte alta de mais de 3% no início da tarde daquela terça-feira fatídica para uma queda de mais de 2% no final do pregão.

E, deste então, as ações da companhia não vêm reagindo bem: na semana passada, as ações da petrolífera fecharam em queda de mais de 8%. Com isso, a companhia registrou seu pior desempenho semanal desde o período entre 2 e 6 de dezembro de 2013, quando as ações PETR3 caíram 11,84% e os ativos PETR4 recuaram 9,88%, em meio às diversas questões que ainda ficaram "no ar" após o anúncio. Confira as principais delas abaixo:

1- Por que agora?
Conforme apontam os analistas do Itaú BBA, Paula Kovarsky e Diego Mendes, há dúvidas sobre o porque o acordo foi feito agora. 

Eles ressaltam que o último dos problemas da Petrobras é a longevidade de suas reservas. A companhia nitidamente possui agora muito mais reservas do que a empresa pode desenvolver no médio prazo. Por outro lado, o balanço patrimonial está sendo pressionado, na medida em que o governo adia a paridade internacional dos preços do diesel, gasolina e GLP para evitar pressões inflacionárias.

"Além de ajudar a melhorar o superávit primário, lutamos para identificar outra razão para o pagamento antecipado da companhia". Vale lembrar que, na última sexta-feira, o governo apresentou o resultado das contas de maio, registrando o pior mês da série histórica ao ter um déficit primário de R$ 10,5 bilhões.

Ainda existe incerteza quanto ao tamanho final das reservas e, ainda mais  importante, sobre quando a companhia estará efetivamente capacitada a transformar os barris em uma adição líquida à produção. "Isto pode fazer sentido para qualquer outra companhia petrolífera do mundo, porém não para a Petrobras a esta altura", ressaltam Kovarsky e Mendes. Eles destacam que há a corrente de que a transação agrega valor para a Petrobras mas, avaliam, não existe nenhuma maneira da Petrobras antecipar seu cronograma de produção na condição atual.

2- Vai ter aumento de capital?
Uma das questões que ficaram no ar após a decisão do governo é de uma nova capitalização, como destacou o relatório do BTG Pactual. De acordo com a instituição financeira, a contratação da Petrobras pelo governo para produzir os volumes que excederem 5 bilhões de barris de petróleo elevou, e muito, o risco de que a empresa possa fazer novo aumento de capital em 2015.

Porém, essa possibilidade foi totalmente negada pela presidente da petrolífera, Graça Foster, em entrevista no último domingo para o jornal O Estado de S. Paulo, que descartou uma nova capitalização até 2030. 

3- Conselheiros: eles sabiam do acordo?
Mais uma polêmica envolveu a Petrobras após o acordo de cessão onerosa: de acordo com fontes ouvidas pela Bloomberg, o acordo foi divulgado antes de ser apresentado em uma reunião do conselho, de acordo com pessoas informadas sobre reuniões recentes.

Nem todos os 10 diretores foram informados antes do anúncio do dia 24 de junho. O episódio ressalta como algumas das principais decisões relativas à Petrobras são tomadas pelo governo em Brasília, com pouca participação do conselho, o que debilita a governança corporativa na maior produtora em águas profundas. No ano passado, os membros do conselho tomaram conhecimento de um aumento no preço do combustível através da mídia, informou a Agência Estado na época.

Com isso, um membro do Conselho disse que considera questionar a companhia na CVM ( Comissão de Valores Mobiliários) por não ter sido informado sobre o acordo. Silvio Sinedino, que representa os funcionários na empresa, disse que o fato de a Petrobras não ter informado o Conselho nem discutido o plano do governo para vender à Petrobras o direito de explorar o petróleo viola as regras e os direitos dos acionistas minoritários da companhia.

Porém, segundo a própria Petrobras, o  Conselho de Administração autorizou, em fevereiro, a diretoria a buscar novas reservas de petróleo e convocou analistas para tentar amenizar o mal estar gerado pela escolha da estatal para ficar com o óleo excedente da cessão onerosa, com antecipação de pagamentos.

"Na reunião do Conselho de fevereiro houve aprovação para que a empresa buscasse novas fontes para explorar petróleo e gás, no plano estratégico até 2030", disse a jornalistas pela manhã a ministra do Planejamento e conselheira da estatal, Miriam Belchior. Vale aguardar para ver os desdobramentos deste impasse entre alguns conselheiros e a companhia. 

4- Haverá novos reajustes de combustíveis?
As ações da Petrobras sofreram no final do ano passado após as expectativas de mudança de metodologia terem sido frustradas. Em novembro passado, a mudança na metodologia foi acompanhada como uma oportunidade para que a empresa mudasse a percepção dos investidores. Contudo, a proposta que seria encaminhada para o conselho de administração da Petrobras ficou pelo caminho - boa parte atribuído à resistência de membros do conselho, que fazem parte do governo.

Mesmo com um anúncio de aumento de preços, no final de novembro, diversas casas de análise revisaram para baixo as estimativas para a companhia, ainda mais por não ter havido sinalização de mudanças em termos de governança corporativa, já que não foi revelada a "fórmula" para os reajustes. Com a pressão de caixa aumentando em meio às novas demandas para a companhia com o acordo de cessão onerosa, associado ainda à elevação do preço do petróleo em meio aos conflitos no Iraque - a Petrobras importa petróleo para atender a demanda interna e, como o preço para trazer a commodity pra cá é maior do que o praticado no Brasil, ela acumula prejuízo - novos reajustes serão demandados para a companhia. A questão é se o governo, pressionado pela inflação ainda resiliente, irá autorizar novos reajustes. 

5- Acabou o rali?
O anúncio da cessão onerosa aumentou ainda mais a queda que as ações da companhia estava tendo após a divulgação da pesquisa Ibope, na quinta-feira (19), que mostrou uma estabilidade nas intenções de voto para Dilma Rousseff.

Apenas na semana passada, os papéis ON caíram 8,60% e os PN, 8,02%, devolvendo parte dos ganhos observados durante os últimos três meses, devido ao rali eleitoral, em meio à queda nas intenções de voto para Dilma.

A queda de Dilma Rousseff leva a uma alta das ações da Petrobras uma vez que os investidores estão mostrando que querem uma mudança no governo. O mercado vê negativamente as intervenções do atual governo em alguns setores da economia e que se reflete principalmente na estatal. Assim, quanto menor a chance da reeleição de Dilma, mais animado o mercado parece ficar.

Porém, o novo acordo levou a um novo baque para a companhia, associado à estabilidade de Dilma nas pesquisas. Será que o rali acabou?

6- A Petrobras será utilizada para salvar o caixa do governo novamente?
Com forte queda nas receitas e sem contar com dividendos bilionários, o governo central registrou déficit primário de R$ 10,502 bilhões em maio, pior resultado para esses meses e que coloca ainda mais em xeque o cumprimento da meta deste ano, de 1,9% do PIB. Com isso, a bolsa brasileira azedou na última sexta-feira.

Neste cenário, o caminho para o cumprimento integral da meta em 2014 ainda é muito longo e complicado. Desta forma, o governo pode buscar alternativas para reforçar o seu caixa, assim como aconteceu com o acordo de cessão onerosa, que deve reforçar o caixa do governo em R$ 2 bilhões neste ano. Será que novos instrumentos para salvar o caixa federal estão por vir? É esperar para ver. 

7 - Custará "só" R$ 15 bilhões mesmo?
Uma reportagem da Reuters também destacou se o acordo custará "somente" R$ 15 bilhões à companhia até o final de 2018. De acordo com a agência, o desembolso  para assegurar a exploração do óleo excedente em áreas do pré-sal, incluindo o bônus de assinatura, pode ficar até 50% acima do valor divulgado por governo federal e estatal, podendo superar os R$ 22 bilhões até 2018. 

Os dispêndios da companhia podem chegar a R$ 22,5 bilhões até 2018 no cenário mais altista de preços do petróleo tipo Brent no mercado internacional traçado por uma agência do governo dos Estados Unidos, e levando em conta as estimativas de câmbio da pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central, segundo cálculos da Reuters. Assim, vale ficar atento para saber se a conta não ficará ainda mais cara para a Petrobras. 

 

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