Eduardo Saverin: o brasileiro que ajudou a fundar o Facebook e se tornou investidor de startups

Saiba mais sobre o jovem bilionário brasileiro que ficou famoso ao enfrentar Mark Zuckerberg na Justiça, em história contada no filme A Rede Social

Nome completo: Eduardo Luiz Saverin
Ocupação: Investidor
Local de Nascimento: São Paulo, SP
Data de Nascimento: 19 de março de 1982
Fortuna: US$ 8 bilhões (março de 2020)

Quem é Eduardo Saverin?

Eduardo Luiz Saverin é um empreendedor e investidor brasileiro que, em parceria com seu colega de quarto Mark Zuckerberg e outros três alunos de Harvard, fundou o Facebook.

Atuando à frente de negócios e como investidor, Saverin ficou mundialmente conhecido após o lançamento de “A Rede Social”, em 2010. O filme conta a conturbada história da criação do Facebook e do relacionamento de Zuckerberg com os outros fundadores da empresa.

No ano seguinte, Saverin voltaria aos holofotes. Pouco antes da abertura de capital do Facebook — que o alçou à lista mundial de bilionários — o brasileiro renunciou à cidadania americana.

A decisão evitou o pagamento de cerca de 15% em impostos sobre ganhos de capital, um valor que, especula-se, tenha ficado entre US$ 100 milhões e US$ 700 milhões com o IPO do Facebook. Saverin fixou residência em Singapura, que não cobra esse tributo.

O empresário sempre negou que o motivo de sua mudança para a Ásia tenha sido fiscal. Em entrevista à revista “Veja”, Saverin disse que “a decisão foi baseada no meu interesse em trabalhar e viver em Singapura”. Ele afirmou que ainda pagaria “centenas de milhões de dólares em impostos ao governo americano. Paguei e continuarei a pagar as taxas devidas sobre tudo o que ganhei enquanto fui cidadão dos Estados Unidos.”

Em 2015, ele fundou a B Capital Group, um fundo de capital de risco, ao lado de outro colega de Harvard, Raj Ganguly.

Família e formação

Eduardo Saverin nasceu em 1982, na cidade de São Paulo. Filho de um casal de brasileiros, o empresário Roberto e a psicóloga Sandra, ele se mudou com a família para Miami, em 1992.

Em entrevista para a “Veja”, Roberto, dono de uma empresa exportadora de remédios, desmentiu que a mudança tenha acontecido porque a família havia entrado em uma lista de possíveis alvos de sequestradores. “Sempre quis morar nos Estados Unidos, era um sonho que decidi alimentar porque o Brasil estava em crise, o Collor tinha congelado a poupança, não estava nada fácil”, disse.

Dinheiro nunca foi problema para Saverin, neto do fundador da marca de roupas infantis Tip Top. A fábrica foi comprada por outra família na década de 1980. Além de muito dinheiro, Dudu, como é chamado pelos pais, herdou o gene do empreendedorismo de seu avô.

Antes de ser aprovado para estudar Economia em Harvard, o garoto concluiu o ensino médio na escola Gulliver, em Miami, mesmo colégio no qual estrelas da música pop como o cantor Enrique Iglesias e empreendedores como o cocriador do Firefox Blake Ross dividiam o pátio.

Aos 13 anos, o garoto já era um exímio enxadrista, chegando a vencer um mestre internacional em Orlando. Um feito tão fora da curva que virou notícia de uma revista da Associação Internacional de Xadrez. Quando estava prestes a dar o xeque-mate, Saverin olhou para a mãe e perguntou: “Acho que vou ganhar, será que vai pegar mal?”.

Na universidade, seu pensamento estratégico lhe ajudou a ser eleito presidente da Associação de Investimentos de Harvard, um clube dedicado a ensinar os alunos da instituição a investir.

Muito antes de fundar a rede social, Saverin começou a ganhar fama como investidor. Uma história nunca confirmada conta que ele, se aproveitando de brechas regulatórias sobre insider trading no Brasil, conseguiu lucrar US$ 300 mil com investimentos em petróleo.

A fundação do Facebook

Esse tino para os negócios — e o bolso cheio — fez com que Mark Zuckerberg, que na época desenvolvia um site para integrar os alunos de Harvard, dividisse com Saverin a ideia do projeto Thefacebook.

Então com 22 anos, Saverin aportou, junto com Zuckerberg, US$ 1 mil e passou a ser o responsável por tornar o negócio rentável.

O primeiro endereço comercial da rede social foi emprestado pelo brasileiro. Ou melhor, por sua família: na correspondência oficial da recém-criada empresa, constava o endereço dos pais de Saverin, em Miami.

A divisão inicial da participação no negócio foi de 70% para Mark, criador e programador, e 30% para Saverin. Com o sucesso da plataforma, outros colegas foram chamados para a equipe: Dustin Moskovitz, Andrew McCollum e Chris Hughes.

Hoje, os cinco compartilham o título de cofundadores da empresa. Eles dividem também os primeiros números de série de perfis na rede. Curiosamente, Zuckerberg é dono do perfil nº 4, porque já havia feito outros três para testes antes de criar sua página pessoal.

Poucos meses após a criação do site, os fundadores decidiram levar a rede social para além de Harvard, abrindo inscrições para outras universidades da chamada Ivy League. Com o crescimento meteórico do site, Zuckerberg decidiu interromper os estudos e se mudar para Palo Alto, na Califórnia.

Saverin preferiu continuar os estudos, se graduando com “com a maior das honras”, o título summa cum laude. Depois, foi para Nova York em busca de parcerias para a rede social.

Mark Zuckerberg projetado em uma tela na Times Square momentos depois da estreia do Facebook na Nasdaq (Crédito: Spencer Platt/ Getty Images)

As desavenças entre Zuckerberg e Saverin

Nesse período, começaram as desavenças entre Saverin e Zuckerberg. A chegada de Sean Parker, um dos fundadores do Napster, à rede social aprofundou ainda mais o desgaste entre a dupla de uma forma que nem a cabeça de enxadrista do brasileiro conseguiu prever.

Ainda no primeiro ano da rede social, Zuckerberg reduziu a participação de Saverin na empresa. Com uma reformulação do estatuto e uma jogada societária, Zuckerberg formou uma empresa para incorporar o Facebook. Era o xeque.

Na mudança, deu um valor menor de ações para Saverin e retirou seu nome do quadro de fundadores. Deu-se o xeque-mate. Pelo menos para Zuckerberg. Para Saverin, o jogo não havia terminado. Como contra-ataque, o brasileiro bloqueou as contas bancárias da companhia.

Em mensagens reveladas pelo site “Business Insider” em maio de 2012, Zuckerberg escreveu na época para seu advogado: “Existe uma maneira de fazer isso sem tornar dolorosamente evidente que ele está sendo diluído a 10%?”

Em outra mensagem tornada pública, Zuckerberg escreveu a outro cofundador do Facebook, Dustin Moskovitz, sobre Saverin: “Ele deveria criar a empresa, obter financiamento e fazer um modelo de negócio. Ele falhou em todos os três… Agora que eu não vou voltar para Harvard, eu não preciso me preocupar em ser espancado por bandidos brasileiros.”

Pouco depois, Saverin conseguiu na Justiça um acordo com antigo sócio que lhe garantiu uma participação minoritária na empresa e o direito de ter seu nome constando novamente entre os fundadores.

Parte da disputa — romantizada e exagerada, segundo Saverin — foi contada em A Rede Social, filme que ganhou três Oscares em 2011.

Atualmente, Saverin trata a polêmica de forma diplomática: “Só posso falar bem do Mark, não tenho ressentimento algum; é admirável o foco dele desde o primeiro dia até hoje — foi um visionário, sempre soube que o Facebook só cresceria se mantivesse a ideia central, a de as pessoas se apresentarem verdadeiramente, sem pseudônimos. É a grande força do Facebook, o que permitiu transformá-lo em um instrumento de protesto, como no Egito, mas também de negócios, além do contato natural com amigos”, disse o brasileiro em 2017.

O fim do sonho americano: renúncia à cidadania

Encerrada a disputa, Saverin começou uma vida nova. Deixou para trás o país em que morava desde a pré-adolescência e escolheu viver em Singapura. Ele teria escolhido o país com o argumento de que “é um lugar ótimo para quem é da área de tecnologia. E está a apenas cinco horas de avião de grande parte da população mundial.”

A história oficial é que o empresário foi à Ásia para ajudar um amigo em um negócio. Na curta estadia, teria reencontrado Elaine Andriejanssen, que havia conhecido durante a faculdade. Apaixonado, resolveu ficar em Singapura e se casar com Andriejanssen.

Os jornais da época, porém, contaram outra versão, recheada de luxo e ostentação, com mesas fixas em boates de elite, contas de bar que chegavam a US$ 50 mil e festas com modelos em um dos apartamentos mais caros do país.

A rotina de playboy internacional sempre foi desmentida pelo brasileiro, mas ganhou os holofotes, e até contornos dramáticos, quando Saverin decidiu renunciar à cidadania americana. Sua ideia, supostamente, seria evitar os 15% de impostos cobrados sobre ganhos de capital nos EUA, uma taxa que não existe em Singapura.

O timing não poderia ser melhor para alimentar essa narrativa. Saverin deixou de ser cidadão americano meses antes do IPO do Facebook, o que teria feito o investidor economizar algumas centenas de milhões de dólares — US$ 700 milhões, segundo uma estimativa do jornal “The Wall Street Journal”. Na época, um porta-voz de Saverin caracterizou esse valor como como “especulativo”.

Segundo dados compilados pela “Bloomberg”, a conta era mais modesta: US$ 255 milhões, cujo pagamento ao Fisco americano poderia ser adiado indefinidamente até Saverin vender suas ações.

Em 2010, o clima nos EUA ainda era de recuperação da crise que abalou o mundo anos antes. Muita gente acreditava que a população mais pobre do país pagou as contas para salvar os negócios de milionários e banqueiros.

Por isso, não pegou nada bem a ideia de que o Saverin tenha vivido o “sonho americano” e dado às costas ao país pouco antes do maior IPO de tecnologia da história.

Na esteira do caso, dois senadores do Partido Democrata americano, Chuck Schumer e Bob Casey, propuseram o Ex-PATRIOT Act. O projeto de lei cobraria um imposto retroativo de 30% para quem desistisse da cidadania com a intenção de driblar impostos. O texto ainda previa que se a Receita Federal americana entendesse que os impostos tiveram peso na decisão da expatriação, o indivíduo seria banido para sempre de entrar nos EUA.

Sob escrutínio público, Saverin defendeu-se lembrando que, como Singapura não reconhece dupla cidadania, ele não poderia ser mais americano para residir no país asiático e reafirmou que sua decisão não teve motivação fiscal.

O investidor afirmou que o objetivo maior para a decisão era estabelecer raízes no país que havia decidido morar. “Pagarei centenas de milhões de dólares em impostos ao governo americano. Paguei e continuarei a pagar as taxas devidas sobre tudo o que ganhei enquanto fui cidadão dos Estados Unidos”, disse Saverin à época.

Seu pai, Roberto, contou que a decisão foi difícil também para resto da família Saverin. Mas disse que o filho “fez isso não exatamente porque quisesse, mas porque não tinha alternativa, vivendo em Singapura. Toda movimentação financeira lá é mais restrita e burocratizada quando se tem o passaporte americano. Não havia outro caminho”.

O projeto de lei dos senadores democratas acabou engavetado no Congresso americano.

David Rubenstein entrevista Eduardo Saverin e Raj Ganguly, co-fundadores da B Capital Group (Reprodução/ Facebook/ B Capital Group)

Outros projetos: a vida pós-Facebook

Depois de deixar os EUA, Eduardo Saverin passou a se dedicar aos seus investimentos. Desde 2015, ele dá expediente exclusivamente no B Capital Group, fundo de capital de risco do qual é cofundador.

A empresa foi fundada em parceria com Rajarshi Ganguly, outro colega de Harvard. Raj, como é conhecido, foi vice-presidente da Bain Capital, e já trabalha na implantação de seu segundo fundo de tecnologia, no valor de US$ 410 milhões.

A dupla trabalha junto desde 2012, quando se reencontrou em Singapura. No fundo, Saverin tem o papel de supervisionar os investimentos no sudeste da Ásia e na Índia, enquanto Ganguly cuida do dia a dia da empresa.

O portfólio é composto por cerca de 25 investimentos relacionados à saúde, logística e comércio exterior, em empresas e startups que ainda não entraram no radar do Vale do Silício.

Hoje, a empresa conta com outros sócios de peso, como Rashmi Gopinath, que foi gestora do M12, fundo de investimento da Microsoft, e Karen Page, ex-diretora da Apple.

Mas, mesmo sendo o primeiro investidor da maior rede social do mundo, Saverin não está necessariamente atrás de outro Facebook.

Em entrevista à “Forbes” sobre o futuro da B Capital, Saverin afirmou que o fundo busca ideias inovadoras que possam atingir o mundo todo: “Não estamos falando das dez maiores empresas de tecnologia do mundo, que vão dominar um mercado por si só, mas da capacitação de todas as empresas do mundo com tecnologia em inovação colaborativa.”

Quem sabe ele acerta de novo?

Para saber mais:

Confira as indicações do InfoMoney para saber mais sobre Eduardo Saverin;

Livros
“O Efeito Facebook” (David Kirkpatrick)
“Bilionários por Acaso” (Ben Mezrich)
“Inside Facebook” (Karel Baloun)

Filmes
“A Rede Social”, filme de 2010