Venda de empresa provoca ajuste de quase -3.000% em cota de fundo do Pátria; entenda o caso

Fontes ouvidas pelo InfoMoney dizem que o FIP foi criado com objetivo de tentar "salvar" a Portfolio Centro Sul, holding que detém vários shoppings

Bruna Furlani

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O Pátria Investimentos chamou a atenção do mercado nesta semana ao publicar um fato relevante informando que as cotas do fundo Pátria Special Opportunities II Fundo de Investimento em Participações (FIP) Multiestratégia sofreram um ajuste negativo de 2.952%. Com isso, o valor da cota passou de R$ 10,56 para R$ -301,05. Porém, é preciso lembrar que o valor inicial era de R$ 1.000, o que representaria uma perda de 130%.

No documento, a companhia alegou que a mudança é reflexo do “desinvestimento integral” da holding Portfolio Centro Sul S.A. e de seus quatro shoppings centers nas cidades de Taubaté (SP), Lages (SC), Varginha (MG) e Bragança Paulista (SP).

Fontes a par do assunto afirmaram ao InfoMoney que o fundo foi criado com objetivo único de tentar “salvar” a Portfolio Centro Sul, que passou por uma série de dificuldades após anos de crise econômica no Brasil e com o fechamento de serviços que não eram essenciais durante a pandemia. O FIP Pátria Special Opportunities é um fundo monoativo que se dedicava a alocar apenas em shoppings centers.

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Segundo elas, o desinvestimento ocorreu por meio do que o mercado chama de “porteira fechada”, em que o fundo vende a participação em uma empresa e o novo proprietário assume todos os ativos, passivos e obrigações da holding e dos shoppings centers.

Nos bastidores, a informação é de que os cotistas já estavam sendo avisados sobre o impacto grande que veriam nas cotas e sobre as consequências de uma tese que tinha “dado errado”, como a gestora defendia em reuniões internas.

Segundo as fontes ouvidas pelo InfoMoney, o Pátria teria admitido que os maiores problemas envolviam a parte operacional e a estrutura de capital da Portfolio Centro Sul. Segundo elas, os empreendimentos foram construídos antes da crise de 2016, mas demoraram muito para maturar com a recessão e a pandemia.

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Outro fator que atrapalhou é que havia uma expectativa de que o financiamento da estrutura de capital dos shoppings ocorresse por meio de linhas de financiamento subsidiada, o que não ocorreu devido ao cenário local da época.

Segundo informações disponíveis nas demonstrações financeiras do fundo, o produto possuía 2.066 ações ordinárias da Portfolio Centro Sul em dezembro de 2022 – o que representava cerca de 41% do capital subscrito da companhia. Os documentos, porém, não informam o percentual que a alocação representava em relação ao patrimônio líquido do fundo.

Em um trecho do documento enviado pela EY, auditoria independente, no fim do ano passado, fica claro que a companhia passava por problemas.

No relatório, o auditor afirma que, como a Portfolio Centro Sul Participações não possuía imóveis a serem avaliados para a composição do ativo e determinação do valor justo da empresa, a empresa teve que considerar os seus ativos líquidos. “Ensejando um valor justo para o fundo de R$ 0 em 31 de dezembro de 2022”, observou a EY.

Os problemas com a Portfolio Centro Sul trouxeram fortes perdas para o produto, que acumulou rentabilidades negativas de -97,32% em 2022 e de -53,31% em 2021, segundo relatório apresentado nas demonstrações financeiras. A reportagem procurou o Pátria Investimentos, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

Desenquadramento do produto, segundo EY

O relatório apresentado pela EY também destaca que as demonstrações financeiras representavam, de forma adequada, a posição patrimonial e a financeira do fundo, mas fez uma observação sobre o desenquadramento do produto.

Segundo a auditoria, o fundo não possuía investimentos em ações de companhias fechadas em 31 de dezembro de 2022, o que estaria em desacordo com o art. 11° da CVM n° 578/16.

A razão é que um fundo de investimento em participações (FIP) deve aplicar, no mínimo, 90% dos seus recursos em ações. “Nossa opinião não contém ressalvas quanto ao assunto”, ressaltou a EY ao falar sobre desenquadramento.

Apesar disso, fontes a par do assunto destacam que os 90% devem ser somados a valores destinados ao pagamento de despesas do fundo – desde que limitados a 5% do capital subscrito do fundo, o que era o caso do Pátria Special Opportunities II Fundo de Investimento em Participações (FIP) Multiestratégia.