Reflexos do conflito

Recibo de ETF russo, BERU39 despenca 70% no ano e negociações são suspensas na B3

Papel reproduz um dos principais fundos de índices de ações da Rússia, o ERUS, negociado – e também suspenso – na Bolsa de Nova York

Por  Katherine Rivas -

Um dos principais fundos de índices (ETF, sigla em inglês para Exchange Traded Fund) de ações russas está derretendo nos mercados internacionais – e o mesmo acontece com seu “espelho” disponível no mercado brasileiro.

O ETF original é o iShares MSCI Russia, mais conhecido como ERUS, seu código de negociação na Bolsa de Nova York (Nyse). Ele replica a composição do índice MSCI Russia 25/50 Index, que reúne as principais empresas russas em capitalização de mercado – são 31, principalmente do setor de energia.

Já na B3, é possível encontrar um BDR – recibo de ativos negociados em bolsas estrangeiras e listado no mercado local – que reproduz o ERUS. Trata-se do BERU39.

Nos últimos dias, em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia e às sanções impostas à Rússia, o ERUS acumulou forte desvalorização. Por consequência, os BDRs BERU39 listados na B3 também recuaram. Só na quinta-feira (3), a queda foi de 28,2%. Na quarta (1), havia sido de 22,8%. No ano, a queda acumulada é de 70.05%, segundo levantamento da Economatica Brasil para o InfoMoney.

Ao mesmo tempo, o volume de negociação com o papel disparou – ainda que, pondere-se, o BERU39 não esteja entre os BDRs de ETFs mais negociados na Bolsa. Nos três primeiros dias de março, as negociações somaram R$ 3,234 milhões – mais do que os R$ 2,040 milhões registrados durante o mês de fevereiro inteiro, de acordo com a Economatica.

Nesta sexta-feira (4), a B3 anunciou a suspensão das negociações com o BERU39, seguindo a suspensão temporária estabelecida pela Bolsa de Nova York ao ERUS nesta madrugada. Segundo a B3, “o livro estará fechado para as operações de emissão e cancelamento a partir de 04/03/2022, bem como a respectiva suspensão das negociações deste programa no mercado secundário”.

Segundo levantamento feito por Hugo Daniel Azevedo, sócio da FIT Investimentos, a pedido do InfoMoney, desde o dia 28 de setembro de 2021 – data em que o BDR BERU39 começou a ser negociado na B3 – até o fechamento de quinta-feira (3), o BERU39 acumula perdas de 61,41% em reais. O ERUS, por sua vez, recua 78,48% (considerando a cotação também em reais). Em dólar, a queda do ERUS foi de 77,26% no mesmo período, enquanto a do BERU39 chegou a 59,22%.

A bolsa russa está fechada desde a última semana e, segundo informou nesta sexta-feira (4), assim permanecerá até a próxima. Com isso, é nos mercados internacionais – como na Bolsa de Londres, onde ações russas listadas chegaram a perder mais de 90% do valor, de acordo com a Bloomberg – que os investidores têm expressado tensão com os rumos da invasão à Ucrânia.

Na Nyse, as cotações do ERUS até ontem refletem esse clima – e a ele se somam ainda problemas específicos. Na quarta (1), a gestora BlackRock, responsável pelo ETF, anunciou que suspenderia a criação de novas ações do ERUS. Na prática, significa que o processo pelo qual dinheiro novo entrava no ETF foi limitado.

A gestora advertiu, em comunicado à imprensa, que o ERUS corria o risco de experimentar um “tracking error”, termo utilizado para apontar a diferença de desempenho entre o ETF e o índice que ele replica.

Rodrigo Crespi, analista da Guide Investimentos, explica que isso pode acontecer exatamente pelo fechamento da bolsa russa. Por causa dessa situação, as empresas russas presentes no índice estão sem negociação. Em consequência, o ERUS – e consequentemente, o BERU39 – pode acabar se distanciando do índice MSCI Russia 25/50, com distorções que no futuro podem prejudicar os investidores.

Em movimento especulativo, há quem compre BERU39

Com o recuo da cotação, o BERU39 se tornou assunto nas redes sociais mais frequentadas por investidores, como Twitter. Antes da suspensão dos negócios, alguns pareciam acreditar que comprar o BDR poderia ser uma forma de capturar ganhos futuros, enquanto outros alertavam para os riscos – que, com a suspensão, afinal começaram a se concretizar.

Especialistas consultados pelo InfoMoney apontaram para vários riscos que estavam sendo ignoradas pelos investidores. Crespi, da Guide, comenta que o movimento comprador do BERU39 é 100% especulativo, com alguns investidores acreditando em uma potencial trégua no curto prazo e na retomada do índice russo.

Segundo Crespi, este seria um movimento bastante improvável, dado que as sanções impostas ao país já precificam uma queda significativa do PIB, que não deve voltar tão cedo.

Felipe Paletta, analista e sócio-fundador da Monett, também compartilha esta visão e defende que mesmo se as sanções forem retiradas, o fluxo de negócios com empresas russas não seria retomado rapidamente. “Empresas têm uma imagem a zelar e vão retomar isso na medida que os países respondem a esta disputa”, avalia.

Além disso, os BDRs BERU39 vinham sendo negociados com prêmio sobre as cotas do ERUS, segundo Paletta. No fechamento de quinta-feira (3), o ERUS estava cotado a US$ 8,06, ou R$ 40,526, considerando o câmbio de R$ 5,028 no mesmo dia.

Dada a paridade de um para quatro, o valor do BDR BERU39 deveria ser de R$ 10,13. Contudo, o ativo fechou cotado em R$ 17,95 na quinta. Isso significa que o investidor pagou um valor 77% maior em reais. Segundo Paletta, considerando o histórico de BERU39, o investidor brasileiro sempre pagou um valor maior e discrepante da paridade.

Há, ainda, outras movimentações acontecendo no mercado financeiro em relação aos ativos russos. Na quinta-feira (3), o Morgan Stanley Capital International (MSCI), que administra alguns dos índices globais mais importantes, anunciou a retirada da Rússia da composição de seu índice de mercados emergentes. A decisão foi tomada após ouvir grandes investidores institucionais mundo afora.

Para a MSCI, a Rússia passou a ser considerada um mercado standalone, ou “mercado autônomo”. Os índices MSCI Standalone Market não estão incluídos no MSCI Emerging Markets Index ou no MSCI Frontier Markets Index, o que significa que perdem bilhões de dólares de investimento provenientes de fundos passivos que replicam os índices. A medida passa a valer a partir do dia 9 de março.

Com a Rússia sendo retirada dos índices emergentes, a situação complica ainda mais para o ERUS e para o BERU39. Crespi explica que pode ocorrer uma força vendedora de ativos russos, por parte dos investidores, refletindo ainda mais na queda das cotas do ETF, além das empresas russas que compõem o índice apresentando fortes baixas.

O movimento pode gerar também uma inversão de fluxo, com os alocadores de recursos migrando para outros emergentes como Brasil.

Os analistas também lembram do problema da liquidez. Por se tratar de um recibo de um ETF estrangeiro, o BERU39 tem uma liquidez muito inferior à do ERUS. Isso dificultaria ainda mais o processo de resgate do dinheiro caso o investidor decida vender as cotas.

Eles também citam o risco das empresas russas negociadas no índice deixarem de ter capital aberto – ou mesmo de existir. Desta forma, o ERUS se inviabilizaria, e quem possui o BERU39 no Brasil também poderia não conseguir resgatar os recursos.

O que exatamente é o BERU39?

O BERU39 é um BDR que replica o ETF iShares MSCI Russia, conhecido como ERUS – que, por sua vez, acompanha o índice MSCI Russia 25/50, reunindo as principais empresas russas. Ao comprar o BERU39, o investidor investe indiretamente no ERUS, sem precisar abrir uma conta no exterior.

A cesta de ativos do índice MSCI Russia 25/50 reúne 31 ações de empresas russas de oito setores. Entre os principais segmentos estão energia (51,94%), materiais (24,34%), financeiro (15,62%) e comunicações (3,99%).

Olhando para a cesta de ativos no dia 3 de março, as cinco empresas com maior peso eram Gazprom (GAZP), do segmento energia, com 22,40%, seguida por NK Lukoil (LKOH), do mesmo setor, com 16,92% de participação.

Há ainda Sberbank Rossii (SBER), GMK Norilsky Nikel (GMKN) e Tatneft (TATN), com participação de 9,42%, 7,39% e 5,05%, respectivamente.

No Brasil, o BERU39 tem paridade de um para quatro com o ERUS. Desta forma, cada cota de ERUS corresponde a quatro BDRs BERU39.

Segundo a B3, ele é destinado a investidores qualificados. O custodiante do BERU39, que emitiu os BDRs no Brasil, é o Banco B3. Segundo o boletim mensal de BDRs de ETFs da B3, o BERU39 tinha um estoque de R$ 5,631 milhões em janeiro de 2022.

Pode haver fluxo para o Brasil?

Especialistas consultados pelo InfoMoney dizem que não faz sentido negociar Rússia neste momento.

Roberto Attuch, da Ohm Research, explica que a Rússia entrou na categoria de non-investable ao ser excluída de todos os índices. “Com essa asfixia financeira colocada sobre a Rússia, ela se torna um mercado na qual você não consegue mais investir”, aponta.

Para Attuch é hora do retorno da velha economia, com investidores procurando países emergentes tradicionais, cenário onde o Brasil pode se tornar o mercado do ano. “Mesmo antes da guerra, mercados como Brasil, Chile e Peru já estavam indo muito bem”, diz.

Ele recomenda aos investidores ativos como commodities, que, em função das rupturas nas cadeias de produção geradas pela guerra, devem acelerar os preços. “É hora de comprar ativos reais”, aponta.

Crespi, da Guide, compartilha desta visão. Para ele é bom ficar longe dos ETFs russos e optar, por exemplo, por ETFs com exposição forte a commodities. Ele recomenda, por exemplo, o ETF BTG Pactual Teva Ações Commodities Brasil (CMDB11), que reúne uma cesta de ativos formada por 31 ações dos setores de papel e celulose, mineração, siderurgia, óleo, gás, proteína animal, soja, entre outros.

O analista da Guide também acredita que ETFs internacionais como o IVVB11 – que acompanha o desempenho do índice S&P 500 e está bastante descontado – podem ter bom desempenho nas próximas semanas.

Para Paletta, da Monett, a melhor aposta neste conflito é comprar ativos do Brasil, aproveitando o fluxo maior para mercados emergentes com a retirada da Rússia dos índices.

Ele recomenda exposição It Now IMAT Fundo de Índice (MATB11), que reúne na sua cesta de ativos 17 ações de setores como papel e celulose, mineração, siderurgia, petroquímicos entre outros.

Paletta também destaca o BOVV11, ETF que replica o desempenho do índice Ibovespa, como oportunidade. Para quem busca se expor a mercados emergentes, ele cita o BDR de ETF BEEM39 que acompanha o ETF iShares MSCI Emerging Markets (EEM).

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