Onda de resgates recorde: fundos perdem R$ 162,9 bi com saques em 2022, maior valor em 20 anos

No ano passado, fundos de ações e multimercados também apresentaram as maiores saídas líquidas da série histórica

Bruna Furlani

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O término de 2022 deixou um sabor amargo com a sangria que afetou a indústria de fundos de investimentos local. A razão é que os resgates líquidos (depósitos menos saques) alcançaram R$ 162,9 bilhões em 2022, maior montante desde o início da série histórica da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que data de 2002.

Os saques se seguiram a um ano de recorde positivo: em 2021, as captações líquidas de fundos de investimento chegaram a R$ 412,5 bilhões.

Na avaliação de Pedro Rudge, vice-presidente da Anbima, alguns fatores podem ter ajudado a provocar essa sangria nos fundos. A competição com os títulos de renda fixa isentos, o ambiente de inflação mais alta, a queda da renda disponível e eventuais gastos de fim de ano são alguns dos pontos citados pelo especialista.

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“Para eu manter o meu padrão de vida, estou tendo que gastar mais dinheiro. Sobra menos para eu poupar”, alerta Rudge.

Para o vice-presidente da Anbima, é difícil precisar quando esse movimento de saída dos fundos deve cessar, mas ele acredita que é preciso que haja maior previsibilidade do que vai ser a solução em torno do equilíbrio fiscal para que esse fluxo melhore.

“Tendo um horizonte mais claro e uma visibilidade mais certa, o investidor poderia ter um movimento diferente do que está tendo nos últimos meses”, destaca o executivo.

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Fundos multimercados lideram resgates

No ano passado, o maior volume de saques líquidos ocorreu em fundos multimercados, que fecharam 2022 com uma captação negativa de R$ 87,6 bilhões, recorde para a categoria.

Nem mesmo retornos elevados conseguiram manter o fluxo positivo para multimercados. Levantamento feito pelo InfoMoney com base em dados da plataforma Economatica mostra que o ganho máximo alcançado por fundos multimercados chegou a 42,87% em 2022. Tal rentabilidade foi oferecida pelo Exploritas Alpha América Latina FIC FIM, da Exploritas, que entra na classificação de multimercado livre da Anbima. Esse foi o melhor resultado anual já oferecido pelo fundo desde o seu começo em 2014.

O levantamento levou em conta veículos não exclusivos, com gestão ativa, patrimônio líquido médio superior a R$ 100 milhões em 12 meses e mais de 99 cotistas no fim de dezembro. Foram excluídos fundos de crédito privado.

Nem os que lucraram tiveram vez

Fundos do tipo macro, que alocam em juros, Bolsa e câmbio, e que terminaram o ano com o segundo melhor retorno médio, de 16,99%, também não conseguiram escapar da onda de saques.

Em 2022, os resgates líquidos de fundos multimercados do tipo macro somaram R$ 7,0 bilhões – a terceira maior subcategoria em termos de saída perdendo apenas para multimercados do tipo livre e multimercados estratégia específica.

É preciso ponderar, porém, que multimercados macro podem ser cadastrados na base de dados da Anbima como multimercados do tipo livre (que adotam estratégias variadas).

Em relatório, Nathália de Sá, Clara Sodré e Rodrigo Sgavioli, da XP, afirmam que o comportamentos de saques dos investidores é reflexo das incertezas em relação a ativos de risco, que foi impulsionada pelo aperto monetário realizado pelo Banco Central.

A expectativa de manutenção da taxa de juros de juros em patamar elevado deixa a renda fixa mais atrativa. Economistas consultados pelo Banco Central no Relatório Focus esperam que a Selic termine este ano em 12,25%, recue para 9,00% em 2024 e encerre 2025 em 8,00%.

Apesar do ano amargo para a indústria de multimercados em termos de captação, os três profissionais da XP destacam que seguem acreditando na gestão ativa para composição de uma carteira eficiente e que tais fundos podem voltar a brilhar agora.

“Acreditamos que para navegar no ambiente de alta volatilidade, a flexibilidade de atuação e a descorrelação dos fundos multimercados pode seguir agregando de forma positiva no portfólio”, acrescentaram.

Nesse sentido, a sugestão de profissionais ouvidos pelo InfoMoney tem sido por mesclar estratégias com posições em fundos multimercados dos tipos macro e quantitativos, além de long and short – em que o gestor monta posições comprando um ativo (long) e vendendo outro (short), para lucrar com o desempenho relativo entre eles.

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Perdas em fundos de ações e de renda fixa

O cenário também foi delicado para fundos de ações e até de renda fixa, que amargaram o segundo e o terceiro maior volume de saques líquidos de 2022.

No primeiro caso, as captações foram negativas em R$ 70,5 bilhões, enquanto fundos de renda fixa registraram saídas líquidas de R$ 48,9 bilhões. Os resgates de fundos de ação também são o maior para um ano desde o começo da série histórica da Anbima.

Entre fundos de ações, os retornos médios para as mais variadas classes foram negativos em sua maioria. A maior queda foi registrada por produtos do tipo setoriais, que amargaram perdas de 27,46% no ano passado.

Para os especialistas da XP, o ano de 2022 foi desafiador para a gestão ativa dentro do mercado acionário. “Alguns gestores que possuem teses de crescimento em seu portfólio tiveram uma das piores performances históricas no ano de 2022”.

Caso do Western Asset FIA BDR Nivel I, que encerrou o ano passado com perdas de 37,33%, por exemplo. Esse foi o pior retorno já oferecido pelo fundo desde a sua criação, em maio de 2014. A queda na rentabilidade foi acompanhada pela perda de cotistas. No fim de dezembro de 2022, havia 85,6 mil cotistas, número bem menor do que os 151,3 mil registrados no fim de 2021.

Levantamento feito pelo InfoMoney com base em dados da Economatica mostra que o produto é o quarto na lista de fundos de ações com maior quantidade de cotistas – atrás apenas do fundo Bradesco FIC FIA e de dois fundos de ações da Itaú Asset Management.

O estudo levou em conta veículos não exclusivos, com gestão ativa, patrimônio líquido médio superior a R$ 100 milhões em 12 meses e mais de 99 cotistas no fim de dezembro. Foram excluídos fundos setoriais e monoações.

Uma das explicações para o mau desempenho de fundos de ações em 2022 pode estar no fato de que papéis de crescimento costumam ser mais sensíveis à alta de juros, porque o aumento da taxa de desconto impacta negativamente no preço das ações. No caso do fundo da Western Asset, 40% do fundo estava alocado em papéis de tecnologia, que são considerados de crescimento, em dezembro de 2022, segundo a lâmina do produto.

No ano passado, posições em ações de educação, saúde e varejo foram as que apresentaram os piores retornos, segundo os especialistas da XP. Por outro lado, eles afirmam que papéis ligados a óleo e gás, concessões públicas e setor financeiro ficaram entre as ações com melhor desempenho no período.

Já ao comentar sobre a saída dos fundos de renda fixa, Rudge, da Anbima, destaca que a associação acredita que parte do dinheiro está indo para títulos de renda fixa isentos, como Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). “Esses títulos também ganham atratividade com a taxa de juros elevada”, afirma.

Segundo dados da associação, o estoque de LCAs, por exemplo, saltou de R$ 202,5 milhões, em janeiro de 2022, para R$ 328,0 milhões, em novembro de 2022. Tais títulos lideraram o volume de estoques em relação a outros ativos isentos em 2022, como Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e do Agronegócio (CRAs).

Fundos cambiais, ETFs e de previdência escapam dos resgates

Na contramão de produtos com foco em ações e renda fixa, fundos cambiais, ETFs (fundos de índice) e produtos de previdência conseguiram terminar 2022 com captações positivas.

No primeiro caso, os depósitos líquidos somaram R$ 178,5 milhões. Já ETFs e fundos de previdência viram entradas líquidas de R$ 366,3 milhões e de R$ 13,0 bilhões, respectivamente.

Fundos de Investimento em Participações (FIPs) e produtos que alocam em direito creditório (FIDCs) também escaparam da onda de saques e fecharam o ano com captações líquidas de R$ 17,8 bilhões e de R$ 12,7 bilhões, nessa ordem.

De acordo com Anbima, a captação positiva dos FIDCs foi bastante ajudada por um movimento concentrado de R$ 27,9 bilhões em um fundo do tipo agro, indústria e comércio.

Diante da recente possibilidade de que investidores de varejo consigam alocar em FIDCs, a expectativa de analistas é de que as captações sigam em ritmo elevado em 2023.

A alocação será possível porque, no fim de 2022, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) anunciou mudanças na regra geral de fundos de investimento com a chegada da instrução CVM 175 – que entrará em vigor no dia 3 de abril de 2023.

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Na prática, a regra vai abarcar – de forma mais ampla – os fundos de investimentos e transformar em anexos a instrução CVM 555, que trata sobre fundos de investimento em geral, e a instrução CVM 356, que aborda especificamente os fundos que aplicam em direito creditório (FIDCs).

No caso da última, a grande alteração está no fato de que investidores de varejo poderão alocar em FIDCs. Atualmente, a exposição a fundos do tipo só é permitida para investidores qualificados, na maior parte dos casos, e para profissionais (com mais de R$ 10 milhões em aplicações financeiras), no caso de FIDCs não padronizados.

Agenda da Anbima em 2023

De olho nas mudanças propostas pela CVM em dezembro, Rudge, da Anbima, destaca que a alteração não deve impactar tanto no curto prazo, mas sim no médio e longo prazos.

O executivo afirma que a nova regra vai ajudar a melhorar a qualidade e também oferecer maior flexibilidade a fundos. Para exemplificar, ele cita o trecho que trata sobre a responsabilidade dos cotistas.

Segundo a nova norma, se o patrimônio líquido do fundo, porventura, ficar no negativo, o investidor não será mais obrigado a fazer aportes adicionais, como ocorre hoje. Ou seja, o conceito ficaria parecido com o investimento em sociedades, em que a exposição do investidor, como regra geral, está limitada ao capital subscrito.

Nesse sentido, Rudge acredita que fundos mais agressivos e mais especializados poderiam ganhar uma atratividade e uma demanda maiores do que há hoje.

Também como parte da agenda deste ano, a associação disse que está monitorando as discussões em torno dos impactos das Moedas Digitais de Bancos Centrais, ou CBDC, na sigla em inglês. O Brasil tem se mostrado à frente das principais potências globais neste segmento.

Já ao ser questionado sobre a marcação a mercado em mais ativos de renda fixa, que passou a valer a partir da última segunda-feira (2), Rudge destacou que a medida é benéfica ao trazer um “entendimento melhor” dos ativos.

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“O investidor vai entender como que está variando o investimento dele”, diz. “Se ele precisar se desfazer, ele consegue ver o preço de mercado”, defende o executivo da Anbima.

Na prática, a marcação a mercado vai permitir que investidores pessoa física consigam acompanhar, dia a dia, quanto vale o patrimônio que adquiriram. Isso porque esse processo nada mais é do que a atualização do valor desses papéis segundo os preços pelos quais estão sendo negociados no mercado.