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Fundos Quantitativos: conheça os gestores que ganham com a volatilidade do mercado

Fundos quantitativos são ofertados como instrumento de diversificação da carteira e tendem a performar bem em momentos de maior turbulência para o mercado

Robôs
(Shutterstock)

SÃO PAULO – Você está preparado para perder dinheiro? Já pensou no que poderá acontecer com seu patrimônio se a tão aguardada reforma da Previdência não passar? E se a guerra comercial entre Estados Unidos e China se acirrar? Ou, então, se o Fed, o banco central americano, decidir subir os juros, desviando ainda mais a atenção dos investidores globais de mercados emergentes?

Esses são apenas alguns dos acontecimentos que podem mexer com o rendimento das aplicações financeiras. É impossível prever se, e quando, eles vão ocorrer, mas dá para se proteger de seus efeitos. O investidor pode evitar que eventos assim tenham impacto sobre toda a sua carteira aplicando uma parte do patrimônio em ativos descorrelacionados com o desempenho do mercado.

A ideia é que esses produtos consigam conter as perdas da sua carteira em momentos de estresse, ainda que possam não acompanhar a toada positiva quando a maior parte do mercado estiver em trajetória ascendente.

Um produto que pode servir a esse propósito são os fundos quantitativos. Neles, as estratégias de investimento são executadas via algoritmos, ou seja, os gestores contam com a tecnologia para implementar uma gestão automatizada para explorar padrões de comportamento e ineficiências do mercado.

A ideia para a criação do modelo parte de uma equipe de análise, mas a proposta é que os fundos apliquem a gestão sem interferência humana, depois de comprovar a hipótese de investimento por meio de “backtesting” (na prática, um teste da efetividade da estratégia para ver se ela seria lucrativa).

São poucos os fundos 100% quantitativos no Brasil e eles sequer têm uma categoria própria, sendo enquadrados dentre os multimercados, com liberdade para operar em bolsa, câmbio e juros, inclusive fora do Brasil.

O mercado conta hoje essencialmente com três gestoras que atuam integralmente com os chamados “fundos quanti”, como são apelidados: a Giant Steps (ex-Visia Investimentos), a Murano e a Kadima.

A volatilidade é um fator imprescindível para esses fundos, o que ajuda parte das carteiras a performar bem em momentos de maior turbulência para o mercado. O fato de os quantitativos serem descorrelacionados dos fundos multimercados tradicionais os coloca como parte importante de uma diversificação na carteira do investidor.

Quem são as gestoras de fundos quanti?

Gestora mais antiga desse mercado, a Kadima foi lançada em 2007, seguida de perto pela Murano, criada em 2008. Com alguns anos de atraso, surgiu a Visia, hoje Giant Steps, que iniciou as operações em 2012. As três casas têm operações enxutas, com não mais de 17 pessoas, e prezam por operações 100% independentes.

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“A gestão quantitativa utiliza tecnologia e matemática estatística para ajudar na gestão, é diferente de feeling ou algo em que o gestor acredita. É um processo diferente dos outros fundos, mas com o mesmo objetivo: gerar o melhor resultado para o investidor”, diz Rodrigo Terni, da Giant Steps.

Não pense que os robôs fazem tudo sozinhos. Há pessoas por trás da criação dos algoritmos, que se utilizam de matemática estatística e tecnologia como ferramentas. “Trabalho educativo e tempo são os ingredientes responsáveis pela captação de um fundo como o nosso”, diz Sérgio Blank, um dos fundadores da Kadima.

Momentos emblemáticos, como a crise mundial de 2008, foram determinantes para comprovar a eficiência dos fundos da casa, assim como o memorável “Joesley day”, em maio de 2017, quando o Ibovespa despencou 8,8%.

“Ainda que esse tipo de evento seja raro, quando você tem um histórico muito grande e esses eventos se repetem com alguma frequência, acaba gerando maior confiança dos investidores”, diz Blank.

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Todos os fundos da Kadima usam a estratégia quantitativa, mas podem ter benchmark diferentes, em função de quais modelos matemáticos (como tendências, arbitragem, ações e long & short) são selecionados. O conjunto mais completo está na família de fundos “Flagship” e no multimercado “High vol”.

Perda como aprendizado

Fundo mais conhecido da Giant Steps, o Zarathustra acumula ganhos de 113% nos últimos cinco anos até 30 de abril, ante variação de 65,41% do CDI no mesmo período.

O “Joesley day”, entretanto, foi um dia que provocou mudanças para a casa, com uma expressiva perda da ordem dos 18% pelo fundo no pregão de 18 de maio. “O mercado já abriu no dia seguinte com um gap de preços enorme e sem liquidez. No outro dia, quando o mercado normalizou, pudemos retomar a operação normal no fundo. Apesar de grande, a perda estava dentro do nível de risco e serviu como um verdadeiro stress test”, afirma Terni.

A partir daquele dia, a gestora desenvolveu um modelo de hedge usando opções para proteger o fundo de momentos de altíssima volatilidade, passou a operar offshore e diminuiu os modelos de juros, nos quais ficou concentrado o problema de liquidez. Atualmente, o Zarathustra é desenhado para não sofrer uma perda superior a 10% em um único dia, e teve êxito durante a greve dos caminhoneiros, em 2018.

A Giant Steps começou com quatro modelos e tem hoje 18 em operação. “Como qualquer fundo em qualquer gestora, é preciso se reinventar o tempo todo, então precisamos de novas pessoas e novas ideias com frequência”, observa Terni.

Blank, da Kadima, endossa. “O sonho de uma gestora quanti é descobrir um modelo que funcione para sempre, mas está longe de ser realidade, porque os mercados mudam e corrigem a ineficiência. A velocidade com que é necessário reverter posição e o tamanho do stop têm de ser dinamicamente ajustados ao longo do tempo. Boa parte dos modelos são resilientes, mas na sua ideia principal.”

Na Giant Steps, são duas famílias de fundos: Axis e Sigma. A primeira tem modelos com foco em retorno. O fundo tem poucas oportunidades que rendem muito dinheiro, indica Terni. Já a segunda família tem maior foco em diversificação e busca ter um pouco de retorno o tempo todo.

Com volatilidade de 15%, o Zarathrustra passa longos períodos de lado e tem pequenos intervalos de muito ganho. Já o fundo Sigma sempre ganha um “pouquinho” e, se o mercado for muito mal, perde pouco. São praticamente estratégias opostas, segundo o sócio da gestora.

Os fundos quanti se encaixam numa estratégia de diversificação dos portfólios e têm uma eficiência comprovada em momentos de estresse do mercado. Mesmo os fundos “tradicionais”, com gestão feita inteiramente por pessoas, têm recorrido a modelos matemáticos em pelo menos uma parte da gestão.

“A questão agora não é se você é quanti, mas o quanto usa [do modelo]. Se usa parte de dados ou inteligência de indicadores, ou se é uma gestão como um todo, até com um processo de decisão quantitativo, como no nosso caso”, afirma Terni. Para o gestor, sem usar nada de estatística, tecnologia e matemática, fica difícil sobreviver hoje. 

“A beleza do nosso negócio é não interferir, assim a gente não bota o nosso viés. O maior valor está no nosso viés não humano”, diz Christiano Pereira, sócio e fundador da Murano. Ele conta que a gestora opera todos os ativos líquidos no Brasil e também no exterior (basicamente nos Estados Unidos e no Canadá e, em breve, na Europa).

Os principais temas do fundo são o “seguidor de tendência” e “reversão a média”, e a gestora conta com inteligência artificial para a confirmação ou não do trade.

Em busca de risco

No cenário atual, com os juros em tendência de baixa, o investidor precisa estar preparado para momentos de mais extremos para conseguir retornos mais expressivos. “A pessoa física não está acostumada a perdas. O investidor vai ter que aprender a buscar fundos com mais volatilidade, mais riscos”, aponta Pereira, que defende os fundos quantitativos como instrumento de diversificação de portfólio.

Segundo ele, a correlação média entre os fundos multimercados (excluídos os do tipo “long bias”) nunca esteve tão alta. “Quando as coisas derem errado, você vai perder [dinheiro] em todos. E vai perder muito.”

O grande desafio dos fundos quantitativos (mas não só deles) esbarra justamente no seu crescimento, já que a execução das ordens é totalmente automatizada.

“Fundos quanti em geral são mais de curto prazo que fundos tradicionais. Por isso, executam [as ordens] com frequência mais alta que um multimercado e, quando você cresce de tamanho, precisa executar as ordem mais rapidamente que um fundo tradicional, causando impacto de mercado. Muitas estratégias ganhadoras viram perdedoras”, assinala Pereira, da Murano.

Popularização

A partir da distribuição dos fundos em plataforma, os quantitativos passaram a ser acessados por um público mais amplo de investidores pessoas físicas, mas a popularização ainda está longe de ter acontecido.

“Temos sentido um aumento da alocação dos fundos quanti muito mais por um esforço do nosso lado”, diz Daniel Bonaldi, sócio cofundador do escritório Vero Investimentos.

Segundo ele, investidores com perfil moderado já chegam a ter uma alocação entre 2% e 7% do portfólio em fundos quantitativos. “Damos total preferência para casas sem interferência humana na gestão e 100% pilotadas por algoritmos”, diz Bonaldi, que ressalta que a falta de diversidade no segmento limita a exposição.

E a própria volatilidade dos fundos precisa ser observada, para que o investidor em questão tenha condições de lidar com diferentes níveis de risco.

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