Crise afasta investidores e afeta corretoras; o que acontece se a sua quebrar?

"A corretora de valores é uma empresa e, como tal, pode acabar quebrando", afirma especialista em finanças

Diego Lazzaris Borges

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SÃO PAULO – O ano tem sido difícil para os investidores que operam no mercado de renda variável. Com um cenário externo pessimista e muitas incertezas no radar, muitos têm preferido a segurança da renda fixa, ainda mais atrativa por conta do aumento na taxa básica de juros este ano.

Com isso, o volume de negócios na BM&FBovespa caiu por três meses seguidos, entre maio e julho. Em agosto, o volume voltou a subir, mas os investidores também venderam mais, assustados com os desdobramentos da crise nos Estados Unidos e na Europa, principalmente depois do corte de rating dos títulos públicos norte-americanos, efetuado pela agência de classificação de riscos Standart&Poor’s.

Com o afastamento dos investidores, muitas corretoras também estão vendo as suas receitas minguarem e algumas passam por dificuldades para conseguirem manter a sua estrutura de serviços. “As corretoras acabam sendo afetadas como consequência desta crise”, afirma o diretor-superintendente da Ancord (Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários), José David Martins Júnior.

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Segundo ele, tanto as corretoras maiores quanto as menores sofrem com a diminuição dos negócios, apesar daquelas que têm uma estrutura menor (e, consequentemente, menos dinheiro) sentirem impacto maior. “Todas as corretoras são afetadas na proporcionalidade da sua participação do mercado”, diz Martins Júnior. “Lógico que algumas têm mais folego e conseguem passar de uma forma melhor pela crise”, completa.

E se a corretora quebrar?
Mas e se a corretora não resistir a uma diminuição de receitas e acabar tendo de encerrar as atividades? “A corretora de valores é uma empresa e, como tal, pode acabar quebrando”, afirma o especialista da MoneyFit, Antonio De Julio.

Entretanto, ele acrescenta que, neste caso, o investidor que comprou ações por meio daquela corretora não deve se preocupar. “As ações ficam sob a custódia da CBLC (Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia) e não da corretora”, diz.

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O especialista lembra que o investidor detém uma parte do capital social da empresa da qual é acionista e que a corretora faz apenas o intermédio da operação de compra e venda dos ativos. “Você é sócio da empresa, é o dono da ação. Na verdade você tem uma conta na CBLC, a corretora só faz o ‘meio de campo’”, ressalta.

O superintendente da Ancord acrescenta. “No caso da corretora quebrar, há uma intervenção pelo Banco Central e CVM (Comissão de Valores Mobiliários)”, diz. “Mas o investidor não é afetado. É diferente da quebra de um banco onde você é correntista, por exemplo”, afirma Martins Júnior.

Saldo na conta da corretora
Já se o investidor possuir algum saldo na conta da corretora,  corre o risco de ficar no prejuízo em caso de falência. De acordo com o Banco Central, valores disponíveis na conta da corretora não são cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito), por isso, o investidor não é ressarcido pelo BC em caso da instituição quebrar. “O investidor ainda pode recorrer ao MRP (Mecanismo de Ressarcimento de Prejuízo) da Bolsa para tentar reaver o valor”, afirma Martins Júnior. Mas, não existem garantias de que o valor será ressarcido.

Entretanto, o executivo ressalta que dificilmente uma corretora quebra sem que o mercado perceba que ela está em grandes dificuldades antes. Por isso, o investidor deve ficar atento se perceber que a instituição em que ele opera passa por problemas. “Em primeiro lugar, o saldo que fica na conta geralmente é residual, um valor baixo. E, mesmo assim, nenhuma corretora quebra de uma hora para outra, o investidor deve ficara atento antes disso acontecer”, afirma.

Crise X investimentos em ações
De acordo com os profissionais, ao contrário do momento de baixa na bolsa de valores, os investidores deveriam aproveitar para montar uma carteira com papéis de boas empresas com preço mais baixo.

“Muitos especialistas afirmam que este é o momento de comprar”, afirma o Martins Júnior. “O mercado é historicamente cíclico, então, se estamos vendo agora esta queda, com certeza teremos uma recuperação”, aponta. “Não há como saber exatamente quando, mas o importante é que o investidor pense no longo prazo. Assim, as oscilações negativas de alguns meses, como agora, perdem importância quando se olha para 20 anos, por exemplo”, aponta o executivo.

Segundo ele, o maior problema é que o brasileiro ainda não está acostumado a poupar com o investimento em ações. “Ainda falta educação financeira para o brasileiro, que só agora está aprendendo o que é mercado de ações”, diz. “Ao contrário de países como os Estados Unidos e Japão, onde há uma cultura de poupança e investimento em bolsa. Nestes países, as pessoas encaram as ações como um investimento de longo prazo, que é o que deveria acontecer no Brasil”, continua.

O especialista da MoneyFit concorda. “A maior parte dos investidores brasileiros só consegue entrar no mercado acionário na alta, eles não têm a mentalidade de comprar aos poucos e sempre”, diz De Julio. “O Warren Buffet (megainvestidor norte-americano, considerado o terceiro homem mais rico do mundo) faz o mesmo discurso há 10 anos e lota auditórios onde quer que seja, pregando a importância de investir pensando na empresa e se tornar sócio do negócio”, conclui.

Diego Lazzaris Borges

Coordenador de conteúdo educacional do InfoMoney, ganhou 3 vezes o prêmio de jornalismo da Abecip