Crédito vira saída de gestoras contra “competição desbalanceada” da renda fixa isenta

Casas entendem que mudança na tributação de fundos fechados também exigirá adaptações para reter investidores

Bruna Furlani

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A visão de que o fluxo para ativos isentos de renda fixa veio para ficar incentivou gestoras a se mexer para atrair e reter clientes. Uma das alternativas é investir em produtos de crédito. “Nossa principal concorrência são os títulos isentos. É uma competição desbalanceada”, diz Alexandre Silvério, CEO e CIO da Tenax Capital.

Diante do cenário, a casa, que já possui produtos que alocam em ativos de crédito, mas sempre com outras estratégias, prepara um fundo que busca “capturar crédito e risco de mercado em taxa de juros [com posições aplicadas, tomadas ou em inclinação da curva]”, falou Silvério durante painel no Latin America Investment Conference, evento do UBS, nesta segunda-feira (29).

O lançamento estará disponível até fevereiro e a casa pretende que a estratégia de crédito tenha entre R$ 300 milhões e R$ 500 milhões. Atualmente, a Tenax Capital possui R$ 1,3 bilhão sob gestão.

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Para Silverio, é natural que haja iniciativas como essa após o grande fluxo de investidores que foram atraídos por opções isentas de Imposto de Renda na pessoa física, como Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e Imobiliário (CRIs), além de debêntures incentivadas, no ano passado.

As emissões de CRIs, CRAs e debêntures incentivadas chegaram a R$ 115,5 bilhões em 2023. O valor foi bem menor do que o registrado no ano passado, mas representou um fluxo contrário em relação aos saques líquidos de R$ 127,9 bilhões vistos nos fundos de investimento locais, segundo dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

O fluxo mais favorável para ativos isentos também ganhou recentemente um novo fôlego com as mudanças na tributação de fundos fechados e exclusivos. Espera-se que esses investidores avaliem resgatar os valores para aportar em ativos isentos de renda fixa, ou em outros produtos como fundos de previdência e de ações, que seguiriam sem a cobrança de come-cotas (antecipação semestral de Imposto de Renda).

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Crédito ganha atenção

A iniciativa vai na esteira de outras casas, como a Verde Asset Management. No começo deste mês, a gestora antecipou ao InfoMoney que acelerou os planos para criar um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDCs) ainda em 2024, após mudanças na tributação de fundos fechados e exclusivos.

“Será um produto de crédito local com viés mais high yield [maior risco e retorno]. Vai ser um FIDC, porque não há come-cotas”, adiantou Luiz Parreiras, gestor da casa, ao InfoMoney, neste mês.

Outra iniciativa que está sendo desenhada pela Verde envolve a criação de uma área voltada para infraestrutura. Em ambas, Daniel Goldberg, um dos maiores investidores em crédito do Brasil e CIO da Lumina Capital, que virou sócia da Verde neste ano, irá ajudar na estruturação.

Dentro do UBS Brazil, a casa também se mexeu ao lançar fundos incentivados. “Temos produtos para concorrer com LCIs e LCAs [Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio]”, afirmou Andre Bannwart, chefe da UBS Evolution, ao comentar durante o mesmo painel.

Governo monitora CRIs e CRAs

Com a sanção da nova lei para aplicações financeiras no exterior e fundos exclusivos, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também passou a monitorar mais de perto a situação de CRIs e CRAs.

Conforme o InfoMoney apurou no começo do mês com fontes com conhecimento no assunto no Ministério da Fazenda e no mercado, há dois níveis de discussão em curso no poder público e instâncias reguladoras sobre os lastros dos CRIs e CRAs que têm sido emitidos no mercado recentemente.

A leitura é que a legislação que trata desses produtos, por ser muito aberta, incentiva a criatividade do mercado para lançar cada vez mais formas para garantir financiamento às companhias. Em alguns casos, autoridades entendem que outros segmentos têm se aproveitado de um “uso disseminado” dos instrumentos.

De um lado, quem participa deste mercado argumenta que os produtos acompanham o dinamismo e a complexidade das cadeias desses dois setores e que restrições poderiam trazer impactos relevantes sobre o crédito e a atividade econômica. De outro lado, há uma preocupação com possíveis distorções e um distanciamento em relação ao espírito das leis que introduziram os novos produtos.