Taxa livre de risco

Com juros na mínima histórica, CDI ainda é um bom referencial de retorno?

Gestores veem maior necessidade de aplicador exigir retornos acima do CDI ou atrelados à inflação, principalmente de olho no longo prazo

gráfico de ações e índices em queda
(Shuterstock)

SÃO PAULO – A percepção do investidor brasileiro sobre os retornos de suas aplicações vem mudando gradualmente nos últimos anos. Desde que a taxa Selic voltou a cair, em 2016, o aplicador se viu forçado a entender que a rentabilidade de seus investimentos mais conservadores não seria mais a mesma. E o grande choque aconteceu neste ano, quando os juros básicos caíram para o menor patamar histórico, de 4,5% ao ano.

Embora a inflação siga em níveis controlados, o chamado “juro real”, que corresponde à parcela do lucro que o investidor coloca no bolso depois de descontar a variação da inflação, tem ficado cada vez menor. E nada indica que essa situação vá mudar tão cedo.

Diante deste contexto, o olhar do investidor sobre o referencial de seus investimentos também está em discussão. Afinal, superar o CDI, principal benchmark das aplicações de renda fixa e também de grande parte dos fundos multimercado, é suficiente? Ou é hora de o investidor começar a buscar outras referências para analisar o desempenho dos ativos?

“O CDI baixo vai matar uma coisa que só fazia sentido quando os investidores eram muito conservadores: o percentual do CDI”, avalia Felipe Dexheimer, coordenador de alocação na XP.

E explica: uma aplicação de R$ 100 mil com retorno de 100% do CDI (4,5%) renderia, em um ano, R$ 4.500. Se a rentabilidade subisse para 101% do CDI, a diferença seria de apenas R$ 45, ou de R$ 4 por mês, assinala Dexheimer. “O investidor deveria deixar de se preocupar com 1% do CDI, mas, sim, buscar ter o CDI mais um, dois ou três pontos percentuais.”

Em sua avaliação, o próprio referencial deveria ser deixado mais de lado, especialmente quando o foco estiver no longo prazo, em que é fundamental ao investidor se preocupar com o poder de compra do dinheiro ao longo do tempo, com maior necessidade de indexação ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

“Quando o investidor pensa em se aposentar, deve se preocupar se seu portfólio está sendo capaz de gerar juro real”, diz. “A mudança para conseguir ter investidores mais maduros passa menos pela relação com o referencial e mais com as janelas de tempo.”

Com a forte queda da Selic e em meio à perspectiva de a taxa ficar baixa por um bom tempo, investidores vão ter que aprender mais sobre risco e volatilidade, destaca Flavio Byron, sócio do escritório Guelt Investimentos. “Com esse nível de juros e a inflação controlada, as pessoas que ficarem passivas no CDI não vão gerar alfa na carteira e vão perder para a inflação”, reforça.

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Ilusão do CDI alto

Para Dexheimer, o CDI em um patamar alto iludiu durante muito tempo o brasileiro. Em 2015, por exemplo, o referencial das aplicações de renda fixa teve variação de 13,24%, porém com inflação de 10,67%.

Descontando-se um Imposto de Renda de 15%, o retorno cairia para 11,25%, o que corresponderia a  um juro real na casa de 0,5% ao ano, destaca. O valor não fica muito distante do juro real projetado pela XP para 2020, da ordem de 0,20%. “As pessoas não estavam ganhando dinheiro, mas eram enganadas pelo juro nominal.”

“Estar no CDI também é um risco. Costumamos identificar risco apenas como oscilação de valor no investimento. O CDI tem um risco menos explícito, que é de os juros caírem e deixarem de remunerar o dinheiro”, afirma Paulo Miguel, sócio do family office Julius Baer.

CDI x IPCA

Miguel afirma que o uso do IPCA acrescido de algum retorno seria interessante do ponto de vista atuarial, porém diz não acreditar em uma mudança: “O CDI vai continuar existindo, mas as pessoas vão ter que pensar mais amplamente.”

O professor William Eid Júnior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas, concorda. Ainda que o CDI esteja mais baixo, ele segue como referência de taxa livre de risco, o piso de rentabilidade dos investimentos, e deve seguir como benchmark para os fundos.

“O que acho que muda com as taxas baixas é a qualidade dos produtos oferecidos. Quando a taxa era de 10%, todo mundo ficava feliz com qualquer remuneração. Agora é diferente. Quem busca rentabilidade e investe, por exemplo, num multimercado, vai ficar mais atento. E mais exigente. Isso deve mudar a qualidade dos produtos para melhor”, afirma.

Na prática, contudo, alguns gestores já têm efetivamente se movimentado. É o caso de Otávio Vieira, sócio da gestora de patrimônio Taler Investimentos, que diz estar negociando mudanças em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), para que seus referenciais passem a ser CDI mais uma taxa.

“Já tivemos três mudanças. Isso é de interesse de outros cotistas, que têm levado as discussões para assembleias. E como não achamos que vai ter uma subida importante de juros no ano que vem, é importante ser assim.”

Os clientes mais sofisticados, diz Vieira, já estão buscando aplicações de olho nesse tipo de rentabilidade e também com foco em inflação para o longo prazo, acima do que papéis como Tesouro IPCA+ estão pagando.

“A mentalidade do brasileiro está mudando. Com a Selic parada em 2020, ano que vem a gente já vai estar falando num linguajar diferente.”

Do ponto de vista educacional, José Tovar, CEO da gestora Truxt, destaca que o grande desafio é o investidor entender sua tolerância ao risco. “Ele foi submetido muito rapidamente a um cenário diferente, que não tem mais juro real ou nominal alto, e precisa se adequar a isso”, diz, ressaltando que, no exterior, o investidor está mais preparado para tolerar maior volatilidade e ter um horizonte de investimento de mais longo prazo.

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