Após baque duplo em 2023, gestoras passam por ‘seleção natural’ – e M&As podem acelerar

Consolidação de gestoras pode ganhar força após queda de patrimônio líquido de algumas casas e aumento da barreira mínima para um multimercado se manter no mercado

Bruna Furlani

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O abalo provocado pelo maior apelo de produtos de renda fixa isentos e mudanças na tributação de fundos fechados acertou em cheio gestoras renomadas e deixou outras muitas pelo caminho ao longo de 2023, com o fechamento de algumas assets. Para gestoras com uma estrutura menor, o cenário mostrou-se ainda mais desafiador para fechar as contas.

Após movimento de consolidação que acelerou em 2021, mas perdeu força nos dois anos seguintes, especialistas avaliam que a indústria de fundos poderá ver novas fusões e aquisições entre casas em 2024, ou mais injeção de capital de instituições financeiras. “As casas perderam muito AUM [ativo sob gestão]. Isso significa que agora vai ficar mais fácil de sentar e negociar, porque o preço está mais barato”, avalia uma fonte ouvida sob anonimato.

Entre as casas independentes que apresentaram maior perda de patrimônio líquido na passagem de 2022 para 2023 estão gestoras como SPX, ARX Investimentos, Verde Asset Management, Ibiuna Investimentos, Western Asset, Morgan Stanley Adm de Carteiras S.A. e Truxt Investimentos, com reduções entre R$ 5,4 bilhões e R$ 12,3 bilhões nos patrimônios líquidos ao longo do período.

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Os dados foram calculados pela Economatica a pedido do InfoMoney. Para o estudo, foram excluídos fundos estruturados, como fundos de direitos creditórios (FIDCs), fundos de investimento em participações (FIPs), além de ETFs (fundos de índice) e fundos imobiliários (FIIs). A amostra levou em conta mais de 30 mil fundos e foi utilizada metodologia específica para evitar a dupla contagem.

Estrutura mais complexa

Fluxos para ativos isentos afetaram a indústria de fundos como um todo, mas especialistas acreditam que a redução nos patrimônios deve abalar mais gestoras menores em que os carros-chefes são fundos multimercados, produtos que tendem a exigir estruturas maiores e mais complexas ante fundos de ações e de renda fixa.

“A barreira para competir está bem maior do que era no passado. É preciso ter uma quantidade maior de profissionais, além de investimento em tecnologia, compliance e infraestrutura nos multimercados”, avalia outra fonte.

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Estima-se que uma gestora de multimercado precise de cerca de R$ 2 bilhões de patrimônio para que consiga financiar a sua estrutura, investir em um time de qualidade e escalar. Por esse motivo, casas com menos de R$ 1 bilhão em ativos sob gestão são vistas como na “zona da morte”, como disse um especialista do setor, ou seja, mais suscetíveis a desaparecer ou a passar por processos de fusões e aquisições.

Novo golpe: tributação

Mudanças na tributação de fundos fechados e exclusivos também foram um golpe duro para algumas gestoras, algo que tem gerado resgates e provocado reestruturações para reter clientes. A Verde, por exemplo, acelerou os planos para criar um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) e uma área dedicada a infraestrutura ainda em 2024, como antecipou o InfoMoney no começo deste mês.

“Muitas vão fechar, outras vão ter passar por uma aquisição em que há compra de talentos [acqui-hiring]. Vai ter gente que vai ter que decidir o que vai fazer, se vai querer lutar pra ser uma gestora de tamanho institucional, ou se vai partir para outro lado”, avalia Luiz Parreiras, gestor da estratégia de multimercados e previdência da Verde Asset Management.

Para ele, a escala mínima para ter um negócio viável e competitivo deu um salto em 2023, com os resgates expressivos de multimercados, retornos abaixo do CDI e perda de credibilidade da “marca multimercados”. Parreiras também avalia que é impossível ignorar o apelo dos produtos de renda fixa isentos de Imposto de Renda para a pessoa física e o possível aumento de fluxo para esses tipos de investimento agora com a tributação dos fundos fechados.

Em 2023, as emissões de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e do Agronegócio (CRAs), além de debêntures incentivadas, por exemplo, chegaram a R$ 115,5 bilhões. O valor foi bem menor do que o registrado no ano passado, mas representou um fluxo contrário em relação aos saques líquidos de R$ 127,9 bilhões vistos nos fundos de investimento locais. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Além do M&A

Carlos Woelz, sócio-diretor e fundador da Kapitalo, argumenta que as gestoras possuem culturas e estilos de gestão diferentes e que duas casas não deveriam se fundir apenas porque o mercado está mais desafiador. “Acredito em trazer grupos complementares, só que é algo mais difícil de fazer. A fusão simples não funciona”, defendeu em participação no Onde Investir 2024, evento do InfoMoney realizado na última semana.

Mas haveria caminhos alternativos aos M&As. Especialistas aventam, por exemplo, a volta de aportes de instituições financeiras para oferecer mais fôlego a gestoras – movimento parecido com o que ocorreu no passado com o fundo Rising Stars, criado pelo Itaú para investir em gestoras novas com potencial de crescimento, como a Ace Capital.

Outra possibilidade seria a costura de acordos semelhantes ao feito no fim do ano passado entre a Garde Asset Management e o “multimesas” do Itaú Unibanco Asset Management, que buscou integrar parte da equipe da gestora a um projeto que combina diversos times de gestão independentes dentro da asset do banco.

“A Garde chegou a ter ‘tamanho institucional’, mas acabou caindo para abaixo dos R$ 2 bilhões e se viu sem saída. O problema de encolher é que fica mais difícil de reter talentos e a lógica do ‘multimesas’ do Itaú é atrair essas pessoas”, diz outra fonte, que ressalta que a vantagem é que a gestora poderá ficar mais próxima da distribuição e da captação agora. Entre 2021 e 2023, a Garde viu o patrimônio passar de R$ 2,6 bilhões para R$ 1,1 bilhão, segundo dados da Economatica.