A “rentismolândia” e a busca pelo 1% ao mês: como o mercado deve se comportar daqui em diante?

Que tal observar com mais atenção estratégias de longo prazo cujo retorno é muito superior a este que os rentistas tanto buscam?

Lucas Collazo

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Caros(as) leitores(as),

O Brasil é um país acostumado com juros mais elevados. Gerações criadas com taxa Selic de dois dígitos, momentos de hiperinflação, trocas de moedas e amplitudes de política monetária traumatizantes.

As alocações de capital mais famosas são a poupança e os imóveis. Herdamos uma filosofia de investimento simplista e pouco eficaz.

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Viver de aluguel pode ser visto como sinônimo de independência financeira e prosperidade. Investimentos comuns bancários, muitas vezes pouco questionados, tomam conta das economias das famílias.

Você se enxerga nas linhas acima? Fique tranquilo(a), faz parte da nossa cultura.

Tivemos um “suspiro” a partir de outubro de 2016. Um processo importante de reformas permitiu com que vivenciássemos patamares menores de taxa de juros.

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A pandemia da Covid-19 e sua necessidade por estímulos foi um anabolizante desse processo. Atingimos o menor patamar de juros visto na história do nosso país, mas durou pouco.

O movimento veloz de queda dos mercados e destruição de PIB por meio dos lockdowns foi revertido para um processo inflacionário importante e aumentos nas taxas basais econômicas ao redor de todo mundo, incluindo economias desenvolvidas como a dos EUA. O bullmarket foi passageiro.

Nesse curto período, milhões de brasileiros ingressaram na Bolsa de Valores e buscaram corretoras para sofisticar suas carteiras de investimento. Os “bancões” sofreram perdas de custódia relevantes e as plataformas digitais se fortaleceram.

Nos últimos dois anos, o retrocesso foi marcado por recordes de emissões de LCIs e LCAs, resgates bilionários na indústria de fundos de investimento, especialmente nas estratégias multimercado e de ações. Gestoras sumiram do mapa, consolidações ocorreram e boa parte dos brasileiros voltou a se “esconder” atrás do rentismo.

Lembro da época que era assessor e que os juros estavam próximos a 7% ao ano. Quase todos os clientes que abriam conta comigo, e eram questionados sobre seus objetivos, respondiam: “quero 1% ao mês, sem risco, garantido”. Somos verdadeiros viciados nessa “droga” de retorno mensal nesse patamar.

Me parece que fomos privados, de certa forma, desse entorpecente com os juros menores. Sem muito preparo e tratamento, atirados aos produtos mais sofisticados e à necessidade de aceitar maior volatilidade para perseguir maiores retornos.

Era óbvio que na primeira oportunidade regrediríamos. Fui ingênuo de pensar que em algum momento isso não aconteceria. Não estou dizendo que, com juros mais altos, a renda fixa não tenha ficado mais atrativa.

Títulos públicos que pagam 5% mais a inflação do período (IPCA), ativos isentos que conseguem entregar quase que integralmente a taxa de juros gorda que vemos na tela. Sim, eles ficaram mais interessantes e talvez merecessem mais atenção dos seus aportes, de parcela da sua carteira.

Porém, esse pêndulo? Desculpe, ele não funciona.

Você provavelmente vai se desfazer dos seus ativos de risco quando estão mais descontados, vai recomprá-los quando estiverem mais caros. Isso sem dizer que a renda fixa também tem preço e você, com sede de juros, as vezes pode negligenciar esse fator e não se atentar, por exemplo, ao patamar de spread de crédito antes de selecionar o papel que deseja.

Meu ponto é: enquanto tivermos algo próximo a 1% ao mês, mesmo que bruto, nesses ativos de renda fixa mais simples, como os bancários e o Tesouro Selic, nós não teremos fluxo para os demais mercados. Podemos ter algum movimento, mas tímido perto do que foi retirado, isso com toda a certeza.

Os investidores locais vão se movimentar quando o bolso começar a apertar, quando suas aplicações perderem esse nível de rentabilidade. O que deve acontecer em breve, já que a inflação surpreende na velocidade que vem “caindo” e teremos uma nova diretoria no Banco Central que parece ser mais “dovish”, ou seja, mais flexível com a política monetária.

Infelizmente, muitos farão exatamente o que citei linhas acima. Serão atrasados, perseguindo essa reabilitação do rentismo.

O que mais me pergunto é: uma estratégia de investimento bem implementada, com uma alocação de capital adequada e com o investidor compreendendo as dinâmicas do mercado, no longo prazo, não poderia render-lhe mais do que esse tal do “1% ao mês”? Será que isso é o melhor que podemos buscar?

Claro que, diferentemente do que sistemas de pirâmide e conselheiros fajutos de finanças dizem, a não ser que estejamos falando de uma ativo prefixado, não existe garantia de retorno. Quando analisamos fundos de ações de casas renomadas e com históricos longos, ou mesmo fundos multimercados, histórias emblemáticas como de Jim Simons e Warren Buffett, vemos retornos muito superiores a estes que os rentistas tanto buscam por aí.

O mercado de ativos de risco deve responder quando a Selic incomodar a “rentismolândia” e deve motivar uma mudança de comportamento (mais uma vez). A história se repete.

Lucas Collazo

Host e conselheiro no fundo do Stock Pickers | Especialista em alocação e fundos de investimento no InfoMoney