Sustentabilidade

Startup que leva energia limpa (e mais barata) a pequenas empresas atrai Ambev

A Lemon une geradores, distribuidores e consumidores de energia limpa. Startup já captou R$ 17 milhões com investidores, incluindo a Ambev

Danilo Santos e Vitor Vellasco, sócios da Vellas Energia, geradores da Lemon; e Rafael Vignoli e Luciano Pereira, CEO e CTO da Lemon
Danilo Santos e Vitor Vellasco, sócios da usina parceira Vellas Energia, e Rafael Vignoli e Luciano Pereira, CEO e CTO da Lemon (Divulgação)
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SÃO PAULO – Mais do que oito em cada dez brasileiros consideram suas contas de luz caras ou muito caras – e as startups estão se mexendo para conquistar essa parcela insatisfeita de consumidores.

A Lemon é uma delas e olha especificamente para o mercado de 6,4 milhões de empresas brasileiras de pequeno e médio porte. A startup fornece a conexão com geradores remotos de energia renovável e sustentável e, ao mesmo tempo, uma redução na conta de luz dos estabelecimentos.

A proposta atraiu inclusive a Ambev. A fabricante de bebidas é a mais nova investidora da Lemon e elevou o total captado pela startup para R$ 17 milhões. A associação entre gigante e startup permitirá expandir a carteira de clientes da Lemon.

Energia sustentável e descentralizada

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A Lemon foi criada por Luciano Pereira, Rafael Mezzomo e Rafael Vignoli. Os brasilienses se conheceram ainda na escola e se graduaram, respectivamente, em engenharia eletrônica, engenharia de computação e economia.

Os três já empreenderam antes – um exemplo foi a Ewally, solução de pagamentos cofundada por Pereira e vendida para o Carrefour.

Em 2017, Vignoli foi um dos sócios-fundadores da empresa de projetos renováveis SKL Group. A empresa intermediava contratos entre usinas e grandes empresas em setores como telecomunicações e varejo. O empreendedor conheceu mais a fundo as dores das companhias e as lacunas do mercado nacional de energia.

“O Brasil é bom em energia renovável, mas não necessariamente sustentável. Basta pensar nos impactos ambientais da hidrelétrica de Itaipu. Temos ainda que explorar a sustentabilidade. Estamos em um país muito favorável para energias eólica e solar, por exemplo”, afirmou Vignoli ao InfoMoney.

Segundo dados do Ministério de Minas e Energia, cerca 46% da matriz energética brasileira era renovável em 2019. A média mundial está em 14,2%. A energia gerada por hidrelétricas representou 26,8% da fatia renovável, enquanto a eólica teve participação de apenas 3,5% e a solar uma contribuição ainda menor, de 0,4%.

Outra dor identificada pelo empreendedor foi a centralização de provedores para quem não consome muita energia. Companhias com porte significativo (demanda contratada acima de 500 kilowatts) podem participar do ambiente de contratação livre de energia, escolhendo seus fornecedores. Já pessoas físicas e pequenas empresas fazem parte do ambiente de contratação regulada, não podendo eleger suas concessionárias ou distribuidoras.

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A concentração continua mesmo após a Resolução Normativa nº 687/2015, da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que permitiu a consumidores abater o valor de suas contas de luz nessas concessionárias/distribuidoras ao instalar as próprias fontes de energia renovável ou participar de cooperativas de microgeração ou minigeração.

Segundo Vignoli, criar a própria usina ou entrar para cooperativas não é um processo intuitivo. Então, o padrão é ver a conta chegar em casa e não apurar por que ela aumentou em um certo mês. “Queríamos que o usuário pudesse receber informações e tomar decisões no seu consumo de energia, por meio de comunicação e tecnologia.”

Como funciona a Lemon?

A Lemon atua como a ponte entre usinas remotas de energia renovável e sustentável, concessionárias/distribuidoras e os consumidores finais. A startup de energia focou primeiro no mercado de pequenas e médias empresas, por seu consumo energético ser superior ao de pessoas físicas. A mira está em estabelecimentos que pagam contas de luz de R$ 2 mil a R$ 4 mil por mês.

A empresa preenche seu cadastro e a startup apresenta uma proposta em alguns minutos. O contrato pode ser assinado digitalmente. A Lemon confere se a geração das usinas parceiras bate com o que elas informaram às concessionárias/distribuidoras, que repassarão os créditos de energia na conta das PMEs usuárias da Lemon. Essa checagem é feita para garantir aos clientes que eles recebam exatamente a quantidade de energia contratada.

As empresas não precisam trocar relógios ou alertar sua concessionária/distribuidora. A Lemon afirma que seu serviço promove uma economia de até duas contas de luz por ano. A economia média está em uma conta e meia.

A startup se monetiza com uma cobrança mensal sobre o faturamento das usinas parceiras. A maioria delas produz energia solar, mas a Lemon está adicionando parceiros em biomassa e energia eólica. A rede atual tem uma capacidade produtiva de 300 megawatts – o suficiente para atender mais de 30 mil estabelecimentos, segundo a empresa.

A Lemon tem como inspiração internacional a Arcadia. A plataforma americana de energia residencial permite que os consumidores acessem fontes renováveis e sustentáveis ao mesmo tempo em que diminuem a conta de luz. A Arcadia captou US$ 70 milhões com investidores.

Por aqui, a Lemon não é a única startup de energia – mas cada uma tem sua proposta. A Clarke Energia (Salvador) também atende PMEs, mas reduz a conta de luz por meio de ajustes tarifários. Já a Metha Energia também aposta em usinas remotas e com fontes renováveis, mas atende pessoas físicas.

Interesse da Ambev e planos futuros

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A Lemon atraiu investidores anjos e fundos no começo do negócio, em setembro de 2019 (entenda o investimento anjo e os fundos de venture capital e private equity). Entre os investidores na pessoa física estão ex-executivos da gigante de mobilidade 99 e Kiran Bhatraju, fundador da Arcadia. Os fundos de capital semente Canary (Buser, Loft) e BigBets (ChatPay, Conta Simples) também estão no quadro da Lemon.

O capital semente foi usado para construir a plataforma e conectar as primeiras usinas próximas da startup, com sede em Brasília. O empreendimento começou a operar em julho deste ano.

A startup de energia agora recebeu o aporte do Z-Tech, fundo de capital de risco corporativo da Ambev. Ao todo, a Lemon captou R$ 17 milhões com investidores. Mesmo antes de colocar recursos, a Ambev fez um piloto com a startup durante a pandemia em Minas Gerais. Atender negócios que vendiam bebidas da Ambev ajudou a construir boa parte da carteira de clientes da Lemon.

A startup atende 200 estabelecimentos espalhados por Minas Gerais e por Brasília. São negócios como condomínios, mercados, padarias e restaurantes. Outras 1,3 mil pequenas empresas estão em uma lista de espera. “A Ambev tem diversos pontos de venda dos seus produtos. Estamos aprofundando ainda mais nossa relação”, diz Vignolli.

Além de clientes, o novo investimento deve ajudar na contratação de talentos e expansão para outros estados brasileiros. Os membros da Lemon devem ir de 25 para 48 até o final deste ano. A startup de energia projeta atingir uma carteira de 15 mil negócios em 2021.

O potencial do ESG

O cofundador da Lemon está otimista diante do interesse mundial crescente em investimentos com critérios ambientais, sociais e de governança (ESG). “A sustentabilidade tem atraído o interesse do capital. Recebemos ligações tanto de detentores de capital interno quanto externo”, diz Vignolli.

Uma pesquisa do banco HSBC mostrou que 30% dos investidores reconheceram a importância dessa agenda em meio à pandemia de Covid-19. No caso das empresas listadas em Bolsa, 41% já admitem que ser sustentável é importante.

“Apesar das condições desafiadoras do mercado global ao longo de 2020, as perspectivas de financiamento e investimento sustentáveis parecem extremamente fortes”, afirmou Daniel Klier, diretor global de finanças sustentáveis do HSBC, mencionando o investimento de US$ 45,6 bilhões feito no primeiro trimestre em fundos ESG.

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