Tempos difíceis

RD: de estrela da Bolsa à ameaçada em várias frentes, quando a ação irá virar o jogo?

Rede de farmácias enfrenta dificuldades no curto prazo com a concorrência mais organizada, mas solidez nos resultados e boa gestão guiam expectativas positivas para a empresa no futuro

SÃO PAULO – Quem olha apenas para o desempenho recente das ações da RD – ex-Raia Drogasil – (RADL3), com uma queda de quase 28% no ano e que está totalmente na contramão do rali eleitoral, mal poderia pensar que esse foi um dos ativos que mais brilhou nos últimos anos, inclusive em períodos de crise econômica e de queda para o Ibovespa.

O ano de 2018 caminha para ser o primeiro de queda após 4 anos consecutivos de fortes ganhos para a companhia – período este em que o papel acumulou uma valorização expressiva de 550% na esteira de bons resultados operacionais e uma boa gestão, além de boas perspectivas levando em conta premissas como o envelhecimento da população e aumento do acesso da população a saúde. 

Porém, se pouco mudou na gestão da companhia e o cenário de mudança na estrutura etária é parecido, outras questões levaram ao ambiente negativo para os papéis neste ano. Muitas delas foram evidenciadas durante o Investor Day da empresa no último dia 11 e que ajudaram a “azedar” o desempenho do papel nos últimos pregões. 

PUBLICIDADE

A maior questão para a companhia, o aumento da concorrência, ganhou uma dimensão ainda maior, o que levou a uma mudança estratégica para a líder do mercado, conforme ressaltou a própria equipe durante o evento. Se antes, o grande fator para se atentar era a expansão das grandes empresas do setor farmacêutico, como o Grupo DPSP (controlador da Pacheco e Drogaria São Paulo), Extrafarma e Pague Menos, desta vez o evento destacou que a ameaça está onde muitos não esperariam: das farmácias menores, de bairro, e que passaram de ameaçadas em meio ao processo de consolidação para ameaça.

Nos últimos anos, mas com reflexo maior nos últimos meses, as farmacêuticas menores e localizadas em bairros de renda mais baixa passaram a se unir, através de um modelo de negócios montado por meio de associativismo ao compartilhar métodos de gestão e informação, como forma de sobreviver ao ambiente de entrada das concorrentes.

Diversas bandeiras foram criadas, levando a associações que, juntas, somam mais de 600 farmácias em 18 estados brasileiros, conseguindo assim conseguir maior poder de barganha na negociação com os fornecedores e levando a uma maior profissionalização das pequenas empresas. 

Tal modelo fez com que essa parte importante do mercado voltasse a incomodar, mostrando a sua força em um ambiente que aparentemente seria mais tranquilo para as maiores redes farmacêuticas, que iriam assim disputar maiores pedaços do mercado entre elas.

Com tal cenário à vista, a RD destacou o seu plano de ação no último Investor Day: acabar com o formato da Farmasil, criada em 2013 com foco na renda mais baixa, e transformá-la em farmácias com a marca Raia ou Drogasil.

Depois desses anos com a nova bandeira, a empresa apontou que teve enormes aprendizados em relação ao modelo operacional e investimentos, conforme ressaltou em sua apresentação a investidores: “o atual formato obteve bom desempenho inicial mas se mostrou vulnerável, na medida em que o tamanho excessivamente compacto carece de visibilidade quando compete com lojas de tamanho normal”. 

PUBLICIDADE

O novo formato lançado se caracteriza por lojas maiores – de 120 a 140 metros quadrados – com maior penetração de genéricos com preço de entrada e marcas próprias. Como o formato e o seu potencial ainda está em estudo, mesmo com as conversões, a expectativa é que ainda se leve algum tempo para notar os efeitos de tal mudança de estratégia.

A hora de investir na Bolsa é agora: abra sua conta na Clear com taxa ZERO de corretagem!

Além disso, a líder de mercado focará em uma estratégia de preços mais agressiva, principalmente em genérico, segmento responsável por boa parte da receita das companhias menores. Essa política de preços mais agressiva deve ser mais um fator a corroer as margens da RD, que já sofreram nos últimos resultados em meio ao reajuste baixo do preço dos medicamentos e a concorrência mais acirrada com as grandes empresas.

Desta forma, se o mercado já esperava margem mais baixas, tal agressividade na concorrência deve levar a um novo adiamento nas expectativas do mercado para a recuperação dos números da empresa. Se antes os analistas já esperavam alguma recuperação da margem Ebitda (Ebitda sobre receita líquida) em 2019 após a queda esperada de 20-30 pontos-base em 2018, o ambiente de pressão sobre os números deve durar mais um tempo. 

“O desafio da RD está em lidar com competição de players nos principais mercados e expandir em novas regiões sem perder produtividade. Mesmo a empresa sendo um player melhor em execução que os seus pares, o crescimento vai depender cada vez mais desse formato voltado para classes mais baixas e a RD ainda deve ter uma curva de aprendizado”, aponta o BTG Pactual em relatório. 

Soma-se a isso a estratégia de forte expansão que a companhia segue adotando – ela reiterou o guidance de abertura de 240 lojas, em um cenário em que muitos analistas questionam a canibalização entre as lojas da empresa.

Em estudo realizado em março deste ano, o UBS mostrou que, entre as maiores cadeias do setor, o grupo RD é o que mostrava a maior taxa de canibalização, medida pelo número de lojas de uma empresa que estão a cinco minutos uma da outra. No caso dela, a taxa era de 85,1%, contra 80,1% da Panvel, 77,7% para a DPSP e 75,9% para a Extrafarma. 

Tais considerações fizeram com que o papel registrasse uma forte queda já na última quinta-feira, quando os papéis desabaram 5,98%, baixa essa que se seguiu durante essa semana. Enquanto o Ibovespa caminha para fechar com ganhos de 1,57%, o movimento foi oposto para os papéis RADL3, que caiu 1,75% no período.

Desta forma, no curto prazo, não há sinais de alívio para a empresa, o que levam os analistas a ficarem mais cautelosos com os papéis da empresa. Esse é o caso do Brasil Plural, que manteve recomendação equalweight (exposição em linha com a média do mercado) para o papel, já que continua vendo desafios pela frente, com os concorrentes se tornando mais organizados e os genéricos ganhando participação nas receitas do mercado.  

No longo prazo, segue vencedora?

Mas, se por um lado, o curto prazo parece ser desafiador, por outro o aumento de volumes pode ajudar na retomada do crescimento da rentabilidade, segundo aponta o BTG.

Além disso, a gestão da companhia segue sendo um grande diferencial para ela, assim como os seus investimentos em inovação. Conforme apontam os analistas do Brasil Plural, a mensagem principal da gestão da RD continua sendo a manutenção dos esforços da empresa para gerar valor a longo prazo aos acionistas, ao mesmo tempo em que reforça sua estratégia de oferecer uma experiência e serviços melhores aos clientes.

A RD também busca se concentrar em melhorar a experiência do cliente por meio de novas estratégias de tecnologia da informação (TI), mantendo seu plano de expansão para ganhar participação de mercado em novos lugares e impulsionando seus números através de maior penetração de marcas próprias e aumento na oferta e participação de serviços.  

Durante o Investor Day, a companhia também apontou que o avanço da plataforma digital é mais do que uma realidade, já que a empresa já está operando a iniciativa click-and-collect (de compra online e retirada na loja) em todos os pontos, criando assim uma estratégia digital de longo prazo.

“A RD está fazendo uma transição com sucesso de uma plataforma multicanal (loja+ aplicativo de celular + online) para uma plataforma multicanal integrada, conectando efetivamente todos os centros de distribuição e plataformas de clientes”, ressaltou o Morgan Stanley em relatório em que destacava justamente a possibilidade da Amazon entrar no mercado farmacêutico no Brasil.

Segundo os analistas do banco americano, as farmácias são relativamente protegidas contra uma possível ofensiva da Amazon e a capilaridade das lojas é a principal vantagem competitiva da RD, permitindo que ela ofereça uma logística eficiente e opções flexíveis competitivas de entrega aos clientes. Contudo, avaliam que os investidores devem começar a considerar possíveis investidas da Amazon no segmento no futuro. 

A descentralização da expansão de lojas também seguirá sendo uma estratégia, com as aberturas de lojas deixando de serem concentradas em São Paulo e com uma maior alavancagem da plataforma nacional. Em 2015, 58% das lojas abertas eram em São Paulo; em 2018, apenas 28% foram inauguradas no estado. 

“Ao entrar em novas regiões, as lojas inauguradas estão localizadas nas melhores regiões, gerando retornos ainda melhores. Além disso, a RD adquiriu 20 pontos de venda do Big Ben (outrora o maior player de Belém, no Pará)”, ressalta o Itaú BBA. 

Dessa forma, o que esperar para os papéis da RD? Muitos analistas ainda veem a ação como cara e, sem catalisadores de curto prazo, avaliam que a ação teria que cair ainda mais dos atuais R$ 66 em que ela é negociada para representar um bom ponto de entrada. 

Já Stephen Duvignau, gestor da Fama Investimentos, asset que possui uma posição de longa data em RADL3, reforça ser difícil apontar quando acontecerá o movimento de recuperação da ação da rede de farmácias, mas avalia que, nos atuais patamares, ela pode voltar a ser um papel interessante para o mercado.

Além disso, os papéis devem voltar a andar à medida que ela colher os frutos da estratégia que adotou para aumento da participação no mercado. “A história é de crescimento no longo prazo e a expectativa é de margens sustentáveis para a companhia – ainda que haja nebulosidade dada a performance recente”, aponta Duvignau. 

Afinal, aponta o gestor, as teses principais, de uma empresa bem gerida e com boa estratégia, sustentada em pilares como envelhecimento da população não mudaram. “O que mudou um pouco foi o curto prazo. Mas, para pessoas que tem visão num período mais longo, o papel está chegando num patamar interessante de preços”, avalia.

Mas, para um prazo mais curto, as perspectivas não são positivas, nem para o desempenho da ação e nem para os resultados. Os números do terceiro trimestre serão divulgados no fim do mês e, segundo prévias de analistas, devem ser um dos destaques negativos no setor de varejo, refletindo também a nova estratégia de maior agressividade nos preços. 

A RD segue assim, na visão do mercado, uma vencedora de longo prazo – mas os próximos meses não devem ser de brilho para a companhia. 

A hora de investir na Bolsa é agora: abra sua conta na Clear com taxa ZERO de corretagem!