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Política, falta de transparência? Há algo de errado com a Contax e ação despenca 70%

Será que um plano de desinvestimento consegue apagar uma sequência de resultados ruins e a renúncia conturbada de diretores?

SÃO PAULO – Alguns movimentos de ações, por mais bruscos e não naturais que sejam, acabam passando despercebidos por boa parte dos investidores por conta da baixa liquidez dos papéis das empresas que sofreram estas oscilações. Contudo, algumas histórias mostram que podemos ter muito mais motivos para explicar a volatilidade de uma “small cap” na Bovespa.

O que está acontecendo com a Contax (CTAX11) é um exemplo disso. As units da companhia de telemarketing caíram mais de 10% por três pregões diferentes – dias 19, 20 e 24 de agosto. Logo depois, esses papéis se recuperaram e mostram alta de quase 60% até o fechamento de terça-feira (22), embora no acumulado do ano a queda ainda seja de 70%. A empresa vem apresentando queda na geração de caixa e no lucro a cada trimestre. No entanto, seus problemas podem não se resumir a isso.

Uma fonte ligada à empresa, que não quis ser identificada, disse que há outros problemas ainda mais graves, que geraram conflitos internos. Exemplo disso são as doações políticas para candidatos de escolhidos pelos controladores e não pela Contax. “O Senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), que é ligado ao controle, recebeu doações, mas isso não teve a devida abertura nas notas explicativas”, disse o executivo. Segundo informações do Congresso em Foco, que cita os dados de prestação de contas do senador na Justiça Eleitoral, Jereissati recebeu da empresa R$ 1 milhão por transferência eletrônica nas eleições de 2014. 

O executivo também avalia que os controladores falam diretamente com as várias diretorias e ao conselho de administração caberia apenas ratificar o que já foi decidido. “O clima interno ficou muito ruim, com alta rotatividade de executivos, o que sempre foi uma preocupação minha e nunca foi endereçado pela gestão”, desabafa.

Para explicitar o peso deste problema da rotatividade, basta lembrar que a maior queda diária da Contax foi no dia no dia 20 de agosto, quando as ações caíram 25,3% por conta da renúncia de dois diretores do Conselho de Administração, Pedro Luiz Cerize e Marcelo Cerize. A saída mostra que há muita gente de peso descontente na empresa, o que nunca é bom sinal para quem quer sair de pé de uma crise.  

Venda da Allus
Um dos poucos alívios na ação Contax nos últimos tempos foi quando na terça-feira, 1º de setembro, a companhia informou a sua intenção de vender a sua divisão Allus, com operações na Argentina, Peru e Colombia. No mesmo pregão, as ações da empresa subiram 12,28%. Para o Credit Suisse, esta operação responderá por 26% das receitas da empresa em 2015.

“A Allus é a melhor operação da Contax, em nossa visão. Ela veio crescendo dois dígitos com concentração mais baixa de clientes”, diz Daniel Federle, analista do banco, em relatório. 

Todo plano de desinvestimento é obviamente positivo para uma companhia que vê aumentar a sua dívida líquida, que já está em R$ 976,6 milhões, ao mesmo tempo em que o Ebitda cai. Na avaliação do Credit, a venda da Allus a um valuation atrativo levaria a Contax a operar com um múltiplo EV/Ebitda (valor de mercado da empresa sobre Ebitda) de apenas 2 vezes, muito abaixo da média do mercado, o que pode indicar que a ação está barata.  

No entanto, a decisão de vender a Allus não foi unânime. O executivo que não quis se identificar disse que a companhia era o único braço rentável e com crescimento da Contax. “As dificuldades financeiras foram culpa da estratégia adotada pela empresa e podem ser facilmente revertidas. Infelizmente escolheram o caminho mais fácil, que é vender um ativo importante como a Allus”, opina.

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Nos últimos dias, novas notícias trouxeram ainda mais volatilidade à empresa. Na semana passada, detentores de debêntures da 3ª emissão da companhia foram convocados para deliberar sobre alienação de até 100% da participação da Stratton Spain no dia 22 de outubro. Um dia antes, os papéis da companhia fecharam em alta de 15,56%. Ou seja, é mais uma vez em que a empresa anuncia algo relacionado a venda de ativos e investidores aproveitam para entrar em peso com força compradora. A questão é saber o quanto isso pode ser bom para a empresa em vista dos diversos problemas que parecem escondidos sob os balanços. 

Procurada, a assessoria de imprensa da Contax disse que não iria se pronunciar sobre o assunto. 

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