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Futuro do trabalho: como impulsionar a educação superior para nova realidade?

A mudança no trabalho está levando a um paradoxo. Por um lado, existe desemprego como efeito da automação, por outro, há escassez de pessoal qualificado em certas áreas. Dois consensos emergem: necessidade de aumentar nível educacional da população e demanda por nova dinâmica no ensino. O texto traz reflexão, sugerindo como a graduação pode aprender de práticas vigentes na pós-graduação visando nova dinâmica.

O mundo do trabalho está sendo alterado de forma bem além da esperada. Especialistas em tendências apontam mudanças ainda mais abruptas nos próximos anos. Pesquisa elaborada pelo McKinsey Global Institute, (MGI em 2018), indica alguns efeitos da automação sobre o futuro do trabalho. O estudo analisa mais de 2000 atividades em mais de 800 ocupações, mostrando que certas categorias de atividades são mais facilmente automatizáveis do que outras. Um dos resultados aponta que quase todas ocupações serão afetadas pela automação, mas apenas cerca de 5% delas podem ser totalmente automatizadas pelas tecnologias atualmente disponíveis. Muitas ocupações têm partes de suas atividades automatizáveis: com cerca de 30% das atividades em 60% de todas as ocupações com este potencial. A natureza dessas ocupações provavelmente mudará como resultado. Uma das dez medidas propostas pela pesquisa é a evolução dos sistemas de ensino e aprendizagem, com ênfase em criatividade, pensamento crítico e sistemático e aprendizagem adaptativa ao longo da vida.

Sempre que se aborda o efeito da tecnologia no trabalho, alguns tendem a considerar este efeito como gerador de desemprego. Contudo, historicamente, existem outras conclusões. Por exemplo, nos Estados Unidos, estudos apontam que ao longo do tempo as novas tecnologias geraram mais ganhos em termos de postos de trabalho do que perdas. Obviamente, esta evidência histórica não diminui o impacto do indíviduo que foi demitido como efeito da automação. Em termos de estratégias de políticas públicas, o ponto fundamental é entender quais medidas devem ser implementadas. Sobretudo o que precisa ser mudado em nosso sistema educacional.

Outro estudo, também conduzido pelo MGI, voltado à realidade brasileira, traz valiosas reflexões. A pesquisa estima que cerca de 15,7 milhões de empregos em tempo integral poderão ser substituídos até 2030 devido à automação. De acordo com esta estimativa, no Brasil, até 10% dos trabalhadores precisarão mudar de ocupação até 2030. Os trabalhadores de baixa qualificação estão mais vulneráveis e experimentarão a maior mudança, já que seus empregos têm maior potencial de automação. Por outro lado,  categorias de emprego com maior percentual de crescimento, em termos de geração de empregos, incluem prestadores de serviços de saúde, profissionais como engenheiros, cientistas, contadores e analistas; Profissionais de TI e outros especialistas em tecnologia; gerentes e executivos; educadores; e pessoas em profissões criativas, como artistas. Assim como no estudo anterior, existe a proposição de melhoria do nível educacional, dando maior destaque às habilidades sociais e emocionais, criatividade, capacidades cognitivas de alto nível e outras habilidades relativamente difíceis de automatizar. Para a grande maioria dos trabalhadores, o foco deve ser o desenvolvimento de sua criatividade, habilidades de resolução de problemas e “meta-habilidades” - aprender como aprender, ser ágil e flexível.

É possível considerar, entre os consensos de várias pesquisas sobre futuro do trabalho, pelo menos dois pontos: a) necessidade de mover a população numa escala de conhecimento, fazendo com que mais indivíduos se capacitem nas habilidades requeridas no novo contexto do trabalho; b) demanda por nova dinâmica nos sistemas de ensino.

Uma comparação entre os sistemas de graduação e de pós-graduação leva a reflexão que enquanto na pós, sobretudo strictu sensu (mestrado ou doutorado), o estudante é mais avaliado pelo que conseguiu aplicar do conhecimento captado, na graduação, o ensino ainda tem forte influência da abordagem tradicional, onde memorização desempenha papel maior do que aplicação do conhecimento.

Como contraponto, existe tendência crescente de empregar a aprendizagem com base em problemas. Neste contexto, o estudante é levado a: 1) Entender um problema; 2) Identificar quais áreas de conhecimento são relevantes para este problema; 3) Aprender a aplicar o conhecimento para solução.

Embora a completa mudança do sistema de ensino de graduação, muitas vezes com décadas estabelecidas, possa ser considerada algo muito radical, sobretudo pela relutância natural dos docentes à transformação, já é possível ver alguns indícios de mudança. Por exemplo, alguns cursos demonstram maior ênfase à preparação dos seus alunos para o TCC- Trabalho de Conclusão de Curso- já nas fases intermediárias, algo mais próximo ao modelo adotado por algumas instituições americanas, como a Universidade do Texas.

Quando se pede a um estudante em meados do curso para refletir sobre TCC, se dá ênfase ao planejamento, ou seja o aluno não apenas se concentra no que está sendo ensinado, mas também no para que ou por que este conhecimento é relevante. Este tipo de perspectiva,  mais próxima à abordagem de pós, pode contribuir para desenvolver no estudante algumas das meta-habilidades citadas, principalmente aprender a aprender.

É com esta proposta que o livro “Trabalho de Começo de Carreira” traz uma nova visão sobre o TCC, onde o estudante é conduzido, com apoio de técnicas de coaching, a avaliar tanto seu conhecimento como suas habilidades mais relevantes ao mundo em transformação. Nas palavras do professor Matelli, (Engenharia- UNESP), o livro “dá ao jovem em final de curso diversas oportunidades de refletir sobre futura atuação profissional (ou acadêmica), ampliando-lhe o repertório de possibilidades de trabalho em um mercado que, para o bem e para o mal, está mudando radicalmente e, quem sabe, contribuindo para semear uma mudança em direção a uma cultura empreendedora.”

Uma pesquisa conduzida com 8000 entrevistados de nove países, incluindo o Brasil, mostrou que metade dos jovens não tem certeza de que sua educação superior melhorou suas chances de encontrar emprego. É necessário alterar esta realidade, fazendo com que os jovens se tornem mais proativos. À medida que informação é cada vez mais disponível e automação mais presente, cabe à educação superior repensar seu papel para contribuir com um mundo em profunda mudança.

Jonny Carlos da Silva

Professor titular de engenharia mecânica da Universidade Federal de Santa Catarina, pós-doutorado junto à NASA, master coach e palestrante.

Website: http://profjonny.com.br

 

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