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Milagre dos Andes: as decisões que salvaram 16 vidas após a queda de um avião em 1972

No dia 13 de outubro de 1972, o time de rugby do Uruguai estava a caminho de Santiago do Chile quando a aeronave da força aérea caiu na Cordilheira dos Andes, a mais de 4 mil metros de altitude; o empresário Nando Parrado, que estava no voo, contou como sobreviveu na Expert XP 2018

Acidente avião Andes
(Reprodução)

 “Não era para eu estar aqui hoje. Era para eu estar morto e enterrado em uma geleira”. A frase pode parecer dura, mas se levarmos em conta as probabilidades, o empresário Fernando “Nando” Parrado não deveria ter feito a palestra de encerramento da Expert XP 2018, que aconteceu entre os dias 20 e 22 de setembro. 46 anos antes de subir no palco da maior feira de investimentos do mundo, Parrado e outros 15 jovens contrariaram as estatísticas e sobreviveram durante 72 dias no meio da Cordilheira dos Andes a um acidente aéreo que vitimou 29 pessoas.

No dia 13 de outubro de 1972, o time de rugby do Uruguai estava a caminho de Santiago do Chile em um avião da força aérea quando, em meio ao mau tempo, os pilotos se confundiram e iniciaram o procedimento de descida antes da hora. O resultado foi um impacto no cume da montanha, a mais de 4 mil metros de altitude, praticamente em velocidade de cruzeiro. O turbo-hélice Fairchild FH-7827 se partiu em dois e desceu a mais de 300 km/h pela neve até parar em um banco de gelo.

12 pessoas morreram na queda. Outras 17 não resistiram aos dias que se seguiram - incluindo a mãe e a irmã mais nova de Parrado, que estavam no voo a convite dele. Mas um grupo de jovens conseguiu aguentar temperaturas de até 30 graus negativos sem roupas adequadas, além da escassez de comida e água.

 Não há como deixar de citar a sorte em uma situação como esta - para se ter ideia, a aeronave deslizou centenas de metros pela neve sem tocar em nenhuma das rochas que estavam ao seu redor. Mas atitudes e decisões dos sobreviventes também foram fundamentais para que o grupo conseguisse se salvar depois de tantos dias em um ambiente totalmente contrário à vida humana.

Em uma palestra de mais de uma hora, Parrado contou detalhes dos dias mais difíceis que enfrentou na vida e citou algumas decisões que foram fundamentais para que eles e os outros sobrevivessem.

“Melhor decisão que já vi na vida”

Nando Parrado é um empresário de sucesso. CEO de três empresas ele acumulou fortuna e muitos bens durante toda sua vida. Mas mesmo depois de mais de 40 anos no mundo dos negócios, ele cita a decisão de um de seus colegas, logo após a queda do avião, como a mais acertada e rápida que presenciou até hoje.

“Eu já falei com presidentes de muitos países, com CEOs das maiores empresas do mundo, com políticos e esportistas. Mas a melhor decisão que vi na vida foi a de Marcelo [um dos sobreviventes]. Ele disse: ‘são 17h30. Até que as equipes de resgate consigam se preparar e mandar helicópteros, serão mais de 22h. E não se pode voar de helicóptero à noite em meio às montanhas. Então nós só seremos resgatados amanhã. A temperatura à noite chega a -25/-30 graus. Combinada com este vento, nós vamos congelar antes do amanhecer”’, lembra-se Parrado.

Marcelo chamou os colegas e juntos construíram uma parede na fuselagem para impedir que o vento entrasse, usando malas e restos do próprio avião. “Esse foi o primeiro link nesta corrente de eventos que nos permitiria sobreviver por dois meses e meio na montanha. Nós não estávamos preparados para aquele frio. Tínhamos apenas roupas de verão. Nada de luvas, casacos ou botas de neve. Portanto, se Marcelo não tivesse feito esta parede, nós teríamos congelado na primeira noite”.

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Falta de comida

Um dos maiores problemas de se estar a uma altitude de mais de 4.000 metros com temperaturas de dezenas de graus negativos é que praticamente não há vida animal ou vegetal neste ambiente. Durante quase duas semanas os sobreviventes aguentaram praticamente sem comer nada– eles racionaram alguns mantimentos que foram encontrados nos destroços, mas tudo que tinham acabou nos primeiros dias. “Era como estar na Lua, Vênus, ou Marte. O cenário era todo branco e cinza – só tinha neve. Naquela altitude não existia mais nada”.

Mas à medida que o tempo passava, ficava mais difícil aguentar sem comida. Submetido ao frio extremo e a altas altitudes, o corpo precisa de ainda mais energia para se manter funcionando. “A fome não pode ser experimentada a não ser que a situação seja real. Não saber quando você vai comer de novo é o medo mais terrível do ser humano. E você nunca vai saber como a fome é terrível até que seu corpo comece a se consumir para conseguir energia”.

Depois de 10 dias perdidos no meio dos Andes, eles conseguiram improvisar um rádio e ouviram a notícia desoladora: as buscas tinham sido encerradas. As autoridades afirmaram que não era possível que houvesse sobreviventes e decidiram terminar a procura pelos jovens.

Desolado, Parrado começou a pensar em como faria para sair dali. Conversando com um dos colegas do time, ele chegou à conclusão de que teriam que caminhar em busca de ajuda por conta própria. Mas aquilo não poderia ser feito no inverno, com temperaturas tão baixas.

“Tínhamos que esperar o verão. Afinal, como iríamos atacar a montanha sem nenhum equipamento - luvas, calças especiais, jaquetas? Os melhores alpinistas morrem em condições melhores. Nós não tínhamos chance”.

Ainda faltavam dois meses para que a temperatura começasse a aumentar. “Para esperar o verão tínhamos que comer. E a única coisa que havia para comer eram os corpos de nossos amigos”.

Naquele momento, Parrado e todos os outros sobreviventes fizeram um pacto de vida: “fomos os primeiros doadores conscientes de nosso corpo. Se um de nós morresse, pactuamos que os outros comeriam seu corpo para que pelo menos alguém saísse vivo e pudesse falar para as famílias que a única coisa que importava era abraça-los”.

Em 2016, os sobreviventes dos Andes participaram de uma campanha no Uruguai para incentivar a doação de órgãos. Lá, a doação é presumida, e não consentida, como no Brasil. Isso quer dizer que as pessoas já nascem doadoras e caso não queiram fazê-lo devem se manifestar contra. O Uruguai é o país latino-americano com maior índice de doação de órgãos e tecidos.

A expedição

Sem esperanças de serem resgatados, eles tinham que se organizar para conseguirem sair por conta própria do meio da maior cordilheira de montanhas do mundo. Fizeram alguns cálculos levando em consideração o tempo de viagem até a queda e a direção do avião e chegaram à conclusão de que estavam a cerca de 8 km de distância de um povoado chamado Curicó. A meta era caminhar até lá e pedir ajuda.

Parrado e outros dois jovens ficaram incumbidos de fazer a escalada pelas montanhas dos Andes. No dia 12 de dezembro de 1972 eles iniciaram a expedição e começaram a escalar os paredões de montanhas cobertas de neve que os rodeavam.

Após alguns dias caminhando com muita dificuldade, chegaram ao topo de uma montanha da qual esperavam avistar o povoado de Curicó. Mas tudo que havia do outro lado eram mais montanhas. Perceberam que a expedição seria mais complexa do que imaginavam e decidiram que um deles voltaria ao acampamento na fuselagem do avião – assim os outros dois teriam mais comida e agilidade para continuar a caminhada. Professores das melhores universidades do mundo, entre elas Harvard, disseram que a rápida decisão de mandar um dos expedicionários de volta, tomada em uma situação de extremo desgaste físico e emocional, foi fundamental para a sobrevivência de todos. “Essa decisão salvou nossa vida”.

Caminhando mais depressa, Parrado e o outro sobrevivente finalmente começaram a encontrar vestígios de civilização quase 10 dias depois de terem partido do acampamento. Muito debilitados e quase morrendo de fome, eles já tinham poucas esperanças quando avistaram um vaqueiro montado em um cavalo, do outro lado do rio em que descansavam. Avisaram a ele que tinham sobrevivido à queda do avião e pediram ajuda. O vaqueiro cavalgou muitas horas até a cidade mais próxima e acionou o exército. No dia seguinte, os helicópteros chegaram ao acampamento e resgataram os sobreviventes, exatos 72 dias após a queda do avião.

Parrado voltou para casa, reencontrou o pai e começou a trabalhar com ele. Se tornou um empresário de sucesso e acumulou fortuna na área de eventos e comunicação. “Sou um homem de negócios muito forte e ético. Gosto mais que qualquer um de bons restaurantes, de bons carros, de voar de primeira classe. E como consegui acumular tudo isso? fazendo a mesma coisa que fiz nos Andes. Vivendo cada dia como se fosse o mais importante. O futuro ainda não chegou, ele é uma neblina cinza. O passado está lá atrás. Então como você vai construir o futuro que sempre sonhou? Fazendo o melhor que você pode hoje”.

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