Melhora o cenário para as exportações de carnes

Perspectiva segue positiva para os volumes, e há espaço para os preços subirem

Fernando Lopes

Preço da carne bovina foi destaque de alta no mês
Preço da carne bovina foi destaque de alta no mês

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Os volumes das exportações brasileiras de carnes bovina, de frango e suína permaneceram firmes em junho e colaboraram para que os resultados do primeiro semestre fossem considerados positivos pelos frigoríficos, que costumam ter nessas vendas melhores margens de lucro. A expectativa é que o ritmo seja mantido nesta segunda metade do ano, e a demanda aquecida tende a gerar preços atraentes – inclusive os da carne bovina, que vêm sofrendo especial pressão por causa da resistência dos importadores da China, principal mercado para as proteínas do Brasil no exterior.

CARNE BOVINA

Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) compilados pela Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), as exportações de carne bovina do país (in natura e processada) somaram 1,077 milhão de toneladas e renderam US$ 6,23 bilhões no primeiro semestre. Em relação ao mesmo período de 2022, o volume caiu 0,8% e a receita foi 20,8% menor. Para a China, foram embarcadas 518,3 mil toneladas, 4,6% menos que entre janeiro e junho do ano passado, e as cargas renderam US$ 2,612 bilhões, uma queda de 28,9% em igual comparação.

Além de a retomada da economia chinesa não ter gerado o patamar de vendas desejado por gigantes como JBS, Marfrig e Minerva durante boa parte do semestre, o fluxo de vendas ao país asiático foi interrompido em março em razão da confirmação de um caso atípico de “vaca louca” no Pará. A suspensão durou cerca de um mês, o que afetou volumes e conferiu maior poder de barganha aos importadores, que ampliaram a pressão por renegociação de preços.

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Samuel Isaak, analista de commodities agrícolas da XP Investimentos, observa, porém, que o volume vendido em junho para a China surpreendeu e chegou ao segundo maior nível mensal da história, e que tudo indica que é possível manter o otimismo para estre segundo semestre. Entre julho e dezembro, Isaak espera um crescimento de 11,6% no volume de vendas em relação ao segundo semestre do ano passado. Ele nota, ainda, que o boi gordo está em queda, o que beneficia as margens dos frigoríficos.

CARNE DE FRANGO

De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as exportações de carne de frango do país atingiram 2,629 milhões de toneladas de janeiro a junho, 8,5% mais que no primeiro semestre de 2022. A receita das vendas subiu 9,3%, para US$ 5,168 bilhões, mas houve queda dos preços médios de venda nos últimos meses, o que ligou o sinal de alerta nos corredores de grandes exportadores como BRF e Seara (controlada pela JBS). Para a China, foram embarcadas 390,7 mil toneladas no semestre, 33% mais que entre janeiro e junho do ano passado.

Isaak observa que, exceto por março, quando os embarques de carne de frango ao mercado chinês foram beneficiados pela suspensão das vendas de carne bovina, os volumes foram mais fracos que o inicialmente esperado no primeiro semestre. Mas vê espaço para uma reação expressiva neste segundo semestre e prevê aumento de 14% do volume de embarques ante igual intervalo de 2022. Isso desde que a gripe aviária permaneça longe das granjas comerciais brasileiras.

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Até agora, apenas um dos cerca de 60 casos de gripe registrados no Brasil não foi em uma ave silvestre, e sim em uma ave de subsistência. No cenário-base do analista, não haverá casos em granjas comerciais, mas ele acredita que, mesmo se houver, dificilmente as exportações do Brasil como um todo serão bloqueadas. Segundo ele, nesse caso o conceito de regionalização deve prevalecer, como também sustenta Ricardo Santin, presidente da ABPA. “O mundo ainda passa por uma pressão inflacionária”, lembra Isaak.

CARNE SUÍNA

Também conforme a ABPA, os embarques brasileiros de carne suína chegaram a 589,8 mil toneladas no primeiro semestre, com alta de 15,6%, e renderam US$ 1,413 bilhão, um aumento de 26,7% ante a primeira metade de 2022. Para a China, foram embarcadas 214,4 mil toneladas de janeiro a junho, um incremento de 17,1%.

Num tabuleiro em que exportadores como as Filipinas ainda enfrentam problemas com a peste suína, e outros como os EUA estão com preços elevados, Isaak projeta um aumento do volume dos embarques brasileiros de 5,5% de julho a dezembro em relação ao mesmo período de 2022. Como na carne de frango, as vendas de carne suína também são lideradas por grupos como BRF, Seara e Aurora.

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O analista lembra, finalmente, que a queda das cotações dos grãos (milho e soja) no mercado doméstico continua a favorecer as margens de lucro dos criadores e da cadeia produtiva em geral. Assim, eventuais recuos nos preços das carnes não necessariamente significam margens mais baixas.

Fernando Lopes

Cobriu o setor de energia e foi editor do semanário Gazeta Mercantil Latino-Americana até 2000. Foi editor de Agro no Valor Econômico até fevereiro de 2023