Megaleilão deste mês será um dos mais difíceis do setor, avalia CEO da ISA Cteep

Rui Chammas aponta que conjunto de incertezas afetará deságio oferecido pelas transmissoras no certame da Aneel

Rikardy Tooge

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Em quase uma década no comando de empresas de energia, Rui Chammas nunca se deparou com um leilão de transmissão de energia tão difícil como o que ocorrerá no último dia deste mês, na sede da B3, em São Paulo.

Especialista em cálculos e probabilidade, comum a engenheiros como Chammas, o CEO da ISA Cteep (TRPL4) não chega a se impressionar com os R$ 16 bilhões previstos em investimentos no certame. A questão principal é como precificar um deságio justo em meio às incertezas operacionais.

“A gestão de risco está muito complexa em um momento de dinheiro escasso. Eu não consigo prever com clareza meu custo de capital daqui a dois anos”, avalia o CEO ao InfoMoney. “É o leilão mais difícil que eu já operei, temos uma matriz de custo complexa em um cenário de alta demanda por equipamentos”.

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O primeiro leilão de transmissão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) neste ano irá contratar o escoamento da energia eólica produzida no Nordeste para o Sudeste. Os projetos estão localizados nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Sergipe. Vence a empresa que oferecer o maior desconto sobre a receita anual permitida (RAP).

Amanda Fernandes de Oliveira, gerente de projetos da consultoria especializada em energia PSR, lembra que nove lotes farão parte do certame, sendo os empreendimentos localizados no Nordeste os mais atrativos. “São obras que deverão levar até 72 meses e há, de fato, algumas incertezas na fase de construção”, afirma.

Rui Chammas diz que a ISA Cteep deverá participar do leilão, porém aponta que, em todos os lotes, há algum problema que deverá afetar a gestão de risco das transmissoras.

Nos lotes 1, 2, 6 e 7, o executivo lista dificuldades em se obter o licenciamento ambiental das áreas. Nesses empreendimentos existem áreas de Mata Atlântica, quilombos e cavernas, por exemplo. No lote 5, a questão envolve uma nascente no trajeto do linhão. “Eu não sei em quanto tempo vou conseguir começar a obra e nem em que condições”, diz.

Nos lotes 3 e 4, os projetos deverão passar por áreas com pivôs de irrigação, em que o custo da terra costuma ser mais elevado para as empresas. Problema que também poderá ser observado no lote 9, em que o manejo do solo é considerado difícil para a ampliação da subestação de energia prevista no contrato.

“São lotes grandes, com licenças que podem demorar e sem ter a certeza de que os fornecedores estarão à altura da necessidade das empresas – o mundo inteiro está buscando equipamentos”, acrescenta.

Rui Chammas, CEO da ISA Cteep (Divulgação)
Rui Chammas, CEO da ISA Cteep: matriz de risco é grande, mas empresa deverá participar do leilão da Aneel (Divulgação)

A despeito de uma matriz de incertezas acima do usual, Amanda Oliveira, da PSR, reforça que o leilão do fim deste mês deverá atrair outras gigantes do setor. Além da ISA Cteep, especula-se no mercado a participação de Taesa (TAEE11), Eletrobras (ELET6), CPFL (CPFE3), Enel, entre outras.

Entre agentes de mercado, entende-se que a chamada de garantias exigida pela Aneel para o certame deverá filtrar o leilão para transmissoras com maior capacidade de entrega. “Será um leilão para empresas mais estruturadas”, resume a gerente de projetos da PSR.

Os vencedores dos lotes deverão apresentar garantias de acordo com o percentual de desconto feito na proposta vencedora. Para deságios de até 50%, a garantia exigida será de 5% do investimento previsto. Deságios entre 50 e 60%, a garantia será de 7,5%, e deságios acima de 60%, a garantia será de 10%

“A questão das garantias não é uma preocupação nossa, o importante é conseguirmos calibrar bem nossos riscos para fazer um bid que garanta a nossa rentabilidade”, argumenta Rui Chammas.

Por fim, o CEO da ISA Cteep diz que a empresa não terá um perfil agressivo para ganhar market share a qualquer custo. Chammas lembra que a empresa possui cerca de R$ 10 bilhões em investimentos nos próximos anos, incluindo cerca de R$ 3,5 bilhões em um leilão vencido pela ISA Cteep no ano passado.

Até o fim de 2023, a expectativa é de que o governo federal realize mais um leilão de transmissão, que deverá movimentar algo próximo a R$ 15 bilhões, para projetos localizados nos estados de Goiás, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Tocantins. Estava previsto um terceiro leilão ainda este ano, mas a tendência é que ele ocorra apenas em 2024.

Rikardy Tooge

Repórter de Negócios do InfoMoney, já passou por g1, Valor Econômico e Exame. Jornalista com pós-graduação em Ciência Política (FESPSP) e extensão em Economia (FAAP). Para sugestões e dicas: rikardy.tooge@infomoney.com.br