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Diretor do Banco Original dispara: no Brasil, "há tanta oportunidade que qualquer coisa malfeita é boa"

Executivos do Nubank, Neon, Original e Bankfácil comentam peculiaridades do mercado brasileiro de fintech e preveem o futuro

Fintech
(one photo)

SÃO PAULO – O relacionamento entre bancos e clientes no Brasil está tão marcado por más experiências que mesmo soluções medíocres podem ser oportunidades para o consumidor. Isso, porém, é temporário: em cerca de 5 anos, o cenário deve ser bem diferente.

A análise foi feita por nomes de referência na área: os convidados do evento Fintech Class, organizado pelo StartSe, que aconteceu na última quarta-feira em São Paulo. Para eles, agilidade e inovação são o suficiente para manter uma startup financeira em funcionamento por aqui, mas o mercado tende a ficar mais exigente conforme vivencia novas experiências e ganha mais players.

Para Caio Poli, diretor de experiência do cliente no Nubank, a relação está clara: "a empresa que não buscar mudanças constantes em direção à melhoria da experiência do cliente vai acabar", diz. Por isso, explica, a operadora de cartões de crédito aposta em ações humanizadas e atendimento personalizado - como o caso em que enviou um presente à cachorra de uma cliente que comera o cartão do Nubank. "O cliente brasileiro paga as maiores taxas do mundo e ainda tem uma péssima experiência, isso é um absurdo", exclama o executivo.

“[No mercado financeiro] Ser rápido com qualidade é muito difícil, quem consegue fazer isso tem um diferencial competitivo muito grande. Mas no Brasil, nos próximos cinco anos, há tanta oportunidade que qualquer coisa malfeita é boa”, dispara Guga Stocco, diretor de estratégia do Banco Original. “Mais para frente a competição em cima disso vai ficar mais acirrada”, e é nesse futuro que as melhores empresas deverão ser selecionadas. 

Consumidor

Até poucos anos atrás, os bancos mais robustos dominavam facilmente o mercado, mesmo quando não entregavam boas experiências ao cliente. É isso que bancos como o próprio Original, primeiro a aceitar abertura de contas digitalmente no país, tentam mudar com suas plataformas de atendimento personalizado. “Usabilidade ainda é um tópico inexistente nos grandes bancos”, acredita Guga.

O Neon, também totalmente digital, entrou no mesmo desafio. “Para mim, o importante é criar marcas que são gente como a gente”, comenta Pedro Conrade, CEO da startup. “Quando comecei o Controlly [cartão pré-pago que precedeu a criação do Neon], as experiências bancárias eram todas a mesma, só mudava a cor”.

Sérgio Furió, CEO da BankFácil, tem uma visão semelhante. Sua empresa foi criada com a missão de “resolver o problema dos juros no Brasil”, que vê taxas exorbitantes.

“O Brasil vai ser foda em fintech”, prevê Sérgio, sem rodeios. “A capacidade de disrupção é muito grande, as empresas dessa área no Brasil vão ser as melhores do mundo”, aposta.

O empreendedor elogia ainda a função dos órgãos reguladores brasileiros. “A regulação é muito boa no Brasil e os órgãos estão muito abertos a discutir e abraçar inovação”, analisa, além de proteger as instituições no cenário atual.

Gringos chegando

Outro desafio iminente para as fintechs brasileiras, sejam elas “malfeitas” ou não, é a chegada da concorrência internacional, que ainda não tem atuação significativa no cenário de startups de tecnologia financeira no país.

Questionados sobre uma possível “proteção natural pela regulação” neste mercado, os empreendedores se mostraram menos otimistas do que o autor da pergunta. “Os gringos estão chegando, é iminente”, profere Sérgio, do Bankfácil.

“Eles tentaram chegar antes, em 2002, mas o mercado não estava pronto. Com regulamentação e clientes mais preparados, eles vão chegar em uma avalanche, em massa, principalmente nas plataformas digitais de crédito”, continua. “E acho que isso vai ser bom”.

Para Guga, o perigo está principalmente no atraso que o Brasil vive com relação à experiência eletrônica em si. “O Brasil é muito avançado em tecnologia bancária, mas quando você vai para internet e tecnologia, o bicho pega”, explica. “Nisso, eles [estrangeiros] estão muito avançados. E é preciso tomar cuidado para que não comecem a minar até mesmo as startups”.

 

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