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Sem solução à vista, crise da Boeing se espalha pela economia americana

A empresa afirmou estar confiante de que o instável modelo 737 MAX volte a voar até outubro, mas muitos analistas consideram essa estimativa otimista A Boeing também é a maior exportadora dos Estados Unidos, e um prolongamento da crise pode afetar a balança comercial do país.

boeing 737 max
(Shutterstock)

NOVA YORK - As falhas de segurança do avião modelo 737 MAX, proibido de decolar no mundo todo desde março, abriram a maior crise dos 103 anos de história da Boeing – e o impacto começa a se espalhar pelo setor aeroespacial e pela economia americana.

Segundo os resultados divulgados na quarta-feira, a empresa registrou prejuízo de US$ 2,94 bilhões no segundo trimestre de 2019. A Boeing afirmou estar confiante de que o 737 MAX volte a voar até outubro, mas muitos analistas consideram essa estimativa otimista.

A companhia também reconheceu pela primeira vez que talvez tenha de interromper a produção do modelo temporariamente, algo que não acontece há mais de 20 anos.

Enquanto isso, a Boeing corre para resolver os problemas técnicos apontados como a causa da queda de dois aviões – na Indonésia, em outubro, e na Etiópia, em março, deixando um total de 346 mortos. “É um momento decisivo na história da Boeing”, disse na quarta o combalido CEO Dennis Muilenburg.

Os números contam apenas uma pequena parte da história, mas eles são impressionantes mesmo assim. A Boeing, que tem sede em Seattle, no noroeste dos Estados Unidos, entregou apenas 239 aeronaves comerciais na primeira metade de 2019, um total 37% inferior ao do mesmo período do ano passado.

No segundo trimestre deste ano, não foi feito nenhum pedido sequer de 737 MAX, produto que representa um terço das receitas e dos lucros da companhia. E, no início de julho a flyadeal, empresa de baixo custo da Arábia Saudita, cancelou um contrato de 30 737 MAX – a encomenda foi transferida para a concorrente Airbus.

Mais de cem 737 MAX prontos estão parados em Seattle e só poderão ser entregues quando os voos do avião forem novamente autorizados.

A cautela das empresas aéreas é compreensível, afinal de contas o avião não volta a decolar enquanto não forem resolvidas as questões técnicas que levaram autoridades do mundo todo a suspender os voos da frota.

E o conserto está se mostrando muito mais complexo e demorado do que se esperava, causando um efeito dominó na indústria da aviação.

A americana Southwest, cujos 31 737 MAX formam a maior frota do modelo no mundo, anunciou esta semana que vai parar de operar no aeroporto de Newark, em New Jersey -- um dos três que servem Nova York. A companhia disse que, por causa da crise, o número de passageiros transportados caiu e os lucros diminuíram 175 milhões de dólares.

A American Airlines vem cancelando mais de cem voos por dia desde a proibição de decolagens. A Air Canada teve de alugar aviões da Lufthasa e da Qatar Airways. Companhias aéreas de todo o mundo já indicaram que demandarão compensações da Boeing pelas perdas causadas pela suspensão da operação do 737 MAX.

Enquanto o problema segue sem solução, a Boeing continua produzindo 42 unidades do 737, tanto na versão MAX quanto nas outras. Este número era de 52 até abril.

Efeito dominó

Com 153 000 funcionários empregados diretamente, além de uma enorme cadeia de fornecedores, os problemas da empresa provavelmente afetarão o desempenho da economia americana.

O Departamento do Comércio afirmou que as vendas de peças e aeronaves civis caíram US$ 2 bilhões em maio em relação ao mês anterior, e as exportações de aviões comerciais também foram 12% menores nos primeiros cinco meses deste ano em comparação com 2018.

A Boeing também é a maior exportadora dos Estados Unidos, e um prolongamento da crise pode afetar a balança comercial do país.

Apesar de a empresa acreditar que o 737 MAX volte a decolar ainda este ano, as previsões até aqui têm sido frustradas. O CEO Muilenburg afirma que o problema poderá ser resolvido com software.

Já especialistas em aviação acreditam que serão necessárias mudanças no hardware – mais demoradas, caras e complexas. Em testes em simuladores realizados pela FAA, agência que regulada o transporte aéreo nos Estados Unidos, ocorreram falhas catastróficas. Ou seja: no mundo real, os aviões cairiam.

“A solução da Boeing para seu problema de hardware foi software”, escreveu o piloto e programador Gregory Travis na revista IEEE Spectrum. Segundo Travis, o problema é que o MAX tem turbinas maiores, que resultam numa série de complicações aerodinâmicas.

“Em vez de voltar para a prancheta para desenhar o hardware direito, a empresa decidiu depender de algo chamado ‘Maneuvering Characteristics Augmentation System’, ou MCAS” – nome do sistema apontado como responsável pelos acidentes da Lion Air e da Ethiopian Airlines.

“As consequências dessa tragédia vão muito além da questão técnica”, disse em junho Alexandre de Juniac, diretor-geral da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês).

“A confiança no processo de certificação (de segurança das aeronaves) foi afetada: dentro das autoridades reguladoras, nas relações entre autoridades reguladoras (de diferentes países) e junto ao consumidor.”

Depois dos acidentes com o 737 MAX, vieram à tona detalhes da relação entre a Boeing e as autoridades que dão o OK para a operação de seus aviões.

“O atual ambiente regulatório permite modificações significativas no design das aeronaves, sem a exigência de uma revisão da certificação. Apesar das características de voo diferentes, turbinas maiores e um novo sistema controle de voo, os pilotos familiarizados com os modelos antigos do 737 não tiveram de passar por treinamento em simuladores, uma jogada de marketing da Boeing para vender mais aviões”, escreveram num artigo Jim Hall e Peter Goelz, dois veteranos da agência americana que investiga acidentes de transporte civil, incluindo quedas de aviões. “E a FAA permitiu tudo isso.”

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