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Futebol brasileiro é dependente da venda de atletas. Isso é um problema?

O Brasil se coloca como país formador e vendedor de talentos. A exportação de atletas correspondeu a 20% do total de receitas dos 27 maiores clubes brasileiros em 2018 

Venda de atletas euro
(Shutterstock)

SÃO PAULO - Ainda que o dinheiro oriundo da venda de direitos de transmissão seja a principal fonte de receita dos clubes de futebol brasileiros (em 2018 o setor foi responsável por 42% de toda a receita dos 27 maiores), os números indicam que existe uma forte dependência da venda de jogadores para o orçamento dessas equipes.

A temporada de 2018 foi a terceira consecutiva com crescimento da porcentagem de venda de atletas para o total de receitas dos clubes. Em 2016, foi de 13%, em 2017 de 19% e em 2018 chegou aos 20%. O montante de 2018 só não foi maior que a porcentagem de 2013, que chegou aos 21%.

Os números são do estudo "Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de 2018", realizado pelo Itaú BBA. A pesquisa mostra que transação de atletas trouxe aos cofres das equipes do país cerca de R$ 1,04 bilhão, a segunda principal fonte de receita do futebol brasileiro.

César Grafietti, consultor do Itaú BBA e autor do relatório, chama atenção para o fato que o valor de transações cresceu apenas 3% em euros (principal moeda desse tipo de transação), mas 24% em reais.

"É importante olhar essa diferença entre reais e euros, porque com a taxa [de câmbio] flutuando bastante, ela acaba impactando diretamente as receitas dos clubes", diz Grafietti.

"Mas pra esse ano, com a tendência do euro ficar um pouco mais baixo, os clubes devem ter ganhos, em reais, menores. E os clubes que fazem transações mais significativas vão sentir essa diferença cambial", completa.

Grafietti ainda ressalta que os clubes devem prestar muita atenção nessa flutuação cambial e tomar cuidado quando for vender jogadores - principalmente os times menores e menos estruturados financeiramente.

"O futebol não é só comprar e vender jogadores, é fazer isso no prazo certo, no preço certo. Há uma série de instrumentos financeiros que permitem que os clubes se protejam e se preparem paras eventuais oscilações do câmbio", disse o consultor.

Clubes que dependem muito dessa prática e são referência na formação de talentos, mostram-se sólidos nos números referente às negociações. O São Paulo, por exemplo, é o time brasileiro que mais arrecadou com venda de atletas entre os anos de 2010 e 2018.

Grandes clubes vendem constantemente, a melhores preços e condições, seja pela menor pressão de vender, seja por ter uma melhor e mais consolidada rede de negociações.

Líder no ranking de receitas em 2018 (R$ 653,9 milhões), o Palmeiras lucrou mais com a venda de jogadores do que com os direitos de transmissão de suas competições. O clube alviverde faturou R$ 170 milhões com atletas, enquanto recebeu R$ 137 milhões da televisão.

A participação das transferências na receita palmeirense foi de 26%, um aumento em comparação com 2017, quando era de apenas 7%.

Dos clubes que mais faturaram em 2018 segundo o estudo, Flamengo e Internacional foram os únicos em que o êxodo de jogadores não representou a primeira ou a segunda principal fonte de receita.

"Clubes mais organizados e com histórico nessa prática se beneficiam, sim, mas é necessário cautela. O Brasil vende muito mais do contrata de fora. Isso ocorre porque temos menos capacidade financeira de ir pra fora buscar atletas, ou seja, sobra apenas a venda, o que reflete em uma acomodação dos clubes e, consequentemente, em dependência", explica o consultor.

Mas mesmo os grandes clubes, que são referência no mercado internacional de jogadores, acabam sofrendo com uma certa dependência de negociar atletas para fechar suas contas. Ainda segundo o relatório, os clubes, de maneira geral, acabam dependendo muito do dinheiro proveniente das vendas para ganhar fôlego e gerir suas estruturas durante a temporada.

Essa prática mostra-se como um erro, pois, quando a venda não acontece, ou vem abaixo do esperado, o clube se vê em apuros ou tem de negociar mais atletas que o ideal para fechar suas contas - desfalcando, assim, o elenco, e diminuindo as chances de vencer campeonatos.

"O efeito disso é que na verdade vira um círculo vicioso: contrata caro, paga salários caros, não tem receita recorrente e tem que vender atletas importantes cedo para fechar as contas, depois contrata mais, pagando caro, para repor elenco e por ai vai", relata o estudo.

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