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Lojas Renner: os maiores desafios do sucessor de Galló

Fabio Faccio assume a empresa com a difícil missão de substituir um dos CEOs mais admirados do país

Lojas Renner
(Reprodução/Facebook)

SÃO PAULO - A máxima de que “em time que está ganhando não se mexe” tem uma exceção: quando os jogadores precisam, enfim, se aposentar. Na Lojas Renner essa hora chegou para o capitão do time. Após 20 anos, José Galló deixou a presidência do companhia na quinta-feira (18). O substituto é Fabio Adegas Faccio, até então diretor de produto e que trabalha na Renner há 19 anos.

Quando Galló assumiu seu primeiro cargo na companhia, em 1991, a empresa tinha oito lojas, 800 funcionários e valia menos de R$ 1 milhão. Hoje, a Renner tem mais de 550 lojas, 22.300 funcionários e em 2018 superou a marca de R$ 1 bilhão de lucro pela primeira vez em sua história. “A Renner possui capital pulverizado. No papel, ela não tem um dono, mas na vida real o Galló comanda tudo e gere como dono”, diz um executivo próximo ao até então presidente.

O papel de Galló na companhia é incontestável e nos últimos anos a dúvida do mercado foi justamente quem seria capaz de substituí-lo. O processo de sucessão durou ao todo seis anos e, quando o nome de Faccio foi confirmado, a reação foi de alívio. O executivo é visto como alguém que conhece a operação de ponta a ponta — já que começou como trainee e cresceu aos poucos — e que esteve por dentro de todas as decisões estratégias tomadas nos últimos anos.

“O momento para a Renner é positivo. Como ela está numa trajetória que está indo muito bem, o Fabio não precisará entrar e fazer uma disrupção nos negócios”, afirma a consultora de empresas Betania Tanure. Ainda assim, os desafios de Faccio são grandes. InfoMoney ouviu, analistas, investidores e pessoas próximas à companhia para entender quais devem ser os três maiores. Confira a seguir.

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Fabio Adegas Faccio, novo CEO da Renner (Julio Bittencourt/Divulgação)

1 - Substituir Galló

O maior desafio de Faccio será justamente substituir a figura ímpar de Galló, tanto do ponto de vista dos funcionários quanto dos acionistas. A visão do executivo fez a Renner crescer mesmo durante uma das maiores crises econômicas do país, enquanto muitas varejistas lutavam para encontrar um caminho. Além disso, Galló costumava cuidar de todos os detalhes do operacional, participando do treinamento de funcionário e visitando lojas (anotando o que gostou e o que não gostou em cada uma, por exemplo).

Investidores acreditam que Faccio adotará uma gestão similar. Executivos que já trabalharam com ele garantem que Faccio tem um perfil mais discreto que Galló, mas costuma ser habilidoso em suas relações com executivos e funcionários. "Essa habilidade social que o Fabio possui foi um dos motivos de sua escolha e deve ajudá-lo a estruturar uma boa imagem de CEO", afirma um executivo. 

A dificuldade para Faccio imprimir suas estratégias e visões nos negócios da empresa pode vir justamente de seu antecessor. Galló assume agora o posto de presidente do conselho de administração da Renner. Contar com a experiência do ex-CEO pode ser um trunfo ou atrapalhar. Executivos relatam que Galló é um profissional vaidoso com sua carreira e apegado a regras e estratégias que criou para a empresa que tocava como sua. 

"O fato de Galló assumir o conselho por um lado é bom, porque a empresa continuará contando com toda a sua expertise. Por outro lado, pode se tornar um problema se a companhia quiser seguir uma rota diferente da que ele trilhou até aqui. O Fabio terá que se impor mais perante Galló e o restante do conselho se quiser fazer mudanças", afirma um executivo.

Em empresas de capital pulverizado como a Renner, é comum que o conselho seja mais forte e tome mais decisões. Na Renner, isso nunca foi uma verdade. Pelo menos não até agora.  

2 - Lucrar com as estratégias digitais

O varejo ao redor de todo o mundo passa por uma transformação que exige que as empresas se tornem mais digitais, utilizando tecnologia tanto em suas lojas físicas quanto no comércio eletrônico.

A Renner da gestão Galló parece ciente dessa necessidade. Desde o ano passado, a companhia implementou uma série iniciativas digitais focadas em três grandes áreas: 1 - criar uma base de dados dos consumidores; 2 - avançar nos produtos capturando tendências e com uma melhor reposição das lojas; e 3 - promover uma integração entre online e offline.

Dentro desses pilares, algumas estratégias da Renner são constantemente destacadas por analistas. Uma delas é a estratégia de usar um sistema de aplicação de identificação por radiofrequência em etiquetas de produtos (RFID). Essa tecnologia armazena dados e a loja consegue descobrir, por exemplo, produtos que tendem a ser comprados juntos – e pode aproximá-los nas araras para estimular mais vendas.

Nessa melhoria digital, o cliente também não precisa mais se dirigir ao caixa para finalizar sua compra: pode fazê-lo diretamente pelo tablet com um vendedor em algumas lojas. “O principal desafio da Renner agora é monetizar todas essas iniciativas digitais. É preciso descobrir o que funcionou e ser rápida em corrigir o que não trouxe resultado” afirma Betina Roxo, analista da XP Investimentos.

No comércio eletrônico, a tarefa de Faccio será fazer as vendas da Renner decolarem em um cenário em que a competição aumenta a cada dia. No ano passado a Renner integrou a operação online com as lojas físicas. Hoje, o cliente pode comprar no site e retirar nas lojas do grupo. O chamado "clique e retire" já representa mais de 20% das vendas online, que em boa parte das vezes acabam gerando novas compras no momento da retirada.

“Vender roupas online ainda é um desafio para o varejo como um todo, na Renner isso não é diferente. Não existe uma padronização de tamanhos e o consumidor acaba comprando pouco”, afirma Betina.

3 - Diversificar a Lojas Renner

Uma das grandes apostas de Galló nos últimos anos foi investir na diversificação da empresa, tanto em termos de novas marcas quanto da entrada em novos países. Em setembro de 2017 a empresa inaugurou sua primeira operação em Montevidéu, no Uruguai. Hoje, o país já tem sete lojas da Renner.

Agora a Renner se prepara para entrar na Argentina. No segundo semestre deste ano, a companhia vai inaugurar três unidades nas cidades de Buenos Aires e Córdoba. "Por enquanto são operações pequenas, que vão demorar para trazer um resultado no balanço", comenta uma analista.  

Em paralelo, a companhia segue expandindo as suas marcas. Neste ano, a Renner deve inaugurar entre 25 e 30 novas lojas Renner, contando com as unidades na Argentina e no Uruguai; 10 operações da Youcom, sua marca voltada para o público mais jovem; e nove da Camicado, sua rede de utensílios doméstico .

Além disso, a empresa inaugurou, no ano passado, as primeiras lojas físicas da Ashua, uma operação voltada para o público feminino plus size. “A expansão dessas marcas pode trazer um retorno ainda maior para a empresa no médio prazo. Tem espaço para crescer, mas elas precisam ser bem conduzidas. Precisam se provar”, afirma um gestor que acompanha a empresa. O desafio, a partir de agora, está com Faccio. 

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