Em negocios / grandes-empresas

Gafisa: acionistas definem novo plano para tentar salvar a companhia

Mudanças incluem a entrada do polêmico investidor Nelson Tanure no conselho da empresa

gafisa
(divulgação)

SÃO PAULO - Envolta na maior crise financeira e institucional de sua história, a incorporadora Gafisa finalmente parece ter um novo caminho definido.

Em uma assembleia extraordinária realizada na última segunda-feira, os acionistas aprovaram pontos importantes como a composição do novo conselho de administração, o aumento de capital, a emissão de dívidas e ainda a contratação de consultorias para melhorar a gestão e traçar um novo plano para a empresa.

“A Gafisa já teve erros demais. Nosso compromisso agora é com o acerto da companhia para realmente dar um passo adiante e sair da situação em que ela se encontra”, afirmou o novo presidente da empresa, Roberto Portella, em coletiva de imprensa logo depois da assembleia de acionistas.

Os pontos aprovados na assembleia foram propostos pelos acionistas que devem ditar os rumos da companhia daqui para frente: a gestora Planner Redwood Asset Management, que detém cerca de 18,5% do capital, e o emblemático investidor Nelson Tanure, que espera aumentar sua posição na empresa (atualmente de 500 ações) por meio das capitalizações que a Gafisa deve fazer. Tanure é conhecido justamente por atuar em empresas em dificuldades.

O aumento de capital era o ponto mais dramático do plano aprovado pela empresa nesta segunda. A companhia precisa de caixa urgentemente para pagar as contas. A dívida bruta da Gafisa ultrapassa os R$ 889,4 milhões. Somente este ano os vencimentos totalizam R$ 348,3 milhões. Quanto isso representa do Ebitda, para dar uma ideia de pq é dramático.

Pelo plano aprovado nesta segunda-feira, a construtora fará uma capitalização de até 26 milhões de ações, chegando ao limite de capital autorizado atualmente, de 71 milhões. Além disso, a empresa quer elevar o limite de capital dos atuais 71 milhões para 120 milhões de ações, para poder realizar mais uma capitalização. Essa decisão deve acontecer em nova assembleia na próxima semana, até o dia 23 de abril.

Para sanar seus problemas com dinheiro, os acionistas também aprovaram a emissão de dívida. A companhia estuda emitir debêntures conversíveis de forma mandatória — papéis de dívida que posteriormente são convertidos em ações — no valor de até US$ 150 milhões. A expectativa da empresa é que em até 90 dias todo esse processo de levantamento de recursos seja concluído.

Em busca de uma estratégia

Um aumento de caixa deve servir não apenas para honrar o pagamento da dívida como também para contratar duas consultorias que devem definir para onde a companhia irá.

“O mercado imobiliário no mundo inteiro está abrindo segmentos. Aqui no Brasil temos boas construtoras focadas no Minha Casa Minha Vida, há também gente olhando para prédios comerciais, imóveis para o público sênior... Que escolhas serão feitas pela Gafisa? A consultoria vai nos apresentar a viabilidade de a Gafisa atuar nos setores e vamos decidir”, afirma Roberto Portella.

Uma das consultorias deve ajudar a companhia estabelecer um plano estratégico, que poderia resultar na entrada em novos segmentos do mercado imobiliário. Apesar de ainda não estar contratada, a Bain já estuda os segmentos potenciais para a Gafisa. A outra candidata a auxiliar a Gafisa é a consultoria Falconi, que serviria para auxiliar na melhora da gestão, identificando suas deficiências e propondo soluções.

Tanure e o novo conselho

A assembleia realizada nesta segunda-feira confirmou também novos nomes para o conselho de administração da companhia. Fazem parte do novo conselho, além de Portella, o investidor Nelson Tanure, Demian Fiocca, ex-presidente do BNDES, Antonio Carlos Romanoski, que atuou por 17 anos na companhia de energia Copel, o empresário Thomas Reichenheim, Eduardo Jácome, diretor operacional da Gafisa, e Leo Simpson.  

Questionado sobre a participação de Nelson Tanure na empresa, Portella afirma que “Tanure está firmemente empenhado no processo de capitalização da companhia”. O investidor Nelson Tanure já se envolveu em algumas disputas turbulentas em empresas brasileiras — o caso mais recente foi na companhia telefônica Oi — mas chega em um momento em que tudo o que a Gafisa mais precisa é de tranquilidade.

Como todo o setor de incorporação, a Gafisa sofreu, primeiro, com a explosão de custos da construção e, em seguida, com a crise econômica. Em seu caso, a crise foi agravada com a cisão de sua controlada Tenda, em 2017, que resultou em mais dívidas para a companhia. 

“Temos indício de que a cisão da Tenda foi uma fraude e resultou apenas em mais dívidas para a Gafisa. Vamos entrar com pedido para responsabilização civil e criminal. Tiraram o filé e deixaram o Osso pra Gafisa”, afirmou Aurelio Valporto, que representa parte dos acionistas minoritários da Gafisa, durante a coletiva desta segunda-feira.

Já fragilizada e sem um acionista controlador, a Gafisa, em setembro do ano passado, foi parar nas mãos do polêmico investidor sul-coreano Mu Hak You, que já teve passagens também pela companhia de alimentos Marfrig e pela livraria Saraiva. Mu Hak se tornou acionista majoritário da empresa por meio de sua gestora GWI Group.

Assim que Mu Hak entrou, elegeu um novo conselho de administração, demitiu boa parte da diretoria e centenas de funcionários, freou lançamentos e suspendeu o pagamento de fornecedores — tudo isso sem apresentar ao mercado um plano crível para o futuro da Gafisa. Os planos de Mu Hak foram interrompidos em fevereiro, quando a GWI foi obrigada a vender parte de suas ações na Gafisa para cobrir margens de garantia de suas posições alavancadas no mercado.

Roberto Portella assumiu em março, logo após a renúncia dos diretores que haviam sido indicados por Mu Hak. Atualmente a GWI não é mais acionista da companhia.

Segundo Portella, a Gafisa vai estudar os efeitos dos atos da GWI na companhia e avaliar tanto a administração como as demissões ocorridas. “Há suspeita que a decisão de demissões não foi acertada”, disse o presidente. “Além disso, não se sabe o que foi feito com o dinheiro que a companhia tinha em caixa”, completa Portella.

Invista com a ajuda da melhor assessoria do país: abra uma conta na XP - é de graça!

Mesmo com todo o plano aprovado nesta segunda-feira, as ações da Gafisa tinham queda de 3,6% às 16h15 desta segunda-feira. Mais do que um plano, investidores querem saber se os novos acionistas da empresa conseguirão colocar as promessas em ação.

 

 

 

Contato