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Após 3 anos, Honda inaugura fábrica de R$ 1 bilhão sem gerar novos empregos

Símbolo da crise automobilística nacional, a unidade deve fabricar cerca de 120 mil veículos por ano e concentrar a produção de automóveis da empresa

Honda fábrica Itirapina
(Reprodução / Governo do Estado de São Paulo)

SÃO PAULO - Três anos depois de ser construída, a segunda fábrica brasileira da Honda foi inaugurada na última quarta-feira (27) em Itirapina, no interior de São Paulo. A cerimônia contou com a presença do prefeito da cidade, José Maria Cândido (MDB), do Governador do Estado, João Dória (PSDB), executivos da montadora, membros da imprensa e outros convidados. 

O investimento de R$ 1 bilhão foi anunciado em 2013 e a fábrica ficou pronta em 2016, mas estava parada desde então, em razão da crise econômica, que reduziu a demanda por automóveis. Com isso, tornou-se um símbolo dos problemas que essa indústria enfrentou no país. 

Agora, o plano é que a nova unidade concentre toda a produção de autos da Honda no Brasil - que hoje acontece em uma fábrica inaugurada em 1997, em Sumaré.

Issao Mizoguchi, presidente da Honda South America, argumenta que essa transferência de produção para Itirapina não deve desfalcar a região de Sumaré, que ainda será a responsável por produzir motores, ferramentas e parte da estamparia.

Todos os 450 funcionários que atuam hoje na fábrica, e os 2 mil que irão atuar até 2021, foram transferidos de Sumaré. Nenhuma nova vaga foi aberta.

“É como um taxista que possui dois carros, um mais novo e uma mais antigo. Claro que ele vai querer trabalhar com o mais novo. Nós temos duas fábricas, a diferença é que a de Itirapina é mais moderna e eficiente, então vamos trabalhar com ela”, explica Mizoguchi.

Apesar do tamanho do investimento, também não haverá aumento na produção de carros. Em Itirapina, a princípio, serão produzidas as mesmas 90 unidades do modelo FIT por dia. No segundo semestre, será introduzido o WR-V na linha de produção, com 60 unidades diárias. Os 150 carros por dia são produzidos hoje em Sumaré.

Até 2021, a produção dos modelos CITY e HR-V também será transferida para Itirapina, junto com cerca de 2 mil dos 3 mil funcionários que hoje trabalham em Sumaré.

O presidente da montadora garantiu o lançamento de três modelos híbridos até 2023, mas não entrou em detalhes sobre quais seriam e em qual ordem eles devem chegar ao Brasil.

“Somos mais favoráveis a continuar produzindo os mesmos produtos porque essa mudança de fábrica é uma operação muito arriscada. Podemos ter problemas de qualidade, de logística, existem vários riscos”, comenta Mizoguchi.

O volume é o mesmo, mas a tecnologia da nova fábrica, em especial os robôs, faz com que a produção seja 30% mais eficiente, segundo Otávio Mizikami, Diretor Executivo da Honda do Brasil.

De acordo com Mizoguchi, tudo isso aumenta a competitividade do mercado, já que a tecnologia permite enxugamento nos custos. 

Ainda que veja maior eficiência, o presidente também esclarece que, pelos próximos três anos, não haverá diferença no custo da produção. “A gente gastou muito dinheiro para transferir as pessoas - as despesas são enormes.”

Antonio Megale, presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), argumenta que a inauguração em Itirapina irá aquecer a economia no Brasil, ainda que a fábrica não aumente o volume de produção da Honda e nem gere novos empregos diretos na cidade. Também não há previsão para que sejam inseridos novos modelos na linha de produção.

A fábrica já estava pronta

A Honda não gerou novos empregos diretos na cidade, mas Itirapina, município de 18 mil habitantes, “está em festa”, segundo o prefeito. A planta foi anunciada em 2013, quando, em novembro, a empresa inaugurou a pedra fundamental.

Na época, o Brasil era a 4ª maior economia mundial de mercados, segundo Antonio Megale, e produzia cerca de 3,8 milhões de unidades de automóvel por ano. A fábrica da Honda em Sumaré operava em capacidade máxima, fabricando anualmente cerca de 120 mil veículos.

A previsão era que, em pouco tempo, o Brasil ultrapassasse os 4 milhões de carros lançadas. Itirapina iria fazer com que a Honda duplicasse sua capacidade produtiva.

Em 2016, quando a fábrica estava pronta para começar a funcionar, a recessão fez com que o país caísse de 4° para 9° no ranking mundial e o número de unidades produzidas anualmente diminuísse de 3,8 para 2 milhões. Neste cenário, a Honda optou por manter a estrutura fechada até que a economia crescesse novamente.

Em 2018, o cenário reverteu novamente, e o número de unidades lançadas atingiu 2,5 milhões. Espera-se que em 2019 chegue a 2,9 milhões. Este crescimento foi suficiente para que as empresas automotivas voltassem a investir no Brasil, explica o presidente da  Anfavea, Megale.

Além do retorno da economia brasileira, outro fator decisivo para que fosse decidido finalmente inaugurar a fábrica foram os gastos.

Mesmo inativa, a fábrica em Itirapina tinha 30 funcionários próprios. Duas vezes por semana, eles ligavam todos os equipamentos e simulavam a produção, ainda que nenhum veículo fosse de fato produzido. “Ou fazíamos isso, ou a fábrica estragava”, explica o diretor Otávio Mizikami.

Energia renovável

Em meio ao lançamento da fábrica, a Honda também construiu uma nova turbina em seu parque eólico, em Xangri-lá, Rio Grande do Sul. Ela será responsável por suprir a demanda dos escritórios de São Paulo, Sumaré e as novas atividades de Itirapina.

“Agora temos 10 aerogeradores na Honda Energy, e isso é suficiente para abastecer toda nossa força nacional. Já conseguimos lançar mais de 50 mil veículos produzidos com energia renovável”, comenta Mizoguchi. O investimento para a nova torre de Xangri-lá foi de R$ 30 milhões.

IncentivAuto

Durante o evento, o governador João Dória mencionou o programa IncentivAuto, lançado recentemente, que prevê desconto de 2,7% a 25% no ICMS para empresas que investirem a partir de US$ 1 bilhão no estado e gerarem no mínimo 400 empregos diretos.

O valor do investimento da Honda foi semelhante, mas não se enquadra neste caso, uma vez que ocorreu antes do lançamento do programa e não gerou novas vagas de emprego.

Questionado sobre o assunto, Mizoguchi brinca “se eu pudesse, usaria uma máquina do tempo. Mas estamos fora do desconto e, antes de pensar em investir mais, temos que pagar o R$ 1 bilhão que foi enterrado aqui.”

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